As raízes estão no mesmo lugar

 

Revista da Cultura * Seção: Artes visuais.
Data da publicação: Janeiro de 2017 * Edição n° 108. Páginas 64 a 69.

Sagas familiares

AS RAÍZES ESTÃO NO MESMO LUGAR

Artistas desbravam sagas familiares para encontrar um pouco deles mesmos no que foi vivido por seus antepassados

POR: ADRIANA PAIVA / 08/01/2017

Para cada um deles, um elemento catalisador, um atalho. O caminho de volta às raízes, em um movimento que implica, mais do que revolver dores, descobrir, nas ramificações que se espraiam, algumas gratas surpresas. No caso do fotógrafo, escritor e pesquisador carioca Andreas Valentin, de 63 anos, o fator que precipitou esse processo foi um pacote de slides que pertencera ao pai, encontrado algo fortuitamente, em agosto de 2014, na véspera de ele viajar para Berlim, na Alemanha, onde daria início à sua pesquisa de pós-doutorado no Instituto de História da Arte da Freie Universität. “Eu já estava indo para lá com essa intenção, que era justamente a de aprofundar um pouco mais o meu conhecimento da história da nossa família, algo que já vinha fazendo havia algum tempo, junto com meu irmão, no Brasil, e meus primos, no Canadá”, conta. “Então, levei comigo esse pacotinho de diapositivos [slides de 35 milímetros], me segurando para não ver o que tinha ali dentro.” Ele só foi abrir o pacote um mês depois, quando encontrou, na Suíça, com o irmão, o também fotógrafo Thomas Valentin. O conhecimento, enfim, das imagens ali contidas trouxe um novo alento ao processo de resgate de histórias familiares.

ROTAS BERLINENSES

No esforço de perscrutação, ao tentar entender que fotografias eram aquelas, Andreas lembra que as interrogações só se multiplicavam. “Primeiro, que viagem foi essa que meu pai fez com a mãe dele, com a minha avó? Que Berlim era essa na qual eles estiveram?” Até então, ele sequer sabia que o ano em questão era 1975. “Isso só fui descobrindo aos poucos, em um trabalho quase de arqueologia.”

Em meio a investigações que também buscavam refazer o percurso traçado pelos familiares, Andreas começou a esboçar o que viria a ser o projeto Berlin Rio – Trajetos e memórias, que, contemplado com o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2015, rendeu um livro homônimo e segue em cartaz até dia 8 no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio. Nesse trabalho, os slides catalisadores ganharam especial releitura: Andreas reencenou as imagens daquela viagem de seu pai, Gerhard, em companhia da avó Martha e refotografou-as em preto e branco.
A mostra traz, ainda, documentos e objetos, além de raridades de épocas anteriores às famílias Kaiser e Valentin (parentes do fotógrafo por parte de mãe e pai, respectivamente) virem para o Brasil fugindo do nazismo. A exemplo da reprodução de uma pintura a óleo, presente tanto na abertura do livro quanto na entrada da galeria, onde se vê o tataravô de Andreas, o empresário Valentin Manheimer, cercado pela família durante a celebração do aniversário de 70 anos, em 1887.

Enquanto o projeto já tem desdobramentos sendo avaliados, como uma exibição ampliada, prevista para ocorrer em Berlim em 2018, a garimpagem continua. Processo que, há algum tempo, também conta com a colaboração da historiadora Gabriele Bergner. “De certa forma, foi ela que despertou, em mim e no meu irmão, uns cinco anos atrás, o interesse de nos aprofundarmos sobre a história da família.” Gabriele, que vive em Teltow, subúrbio da capital alemã, vinha realizando pesquisas sobre judeus locais quando deparou com informações sobre um tio-avô dos irmãos Valentin.

“O resgate das histórias continua”, enfatiza Andreas. “E, às vezes, contratado por instituições para fazer pesquisa mais geral, sobre essa classe letrada, de origem judaica, que vivia em Berlim e nos arredores.”

