As raízes estão no mesmo lugar

 

Revista da Cultura * Seção: Artes visuais.
Data da publicação: Janeiro de 2017 * Edição n° 108. Páginas 64 a 69.

Sagas familiares

AS RAÍZES ESTÃO NO MESMO LUGAR

Artistas desbravam sagas familiares para encontrar um pouco deles mesmos no que foi vivido por seus antepassados

POR: ADRIANA PAIVA / 08/01/2017

Para cada um deles, um elemento catalisador, um atalho. O caminho de volta às raízes, em um movimento que implica, mais do que revolver dores, descobrir, nas ramificações que se espraiam, algumas gratas surpresas. No caso do fotógrafo, escritor e pesquisador carioca Andreas Valentin, de 63 anos, o fator que precipitou esse processo foi um pacote de slides que pertencera ao pai, encontrado algo fortuitamente, em agosto de 2014, na véspera de ele viajar para Berlim, na Alemanha, onde daria início à sua pesquisa de pós-doutorado no Instituto de História da Arte da Freie Universität. “Eu já estava indo para lá com essa intenção, que era justamente a de aprofundar um pouco mais o meu conhecimento da história da nossa família, algo que já vinha fazendo havia algum tempo, junto com meu irmão, no Brasil, e meus primos, no Canadá”, conta. “Então, levei comigo esse pacotinho de diapositivos [slides de 35 milímetros], me segurando para não ver o que tinha ali dentro.” Ele só foi abrir o pacote um mês depois, quando encontrou, na Suíça, com o irmão, o também fotógrafo Thomas Valentin. O conhecimento, enfim, das imagens ali contidas trouxe um novo alento ao processo de resgate de histórias familiares.

ROTAS BERLINENSES

No esforço de perscrutação, ao tentar entender que fotografias eram aquelas, Andreas lembra que as interrogações só se multiplicavam. “Primeiro, que viagem foi essa que meu pai fez com a mãe dele, com a minha avó? Que Berlim era essa na qual eles estiveram?” Até então, ele sequer sabia que o ano em questão era 1975. “Isso só fui descobrindo aos poucos, em um trabalho quase de arqueologia.”

Em meio a investigações que também buscavam refazer o percurso traçado pelos familiares, Andreas começou a esboçar o que viria a ser o projeto Berlin Rio – Trajetos e memórias, que, contemplado com o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2015, rendeu um livro homônimo e segue em cartaz até dia 8 no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio. Nesse trabalho, os slides catalisadores ganharam especial releitura: Andreas reencenou as imagens daquela viagem de seu pai, Gerhard, em companhia da avó Martha e refotografou-as em preto e branco.
A mostra traz, ainda, documentos e objetos, além de raridades de épocas anteriores às famílias Kaiser e Valentin (parentes do fotógrafo por parte de mãe e pai, respectivamente) virem para o Brasil fugindo do nazismo. A exemplo da reprodução de uma pintura a óleo, presente tanto na abertura do livro quanto na entrada da galeria, onde se vê o tataravô de Andreas, o empresário Valentin Manheimer, cercado pela família durante a celebração do aniversário de 70 anos, em 1887.

Enquanto o projeto já tem desdobramentos sendo avaliados, como uma exibição ampliada, prevista para ocorrer em Berlim em 2018, a garimpagem continua. Processo que, há algum tempo, também conta com a colaboração da historiadora Gabriele Bergner. “De certa forma, foi ela que despertou, em mim e no meu irmão, uns cinco anos atrás, o interesse de nos aprofundarmos sobre a história da família.” Gabriele, que vive em Teltow, subúrbio da capital alemã, vinha realizando pesquisas sobre judeus locais quando deparou com informações sobre um tio-avô dos irmãos Valentin.

“O resgate das histórias continua”, enfatiza Andreas. “E, às vezes, contratado por instituições para fazer pesquisa mais geral, sobre essa classe letrada, de origem judaica, que vivia em Berlim e nos arredores.”

ÁLBUNS DE FAMÍLIA

Memorabilia, projeto da fotógrafa Claudia Jacobovitz, pernambucana de 54 anos, nascida no Recife, já vinha sendo alinhavado em conversas com o irmão e com uma prima desde 2014. “O primeiro foco de interesse desse trabalho sempre foi Nora Pomeranc, essa mulher que concebeu e gerou meu pai, e com quem tive pouca chance de conviver em uma fase mais madura. Eu era muito jovem quando ela faleceu”, recorda Claudia.

A fotógrafa conta que o processo começou a se desenvolver muito calcado na busca dos rastros deixados pela avó, que tinha 22 anos quando saiu da Polônia, em 1927, e imigrou para o Brasil. “Então, por conta do crescente antissemitismo e, posteriormente, da Segunda Guerra e do nazismo, essa família, essa pátria, esses amigos, ela não volta mais a ver. Mas, apesar de toda essa carga de perda, de todo o sofrimento vivido, ela era uma pessoa muito leve, carismática e sábia.”

Outro ponto do projeto destacado pela fotógrafa é a tentativa, assumidamente ritualística, de preencher a lacuna deixada pelos antepassados poloneses. E uma das maneiras encontradas por ela para atingir seu objetivo foi valer-se do rico acervo fotográfico da família perdida. Foram justamente essas imagens que Claudia resolveu levar em sua viagem pela Polônia e por Israel, em janeiro de 2015. “Mas esse projeto, o tempo todo, é muito espontâneo. Não havia nada predeterminado”, reforça. “O que eu levava na minha mala, por assim dizer, era a ideia de um trabalho de memória, a ideia de levar essas fotos para passear.” Em contextos diversos, de Lodz a Jerusalém, Claudia foi depositando as imagens para, em seguida, refotografá-las, evocando, assim, novos significados. “Os lugares foram surgindo. Coloquei, por exemplo, a foto de meus bisavós em um orelhão na Polônia, como uma referência ao fato de que eles esperavam de 15 dias a dois meses para que as cartas chegassem ao Brasil”, ressalta. “No meio do caminho, passamos por Israel, onde tínhamos familiares. Foi lá que surgiu a ideia de fazer outros rituais. E assim também pude levar essas fotos para o Muro das Lamentações. Colei-as no muro, pensando nas regras judaicas que dizem ‘no próximo ano em Jerusalém’”.

Claudia expôs Memorabilia na Arte Plural Galeria, na sinagoga Kahal Zur Israel – a mais antiga das Américas –, ambas na capital pernambucana, e, mais recentemente, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Ela se diz entusiasmada com os desdobramentos que o trabalho continua a ter, como as rodas de conversa com jovens estudantes, e já se articula para torná-lo itinerante.

ARQUEOLOGIA DOS AFETOS

Para a curitibana Manoela Afonso, de 40 anos, professora assistente na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, prática artística, docência e interesse por histórias de vida nunca se mostraram tão profundamente relacionados como agora, quando ela se encontra na iminência de defender sua tese de doutorado na University of the Arts London.

Mas a vontade de conhecer propriamente a história de seus antepassados só veio a ganhar contornos mais definidos muitos anos depois de ela ir, sozinha, visitar Vilarinho dos Galegos, a aldeia ao norte de Portugal de onde seu pai, caçula de 11 irmãos, partira, aos 14 anos, em busca de oportunidades de trabalho no Brasil. A primeira viagem de Manoela à aldeia, hoje incorporada à vila de Mogadouro, aconteceu em 1997. Nessa época, ainda morando em Curitiba, ela acabara de trancar a faculdade de artes, mas continuava vinculada ao curso de agronomia. Experiência que, aliás, ela reputa como responsável por começar a definir as escolhas acadêmicas que, alguns anos mais tarde, viria a fazer. “A problematização do lugar, do lugar de fala, que é geopolítico também; era muito difícil pensar nessas questões em uma faculdade de formação tradicional, com as aulas de gravura e desenho, mas que não davam espaço para refletir a respeito, diferentemente do que ocorria em disciplinas da agronomia”, justifica ela, que, paralelamente, se dedica a oficializar outro projeto, o Núcleo de Práticas Artísticas e Autobiográficas.”