ÁLBUNS DE FAMÍLIA

Memorabilia, projeto da fotógrafa Claudia Jacobovitz, pernambucana de 54 anos, nascida no Recife, já vinha sendo alinhavado em conversas com o irmão e com uma prima desde 2014. “O primeiro foco de interesse desse trabalho sempre foi Nora Pomeranc, essa mulher que concebeu e gerou meu pai, e com quem tive pouca chance de conviver em uma fase mais madura. Eu era muito jovem quando ela faleceu”, recorda Claudia.

A fotógrafa conta que o processo começou a se desenvolver muito calcado na busca dos rastros deixados pela avó, que tinha 22 anos quando saiu da Polônia, em 1927, e imigrou para o Brasil. “Então, por conta do crescente antissemitismo e, posteriormente, da Segunda Guerra e do nazismo, essa família, essa pátria, esses amigos, ela não volta mais a ver. Mas, apesar de toda essa carga de perda, de todo o sofrimento vivido, ela era uma pessoa muito leve, carismática e sábia.”

Outro ponto do projeto destacado pela fotógrafa é a tentativa, assumidamente ritualística, de preencher a lacuna deixada pelos antepassados poloneses. E uma das maneiras encontradas por ela para atingir seu objetivo foi valer-se do rico acervo fotográfico da família perdida. Foram justamente essas imagens que Claudia resolveu levar em sua viagem pela Polônia e por Israel, em janeiro de 2015. “Mas esse projeto, o tempo todo, é muito espontâneo. Não havia nada predeterminado”, reforça. “O que eu levava na minha mala, por assim dizer, era a ideia de um trabalho de memória, a ideia de levar essas fotos para passear.” Em contextos diversos, de Lodz a Jerusalém, Claudia foi depositando as imagens para, em seguida, refotografá-las, evocando, assim, novos significados. “Os lugares foram surgindo. Coloquei, por exemplo, a foto de meus bisavós em um orelhão na Polônia, como uma referência ao fato de que eles esperavam de 15 dias a dois meses para que as cartas chegassem ao Brasil”, ressalta. “No meio do caminho, passamos por Israel, onde tínhamos familiares. Foi lá que surgiu a ideia de fazer outros rituais. E assim também pude levar essas fotos para o Muro das Lamentações. Colei-as no muro, pensando nas regras judaicas que dizem ‘no próximo ano em Jerusalém’”.

Claudia expôs Memorabilia na Arte Plural Galeria, na sinagoga Kahal Zur Israel – a mais antiga das Américas –, ambas na capital pernambucana, e, mais recentemente, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Ela se diz entusiasmada com os desdobramentos que o trabalho continua a ter, como as rodas de conversa com jovens estudantes, e já se articula para torná-lo itinerante.

ARQUEOLOGIA DOS AFETOS

Para a curitibana Manoela Afonso, de 40 anos, professora assistente na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, prática artística, docência e interesse por histórias de vida nunca se mostraram tão profundamente relacionados como agora, quando ela se encontra na iminência de defender sua tese de doutorado na University of the Arts London.

Mas a vontade de conhecer propriamente a história de seus antepassados só veio a ganhar contornos mais definidos muitos anos depois de ela ir, sozinha, visitar Vilarinho dos Galegos, a aldeia ao norte de Portugal de onde seu pai, caçula de 11 irmãos, partira, aos 14 anos, em busca de oportunidades de trabalho no Brasil. A primeira viagem de Manoela à aldeia, hoje incorporada à vila de Mogadouro, aconteceu em 1997. Nessa época, ainda morando em Curitiba, ela acabara de trancar a faculdade de artes, mas continuava vinculada ao curso de agronomia. Experiência que, aliás, ela reputa como responsável por começar a definir as escolhas acadêmicas que, alguns anos mais tarde, viria a fazer. “A problematização do lugar, do lugar de fala, que é geopolítico também; era muito difícil pensar nessas questões em uma faculdade de formação tradicional, com as aulas de gravura e desenho, mas que não davam espaço para refletir a respeito, diferentemente do que ocorria em disciplinas da agronomia”, justifica ela, que, paralelamente, se dedica a oficializar outro projeto, o Núcleo de Práticas Artísticas e Autobiográficas.”