Revisitando as primeiras imagens feitas, quando ainda aprendia os rudimentos da gravura, Manoela conta que foi aí que ela concluiu que as cartas, os diários, as escritas de vida, enfim, estiveram sempre presentes. “Não me dava conta dessa relação. Não existia o pensamento de que aquilo ali tinha uma potência poética, na história de investigar as raízes familiares.”

Em 2010, já consciente de que tinha nas mãos um precioso projeto artístico, Manoela resolveu voltar a Portugal na companhia dos irmãos mais novos. E, para essa ida, ela planejou uma série de ações criativas. “Mandei fazer, para mim e para os meus irmãos, camisas bordadas nas costas, com uma frase que meu pai dizia: ‘À noite, fecho os olhos e ando pelas ruas da minha aldeia’”, lembra. “Depois, nós andamos por lá como uma ação performática, trabalho que intitulei Reconhecimento de Terra Natal.”

Entre encontros e conversas com os tios, eles produziram vídeos e realizaram uma ‘ação-postal’, a partir de uma imagem do pai, registrada na época em que ele saiu de Vilarinho dos Galegos. E escrevi assim: ‘Peço que, se alguém conhecer esse miúdo, que me mande notícias dele.’ Só que não recebi nenhuma carta de volta”, diverte-se. Manoela conta que o pai só retornaria, pela primeira vez, à aldeia de origem 44 anos após ter saído de lá. E que agora, tendo tomado gosto pelo contato com os parentes, quer visitá-los todo ano. Sentindo que cumpriu uma espécie de missão em relação a ele, a artista se volta agora à investigação das raízes familiares pelo lado materno.”

FIM

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Em tempos de hiperconectividade

 

Revista da Cultura * Matéria de capa. Seção: Tecnologia. Páginas 22 a 24.
Data da publicação: Outubro de 2015 * Edição n° 99

 

Desconectados. Reportagem para a Revista da Cultura

 

 

Eles ficam tão bem longe de seus telefones celulares e sem internet que é comum serem vistos como excêntricos. Mas, atentos às consequências da hiperconectividade, o que eles buscam é o uso consciente das vantagens do mundo digital

POR: ADRIANA PAIVA  | 06/10/2015

O processo é inexorável: estamos imersos em uma era de altíssima conectividade. Cabe-nos aprender a lidar com as implicações de uma realidade que está longe de ser compreendida em sua magnitude. Se nossos smartphones, por exemplo, já nos possibilitam a realização de tarefas inimagináveis até poucos anos atrás, a quantidade de dispositivos aos quais esses aparelhos estão aptos a nos conectar só tende a crescer.

No Brasil, segundo levantamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o número de linhas de telefonia móvel ativas no país, até o fechamento desta edição, era de 281,4 milhões. Já no que diz respeito à comercialização de aparelhos celulares, embora as vendas tenham experimentado uma queda no trimestre junho/agosto, isso se deu apenas em relação aos modelos mais simples e de baixo custo. De acordo com dados de duas das maiores fabricantes do país, os brasileiros estão comprando aparelhos cada vez mais sofisticados. Aqui, como em outros países, o que se observa é que tarefas antes realizadas em computadores pessoais, laptops ou tablets estão migrando, em ritmo acelerado, para os smartphones. E assim, à distância da mão ao bolso e com desempenho cada vez mais turbinado, passamos a ter, além daqueles recursos já banalizados, os serviços financeiros, a “carona remunerada”, nossos programas e séries de TV preferidos e uma lista interminável de distrações e regalias. E por que ainda reservaríamos ao telefone móvel a função para a qual ele foi originalmente concebido, se podemos conversar por um sem-número de aplicativos e redes sociais?

O fato é que existe um contingente cada vez mais numeroso de pessoas inclinadas a esquecer um pouco de seus smartphones e a afrouxar as amarras com o mundo digital, trocando parte de suas decantadas maravilhas por prazeres simples como a boa e velha comunicação tête-à-tête e – por que não dizer? – o silêncio.