Revisitando as primeiras imagens feitas, quando ainda aprendia os rudimentos da gravura, Manoela conta que foi aí que ela concluiu que as cartas, os diários, as escritas de vida, enfim, estiveram sempre presentes. “Não me dava conta dessa relação. Não existia o pensamento de que aquilo ali tinha uma potência poética, na história de investigar as raízes familiares.”

Em 2010, já consciente de que tinha nas mãos um precioso projeto artístico, Manoela resolveu voltar a Portugal na companhia dos irmãos mais novos. E, para essa ida, ela planejou uma série de ações criativas. “Mandei fazer, para mim e para os meus irmãos, camisas bordadas nas costas, com uma frase que meu pai dizia: ‘À noite, fecho os olhos e ando pelas ruas da minha aldeia’”, lembra. “Depois, nós andamos por lá como uma ação performática, trabalho que intitulei Reconhecimento de Terra Natal.”

Entre encontros e conversas com os tios, eles produziram vídeos e realizaram uma ‘ação-postal’, a partir de uma imagem do pai, registrada na época em que ele saiu de Vilarinho dos Galegos. E escrevi assim: ‘Peço que, se alguém conhecer esse miúdo, que me mande notícias dele.’ Só que não recebi nenhuma carta de volta”, diverte-se. Manoela conta que o pai só retornaria, pela primeira vez, à aldeia de origem 44 anos após ter saído de lá. E que agora, tendo tomado gosto pelo contato com os parentes, quer visitá-los todo ano. Sentindo que cumpriu uma espécie de missão em relação a ele, a artista se volta agora à investigação das raízes familiares pelo lado materno.”

FIM

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Inspirados por Nise da Silveira

 

Revista da Cultura * Seção: Arteciência. Páginas 44 a 48.
Data da publicação: Setembro de 2014 * Edição n° 86

O legado de Nise da Silveira - Reportagem e texto por Adriana Paiva. Matéria da jornalista Adriana Paiva

 

 

BRAVOS DISCÍPULOS

Dentro de instituição fundada há 103 anos, na zona norte do Rio, museu e série de projetos inovadores mantêm vivo o legado da psiquiatra Nise da Silveira

POR: ADRIANA PAIVA / 03/09/2014

Prédio do Museu de Imagens do Inconsciente, Engenho de Dentro. Uma jovem de pouco mais de 20 anos acaba de subir o último lance de escadas e chegar ao andar. A psicóloga Gladys Schincariol, coordenadora do museu, interrompe sua fala para se dirigir a ela: “Chegou agora? Vai ao CCBB?”. A moça responde com uma negativa seguida de um sim. O ônibus que a conduziria, juntamente com companheiros do centro de convivência, a uma visita à mostra Salvador Dalí: Uma retrospectiva, já estava estacionado lá embaixo.

Antes de descer a escadaria que desemboca no pátio do Instituto Municipal Nise da Silveira, ela ainda volta para avisar: na sexta-feira, vai assistir a uma peça na Casa de Cultura Laura Alvim. Gladys quer saber como ela fará para voltar para casa. A moça diz que mora em Maria da Graça, bairro da zona norte carioca, não muito distante dali, o que leva a psicóloga a logo supor: “Ah, então você vai pegar o metrô em Ipanema. É isso aí!”. A moça aquiesce e despede-se.

A., a jovem da movimentada agenda cultural (que tem seu nome abreviado a pedido do Instituto), já esteve internada na instituição, mas hoje é uma paciente com liberdade para ir e vir. Paciente, aliás, é termo raramente pronunciado ali dentro. Nas dependências do Nise da Silveira, os portadores de transtornos psiquiátricos são mais comumente referidos como clientes.

Funcionária da instituição desde 1974 – quando esta ainda se chamava Centro Psiquiátrico Dom Pedro II –, Gladys tem um punhado de histórias semelhantes para contar. A psicóloga começou a trabalhar ali como estagiária da doutora Nise da Silveira, quando a médica, havia muito, dera partida aos esforços que revolucionariam discursos e práticas da psiquiatria e hoje constituem a maior inspiração do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, que, entre outros pontos, preconiza a humanização do tratamento dos distúrbios mentais e a desinstitucionalização de indivíduos outrora tratados em regime de internação.