Há quem procure soluções temporárias, como contratar pacotes de “desintoxicação digital” em hotéis e resorts espalhados pelo planeta, locais onde, assim que chegam, os hóspedes são instados a desligar seus gadgets. E ali, além de se dedicarem a atividades como ioga e meditação, revivem práticas que já não eram capazes de ter senão pela mediação de câmeras de celular, como, por exemplo, estar em contato com a natureza. Em Paraty, litoral fluminense, uma pequena vila de pescadores, também conhecida como a “Praia do Detox Digital”, afina-se com essa proposta, recebendo hóspedes por períodos de três a quatro dias.

Há também quem, partindo para soluções duradouras, já tenha conseguido reformular, completamente, sua relação com a internet e outras ferramentas digitais. Este é o caso da artista plástica Renata de Andrade, 55 anos, nascida em Barretos (SP) e radicada em Amsterdã desde 1988. “Fui usuária pesada de todas as redes: Facebook, Twitter, Google+”, conta. E tal era o volume de informações que ela postava em seus perfis que era frequente seus contatos demonstrarem desconforto. Renata, entretanto, não tardou a concluir que também ela não vinha sendo capaz de aproveitar da melhor maneira as informações que por ali circulavam. “Me viciei rapidamente nos sites de notícias”, revela. “E não apenas notícias sobre o que estava acontecendo mundialmente, mas também conteúdos relacionados a interesses que eu tenho em áreas como ecologia, arte e literatura. Essas coisas que te ocupam e, quanto mais conhecimento se tem, mais prazer você obtém com elas.” A essa altura, Renata admite, suas principais fontes de leitura estavam na internet. A constatação de que o tempo excessivo passado online já a impedia de dispensar atenção a outras atividades importantes foi o que a levou, no final do ano passado, à medida radical de abandonar a maioria das redes nas quais ainda mantinha perfil. Ela lista ganhos advindos da decisão: “Agora, estou lendo cinco livros ao mesmo tempo. Livros impressos”, reforça. “Quanto mais você faz, mais tempo você quer. Então, as prioridades vão se empurrando.”

Outro fator que também colaborou para Renata se tornar menos assídua na internet foi a necessidade de dedicar mais tempo e energia a cuidados com a chácara que ela e sua companheira mantêm nos arredores de Amsterdã. “É um terreno com uma casinha e o resto é tudo vegetal – legumes, verduras, flores. A gente está plantando, o que também passa a ser uma rotina. Faz bem ter de ir para esse lugar lindo, tranquilo e fora da cidade”, ressalta, acrescentando que, do loft onde moram, no centro da capital holandesa, até o sítio, elas não pedalam por mais do que 15 minutos. E tão conveniente quanto: lá não tem wi-fi.

Em São Paulo para cuidar de detalhes referentes ao lançamento de Cavalo das almas, seu segundo livro, a artista também realiza, neste mês, intervenções em grafite pelas ruas da metrópole.

GESTÃO DO TEMPO

O paulistano Alexandre Franzin, 36 anos, terapeuta e coach em desenvolvimento pessoal e de carreiras, relata também já vir, há algum tempo, empreendendo esforços no sentido de estar menos à mercê da internet e de outros aparatos tecnológicos.

Ação que se reflete tanto em seu trabalho com grupos e nos atendimentos individuais quanto no seu dia a dia. Entre as medidas que lhe possibilitam se manter em relação saudável com a tecnologia, ele cita a disciplina de desligar o computador muito antes de ir dormir para conectar-se consigo mesmo e meditar. “Tomo nota da minha rotina em um caderno, descrevo como o tempo foi consumido positivamente e onde tive gasto desnecessário de energia. Este exercício me ajuda a ficar atento.”