Nesses 40 anos, Gladys viu de perto todas as fases da chamada Reforma Psiquiátrica, desde os seus primeiros momentos, no final da década de 1970, com o processo de redemocratização do país. “Quando cheguei, já eram mais de 1.500 internos”, diz a psicóloga. Exatas três décadas antes, quando a doutora Nise começou a trabalhar ali, eram 2 mil os pacientes internados na instituição. Se as internações, nesses 30 anos, não tiveram queda expressiva, do ano 2000 para cá, com o instituto sendo assumido pelo município, elas vêm caindo consideravelmente. “A cada ano são retirados novos doentes daqui e encaminhados para residências terapêuticas. Hoje, devemos ter menos de 100 internos”, avalia Gladys.

As transferências são parte importante do programa de desinstitucionalização, como explica a filósofa clínica Valéria Sayão, responsável pelo setor de comunicação do museu. “São casas normais, onde essas pessoas moram em estado mais ou menos independente, tendo a sua singularidade preservada, mas com apoio técnico.”

Ao lembrar de casos parecidos com o de A., que hoje é atendida em esquema de externato, ela acrescenta: “No passado, eram pacientes que estavam dentro de uma instituição psiquiátrica e, para qualquer lado que se voltassem, tinham essa percepção do atendimento terapêutico. Hoje em dia, eles moram em suas casas. E, assim como nós vamos ao dentista, ao psicólogo ou a outro clínico, eles vêm ao instituto para receber atendimento”.

Na mesma manhã em que a reportagem da Revista da Cultura esteve no museu, Gladys acabara de proceder a um desses atendimentos. “Fiquei durante horas conversando com um cliente que fazia tempo que não vinha”, conta. “Aqui, atualmente, fazemos o que chamamos de projetos terapêuticos. Cada cliente nosso tem o seu próprio projeto. Desse modo, conseguimos lidar com cada um de maneira diferenciada, respeitando suas idiossincrasias.”

Como extensão desses projetos terapêuticos é que, dentro do museu, também funciona um ateliê de pintura e modelagem. Assim que se adentra a sala amplamente iluminada, chamam a atenção as dezenas de desenhos, alguns pendurados nas paredes, outros distribuídos pelas mesas. Gladys escolhe dois para comentar. O primeiro integra uma série de inspiração heráldica cujo autor é um cliente que também faz aulas de desenho em outro núcleo do instituto. O segundo, uma multicolorida composição geométrica, é usado pela psicóloga para ilustrar o progresso clínico de outra cliente. Gladys conta que, quando essa mulher começou a frequentar o ateliê, ela estava a tal ponto medicada que seus desenhos se resumiam a traços muito curtos, dispersos por toda a folha de papel. “Mas veja esse desenho hoje!”, exulta. “Agora, ela está muito bem. É uma querida e auxilia a todos quando vem aqui.”

Enquanto caminha por uma das galerias, discorrendo sobre obras de ex-pacientes do antigo centro psiquiátrico, que se tornaram figuras de renome no campo das artes plásticas (a exemplo de Emygdio de Barros e Raphael Domingues), vez ou outra, Gladys recorre a uma citação da doutora Nise. “Ela falava que o que está doente, que o que se desestruturou, é o ego desses indivíduos. E que pintar, por si só, é terapêutico, porque despotencializa os conteúdos ameaçadores”, pontua, antes de avisar que precisa sair para uma reunião com membros da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente. Há algum tempo, a psicóloga articula com o grupo uma série de iniciativas em prol do museu. “Estamos reivindicando um espaço aqui ao lado. Queremos ampliar, fazer uma exposição maior, abrir mais para a comunidade – inclusive nos finais de semana. Mas tudo isso com uma estrutura realmente museológica.”

HOTEL DA LOUCURA

A cada ano, aumenta o número de programas e iniciativas, dentro do instituto, voltados à integração de portadores de transtornos mentais à vida saudável em sociedade. O médico Vitor Pordeus, por exemplo, está à frente de dois dos mais bem-sucedidos desses projetos: a Universidade Popular de Arte e Ciência (Upac) e o Teatro de DyoNises. Formado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e com experiência teatral obtida em cursos com os atores Amir Haddad e Camila Amado, o carioca fez de uma antiga enfermaria do hospital a sede de ambas as iniciativas.

Sob o irreverente nome de Hotel e Spa da Loucura, desde 2012, é ali que são desenvolvidas várias das atividades que antes aconteciam no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça Onze, localizada no centro do Rio. “Em 2010, estávamos lá fazendo esses intercâmbios em arte e ciência, cultura e saúde, tendo na doutora Nise da Silveira nossa principal referência de artecientista”, lembra Vitor, que também dá expediente na Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil.

Agora, com a sede própria, ele e seus colaboradores têm multiplicado projetos quase no mesmo ritmo em que obtêm visibilidade para eles. Projetos esses que, não raro, ocorrem além dos muros do Instituto. O DyoNises é um exemplo desse esforço. Todas as quartas-feiras, a trupe faz da praia do Arpoador palco das apresentações do espetáculo-oficina Loucura sim, mas tem seu método, inspirado em Hamlet, de William Shakespeare.

Lá se apresentam não apenas parceiros e “hóspedes” do Hotel da Loucura, mas, eventualmente, também curiosos que surgem manifestando desejo de viver a experiência de atuação teatral. “Todas as nossas atividades são abertas. Qualquer pessoa pode chegar e fazer teatro com a gente. Imediatamente!”, enfatiza Vitor. “O teatro trabalha sem estratificação social. Acho que isso é que faz dar certo, isso é que faz andar.”

Perguntado sobre a maneira como o teatro tem promovido a cura das pessoas com as quais ele trabalha, o médico-ator não hesita ao responder: “Ressignificando! A doença também é produção simbólica. Se você quiser mexer na doença, tem que mexer nos fatores simbólicos, culturais e políticos”, defende. “Aqui, tenho muitos casos de cura. Um grupo inteiro de pessoas trabalhando com engajamento e continuidade, com melhoras no estado mental, nas relações, fazendo viagens”, exemplifica, mostrando fotos de integrantes da trupe. Entre eles, Reginaldo Terra, de 64 anos, que continua a viver no instituto, principalmente por já não ter, fora dali, familiares com quem contar. “O Reginaldo, por exemplo, está internado desde os 11 anos de idade. Ama fazer teatro e faz muito bem. Ele improvisa cenas e faz o fantasma do pai do Hamlet.”

Outra participante ativa de projetos do grupo, a atriz Denise de Andrade, que também tem formação em Ciências Sociais, diz que chegou ao Hotel da Loucura depois de ver uma entrevista de Vitor. “Fiquei impactada com a ideia de uma universidade que valoriza saberes acadêmicos e populares de forma igualitária, sem hierarquias”, diz. “Quando cheguei, vi as ideias de Nise da Silveira em sua plenitude: o afeto catalisador, a convivência que quebra preconceitos, a criação livre e a arte produzindo cura coletiva.”

No hotel, ela também participa do grupo de estudos Gerar, que, a cada 15 dias, recebe interessados em discutir textos de autores que embasam as propostas ali desenvolvidas, como Baruch Spinoza, Franco Basaglia, Humberto Maturana, Paulo Freire e José Pacheco. Criador da inovadora Escola da Ponte, em Portugal, Pacheco, aliás, é um dos convidados do Ocupa Nise – 4º Congresso da Universidade Popular de Arte e Ciência, que acontece de 1° a 7 deste mês na sede do Hotel da Loucura.