Alexandre conta ainda que, há pouco menos de três meses, trocou um celular de limitados recursos por um iPhone, mas somente porque o ganhou de presente. E que suas tentativas de manter um perfil profissional no Facebook, por exemplo, não foram adiante. Seu telefone, ele diz, continua a cumprir a função básica de fazer e receber chamadas. Função que, por uma questão de economia, hoje também é combinada ao uso do Whats-App, um dos poucos aplicativos instalados no aparelho. Afora por esse conforto, seu aparelho poderia ser confundido com o de um frade franciscano. “Vez ou outra, acesso e-mails. Mas não tiro fotos, não gravo vídeos, não tenho Instagram, nem Waze ou Facebook. E me sinto muito feliz por isso”, assegura.

Embora crítico à onipresença dos smartphones, Alexandre diz que tenta não ser incisivo quando percebe, por exemplo, que os jovens com quem trabalha excedem-se no uso dos celulares. “Evito: ‘João, desligue o celular, ou: ‘ Você não sai do celular, né?’ Procuro ir por outro caminho: ‘Galera, vamos rever o que estamos fazendo com o nosso tempo e com a nossa atenção!’”

Sem pretender modificar muito o ritmo em que vem se aproximando das vantagens do mundo digital, o terapeuta lança, ainda neste mês, um projeto online de educação e desenvolvimento pessoal intitulado A arte do simples. “Vai ser um desafio pra mim, mas aqui estamos!”

Box: COMO FICA A NOSSA MEMÓRIA?

De que maneira a nossa memória vem sendo afetada pelo avanço exponencial da tecnologia? Essa é uma questão que, volta e meia, ressurge na rotina de atendimentos da psicoterapeuta cognitiva Dora Sampaio Góes, vice-coordenadora do Grupo de Dependências Tecnológicas do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso, vinculado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Pioneiro, no Brasil, em estudo e tratamento de impactos e consequências do uso desordenado de tecnologia, o grupo, que atende pacientes de diversas faixas etárias, tem, segundo Dora, recebido especial procura por jovens adultos e adolescentes levados por seus pais. Um dos motivos da busca são problemas relacionados ao desempenho nos estudos. Não raro, prejudicado pela sobrecarga de informações e por uma ilusão muito comum entre os mais jovens: a de que eles seriam capazes de conciliar várias tarefas simultaneamente. Não são. Pelo menos não se a meta for realizar todas as tarefas com eficiência, costuma advertir a psicoterapeuta. Sobre a maneira como as informações são apreendidas, ela diz: “Enquanto na leitura via internet as áreas cerebrais ativadas relacionam-se à tomada de decisão – abro ou não aquele link? –, ao ler um livro, eu ativo partes do cérebro ligadas à reflexão e à memória de longo prazo”. E finaliza, recorrendo à analogia: “Quando absorvo um monte de informações de uma vez, tudo no meu armário cerebral fica uma bagunça. Assim, na hora em que preciso puxar determinada informação, puxo errado. Ou, na hora em que puxo, não vem”.

FIM

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Fotografia e passagem do tempo

 

Revista da Cultura * Matéria de capa. Seção: Fotografia. Páginas 24 a 31.
Data da publicação: Novembro de 2014 * Edição n° 88

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

 

MEMÓRIA EXPANDIDA

Artistas e coletivos de fotógrafos encontram na passagem do tempo matéria e desafio para a criação de projetos que extrapolam os suportes tradicionais e, não raro, vão parar nas ruas

POR: ADRIANA PAIVA / 06/11/2014

De Brasília e de Belo Horizonte, mas com atuação também fora de suas cidades de origem (e, inclusive, do país), esses grupos de artistas e fotógrafos têm em comum o fato de encontrarem na passagem do tempo matéria para a criação. Seja pelo resgate da história dos indivíduos retratados, seja pelo uso de métodos próprios da arqueologia ou mesmo enquanto desafio para continuar produzindo coletivamente. Outra linha costura o trabalho de todos: vai longe a época em que eles libertaram a fotografia dos suportes convencionais, apresentando-a para fora das galerias, e, amiúde, imbricada com outras linguagens.

Atuando como coletivo fotográfico desde 2007, Armando Salmito, Henry Macario e o casal Arthur Monteiro e Isabela Lyrio integram o brasiliense Punctum. Três deles estão às voltas agora com o projeto Ensaios sobre o tempo, que deve desdobrar-se em livro, mostras e oficinas itinerantes nos primeiros meses de 2015. A ideia para a empreitada começou a ganhar corpo a partir de um convite de Kazuo Okubo, dono da galeria A Casa da Luz Vermelha, que pretendia reunir, em uma série de iniciativas, fotógrafos em atividade na capital do país..