FIM

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Em tempos de hiperconectividade

 

Revista da Cultura * Matéria de capa. Seção: Tecnologia. Páginas 22 a 24.
Data da publicação: Outubro de 2015 * Edição n° 99

 

Desconectados. Reportagem para a Revista da Cultura

 

 

Eles ficam tão bem longe de seus telefones celulares e sem internet que é comum serem vistos como excêntricos. Mas, atentos às consequências da hiperconectividade, o que eles buscam é o uso consciente das vantagens do mundo digital

POR: ADRIANA PAIVA  | 06/10/2015

O processo é inexorável: estamos imersos em uma era de altíssima conectividade. Cabe-nos aprender a lidar com as implicações de uma realidade que está longe de ser compreendida em sua magnitude. Se nossos smartphones, por exemplo, já nos possibilitam a realização de tarefas inimagináveis até poucos anos atrás, a quantidade de dispositivos aos quais esses aparelhos estão aptos a nos conectar só tende a crescer.

No Brasil, segundo levantamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o número de linhas de telefonia móvel ativas no país, até o fechamento desta edição, era de 281,4 milhões. Já no que diz respeito à comercialização de aparelhos celulares, embora as vendas tenham experimentado uma queda no trimestre junho/agosto, isso se deu apenas em relação aos modelos mais simples e de baixo custo. De acordo com dados de duas das maiores fabricantes do país, os brasileiros estão comprando aparelhos cada vez mais sofisticados. Aqui, como em outros países, o que se observa é que tarefas antes realizadas em computadores pessoais, laptops ou tablets estão migrando, em ritmo acelerado, para os smartphones. E assim, à distância da mão ao bolso e com desempenho cada vez mais turbinado, passamos a ter, além daqueles recursos já banalizados, os serviços financeiros, a “carona remunerada”, nossos programas e séries de TV preferidos e uma lista interminável de distrações e regalias. E por que ainda reservaríamos ao telefone móvel a função para a qual ele foi originalmente concebido, se podemos conversar por um sem-número de aplicativos e redes sociais?

O fato é que existe um contingente cada vez mais numeroso de pessoas inclinadas a esquecer um pouco de seus smartphones e a afrouxar as amarras com o mundo digital, trocando parte de suas decantadas maravilhas por prazeres simples como a boa e velha comunicação tête-à-tête e – por que não dizer? – o silêncio.

Há quem procure soluções temporárias, como contratar pacotes de “desintoxicação digital” em hotéis e resorts espalhados pelo planeta, locais onde, assim que chegam, os hóspedes são instados a desligar seus gadgets. E ali, além de se dedicarem a atividades como ioga e meditação, revivem práticas que já não eram capazes de ter senão pela mediação de câmeras de celular, como, por exemplo, estar em contato com a natureza. Em Paraty, litoral fluminense, uma pequena vila de pescadores, também conhecida como a “Praia do Detox Digital”, afina-se com essa proposta, recebendo hóspedes por períodos de três a quatro dias.

Há também quem, partindo para soluções duradouras, já tenha conseguido reformular, completamente, sua relação com a internet e outras ferramentas digitais. Este é o caso da artista plástica Renata de Andrade, 55 anos, nascida em Barretos (SP) e radicada em Amsterdã desde 1988. “Fui usuária pesada de todas as redes: Facebook, Twitter, Google+”, conta. E tal era o volume de informações que ela postava em seus perfis que era frequente seus contatos demonstrarem desconforto. Renata, entretanto, não tardou a concluir que também ela não vinha sendo capaz de aproveitar da melhor maneira as informações que por ali circulavam. “Me viciei rapidamente nos sites de notícias”, revela. “E não apenas notícias sobre o que estava acontecendo mundialmente, mas também conteúdos relacionados a interesses que eu tenho em áreas como ecologia, arte e literatura. Essas coisas que te ocupam e, quanto mais conhecimento se tem, mais prazer você obtém com elas.” A essa altura, Renata admite, suas principais fontes de leitura estavam na internet. A constatação de que o tempo excessivo passado online já a impedia de dispensar atenção a outras atividades importantes foi o que a levou, no final do ano passado, à medida radical de abandonar a maioria das redes nas quais ainda mantinha perfil. Ela lista ganhos advindos da decisão: “Agora, estou lendo cinco livros ao mesmo tempo. Livros impressos”, reforça. “Quanto mais você faz, mais tempo você quer. Então, as prioridades vão se empurrando.”