Uma vez aceito, o desafio do grupo foi criar um projeto que tivesse relação com Brasília e que, de alguma forma, explorasse o tema do tempo. Assim, eles estabeleceram como proposta investigar, por meio de imagens, de que maneiras a passagem do tempo vem alterando a anatomia da cidade e influindo na relação que seus moradores mantêm com ela. Dentro desse princípio, cada fotógrafo elegeu um local a partir do qual desenvolveu seu ensaio. “A gente juntou as temáticas que tinham a ver com a decadência de uma cidade tão nova”, explica Isabela. “Brasília tem 54 anos de fundação, mas é uma cidade que já tem uma história de ruínas”, diz, antes de tocar no assunto que lhe é sentimentalmente caro e que norteia seu ensaio no projeto, a W3 Sul. A mais antiga avenida comercial do Plano Piloto viveu seu período de ouro nas décadas de 1960 e 1970 e, hoje, está em franca decadência. Apesar de tudo, a fotógrafa continua a ver beleza nas ruas onde se habituou a caminhar ainda criança. “A W3 Sul é toda arborizada e você encontra de tudo ali. É um grande passeio público”, defende, sem deixar de destacar que as calçadas estão repletas de sinais do descaso do poder público. “São muitas pedras portuguesas soltas e buracos, de mais de 20 centímetros de profundidade, em plena avenida.”.

Abandonada também está a Piscina de Ondas, tema do ensaio de Henry Macario. Construída dentro do Parque da Cidade, maior centro de lazer público da capital federal, a piscina foi inaugurada em 1978 e, após vários problemas administrativos, encontra-se desativada desde 1997. Embora não tenha frequentado o lugar, Macario encontrou ali o seu elemento. Niteroiense radicado em Brasília desde 1995, foi ao mudar para a cidade que ele se tornou um assíduo nadador. “Longe do mar e das praias do Rio, só me encontrei em Brasília depois que conheci as cachoeiras, as piscinas e o Lago Paranoá”, diz.

Arthur Monteiro valeu-se de sua experiência como retratista, e de um antigo gosto por ouvir as pessoas, para encontrar na Candangolândia o seu tema. É lá onde moram, no que outrora foi um conjunto de acampamentos, vários dos personagens que, direta ou indiretamente, estiveram ligados à construção de Brasília. Monteiro foi atrás de dez desses pioneiros. Encontrou (e fotografou), entre outros, Omar de Moraes, o primeiro alfaiate a se estabelecer na capital federal.

Com as duas primeiras etapas do projeto concluídas, ou seja, a dos registros fotográficos e a da colagem das fotografias em espaços de circulação pública – definidos em conjunto com a curadora, Usha Velasco –, o coletivo dedica-se agora à documentação da receptividade às imagens e do processo de deterioração pelo qual elas já começam a passar.

Foram muitos os fatores que contribuíram para que Usha assumisse a curadoria de Ensaios sobre o tempo. Além da experiência editando publicações voltadas para as artes visuais, ela é integrante de um dos mais longevos coletivos fotográficos do Brasil, o Ladrões de Alma. O grupo, que completa 25 anos de estrada em 2014, está prestes a lançar um livro e a inaugurar uma exposição para marcar a efeméride. “Conheço os punctuns desde 2007 e admiro muito o trabalho deles”, diz. “Fiquei muito grata pelo convite, porque o assunto do tempo me é caríssimo.”

Usha vem desenvolvendo ensaios pessoais sobre o tema desde 1998. Sendo que O olhar no tempo – Encontros e trânsitos, o mais portentoso desses projetos, rendeu-lhe, em 2010, o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. Com a proposta de explorar a noção de que a fotografia é uma janela aberta no muro da percepção espaçotemporal, Usha tirou do baú retratos de família, registrados entre as décadas de 1920 e 1930, pelo avô e pelo bisavô, ambos fotógrafos amadores, reproduziu-os em grandes dimensões e distribuiu-os por vários locais de grande circulação na área central do Distrito Federal.
O livro contando a história do coletivo trará um terço de material inédito, entre textos e ensaios fotográficos. Os outros dois terços serão de conteúdo histórico e vão contemplar trabalhos de todos os 24 fotógrafos que passaram pelo coletivo.

DAS GERAIS

Quatro fotógrafos e um jornalista formam o quinteto por trás da Nitro Imagens, sediada em Belo Horizonte. Misto de agência, banco de imagens e editora. Ou, como eles preferem se apresentar, “um coletivo independente de contadores de histórias visuais”. Histórias que eles costumam narrar valendo-se dos instrumentos mais diversos e sempre segundo as afinidades de cada um com os temas eleitos.
Assim foi com Os Chicos, projeto tocado pelo fotógrafo Leo Drumond em colaboração com Gustavo Nolasco, o jornalista do grupo.

A proposta era abordar aspectos do passado e do presente da região do Rio São Francisco sob a ótica dos ribeirinhos. E a partir de um viés bastante original: “Todos os personagens tinham que ser Franciscos ou Franciscas, ou ter o apelido de Chico ou Chica”, conta Drumond. “Quando se fala de cultura oral, sempre se pensa nos moradores antigos ou nos contadores de ‘causos’. Esse recorte nos impôs uma diversidade de gênero e idade que enriqueceu muito o conteúdo”, justifica. Os Chicos acabou se tornando um dos projetos do coletivo que mais repercussão obteve dentro e fora de Minas Gerais. Além das mostras multimídia, que passaram por várias cidades mineiras, o material rendeu os volumes: Os Chicos – Prosa e Os Chicos – Fotografia. Tendo este faturado o Prêmio Jabuti de 2012 como melhor livro de fotografia. A ideia agora é transformar o projeto em documentário.

Prova de que as narrativas visuais da Nitro Imagens vêm chamando cada vez mais atenção foi o convite recebido para participar do conceituado E.CO – Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-Americanos, que aconteceu em Santos (SP), entre agosto e setembro.

Embora sejam uma formação recente como coletivo, André Hauck e Camila Otto, do SC02, também representaram Belo Horizonte no E.CO. Formados em Artes Visuais pela UFMG, eles já trabalhavam em projetos paralelos desde 2006 – Camila com gravura expandida, Hauck com fotografia. Mas a constatação de que funcionavam bem como coletivo só veio a acontecer em 2012, durante uma residência artística em Buenos Aires. Também ali se esboçou o que viria a ser o norte do grupo: circular pelas cidades, mapeando-as visualmente e propondo reflexões sobre como as pessoas moldam e configuram o espaço e são plasmadas por tudo o que as rodeia.

“A passagem do tempo é crucial em nosso trabalho como um todo, seja no deslocamento espaçotemporal, seja no deslocamento de objetos e entre lugares”, diz Camila. Inventariar, ação de 2013, apresentada durante a residência artística RE:USO, já apontava para essa importância – bem como para a opção de subverter os chamados cânones científicos. Percorrendo o Jardim Canadá, bairro da mineira Nova Lima, ao longo de 15 dias, o coletivo realizou um inventário fotográfico de artefatos descartados pela população, ressignificando-os e transportando-os para o universo da arte contemporânea. “Todo o material coletado foi numerado, fotografado, classificado, ordenado e catalogado, como referência a métodos empregados em processos arqueológicos e científicos”, esclarece Camila. Ação semelhante se repetiu na Feira de São Joaquim, em Salvador. Dessa vez, o filtro da coleta foram os elementos sincréticos da cultura baiana.

Ocupados com vários projetos simultâneos, os mineiros do SC02 também se dedicam agora à edição do livro e do blog resultantes de Entre-Lugares, mapeamento visual da cidade de Foz do Iguaçu, tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. A expectativa é de que ambos os lançamentos ocorram na segunda quinzena deste mês.

FIM

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