Outro fator que também colaborou para Renata se tornar menos assídua na internet foi a necessidade de dedicar mais tempo e energia a cuidados com a chácara que ela e sua companheira mantêm nos arredores de Amsterdã. “É um terreno com uma casinha e o resto é tudo vegetal – legumes, verduras, flores. A gente está plantando, o que também passa a ser uma rotina. Faz bem ter de ir para esse lugar lindo, tranquilo e fora da cidade”, ressalta, acrescentando que, do loft onde moram, no centro da capital holandesa, até o sítio, elas não pedalam por mais do que 15 minutos. E tão conveniente quanto: lá não tem wi-fi.

Em São Paulo para cuidar de detalhes referentes ao lançamento de Cavalo das almas, seu segundo livro, a artista também realiza, neste mês, intervenções em grafite pelas ruas da metrópole.

GESTÃO DO TEMPO

O paulistano Alexandre Franzin, 36 anos, terapeuta e coach em desenvolvimento pessoal e de carreiras, relata também já vir, há algum tempo, empreendendo esforços no sentido de estar menos à mercê da internet e de outros aparatos tecnológicos.

Ação que se reflete tanto em seu trabalho com grupos e nos atendimentos individuais quanto no seu dia a dia. Entre as medidas que lhe possibilitam se manter em relação saudável com a tecnologia, ele cita a disciplina de desligar o computador muito antes de ir dormir para conectar-se consigo mesmo e meditar. “Tomo nota da minha rotina em um caderno, descrevo como o tempo foi consumido positivamente e onde tive gasto desnecessário de energia. Este exercício me ajuda a ficar atento.”

Alexandre conta ainda que, há pouco menos de três meses, trocou um celular de limitados recursos por um iPhone, mas somente porque o ganhou de presente. E que suas tentativas de manter um perfil profissional no Facebook, por exemplo, não foram adiante. Seu telefone, ele diz, continua a cumprir a função básica de fazer e receber chamadas. Função que, por uma questão de economia, hoje também é combinada ao uso do Whats-App, um dos poucos aplicativos instalados no aparelho. Afora por esse conforto, seu aparelho poderia ser confundido com o de um frade franciscano. “Vez ou outra, acesso e-mails. Mas não tiro fotos, não gravo vídeos, não tenho Instagram, nem Waze ou Facebook. E me sinto muito feliz por isso”, assegura.

Embora crítico à onipresença dos smartphones, Alexandre diz que tenta não ser incisivo quando percebe, por exemplo, que os jovens com quem trabalha excedem-se no uso dos celulares. “Evito: ‘João, desligue o celular, ou: ‘ Você não sai do celular, né?’ Procuro ir por outro caminho: ‘Galera, vamos rever o que estamos fazendo com o nosso tempo e com a nossa atenção!’”

Sem pretender modificar muito o ritmo em que vem se aproximando das vantagens do mundo digital, o terapeuta lança, ainda neste mês, um projeto online de educação e desenvolvimento pessoal intitulado A arte do simples. “Vai ser um desafio pra mim, mas aqui estamos!”

Box: COMO FICA A NOSSA MEMÓRIA?

De que maneira a nossa memória vem sendo afetada pelo avanço exponencial da tecnologia? Essa é uma questão que, volta e meia, ressurge na rotina de atendimentos da psicoterapeuta cognitiva Dora Sampaio Góes, vice-coordenadora do Grupo de Dependências Tecnológicas do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso, vinculado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Pioneiro, no Brasil, em estudo e tratamento de impactos e consequências do uso desordenado de tecnologia, o grupo, que atende pacientes de diversas faixas etárias, tem, segundo Dora, recebido especial procura por jovens adultos e adolescentes levados por seus pais. Um dos motivos da busca são problemas relacionados ao desempenho nos estudos. Não raro, prejudicado pela sobrecarga de informações e por uma ilusão muito comum entre os mais jovens: a de que eles seriam capazes de conciliar várias tarefas simultaneamente. Não são. Pelo menos não se a meta for realizar todas as tarefas com eficiência, costuma advertir a psicoterapeuta. Sobre a maneira como as informações são apreendidas, ela diz: “Enquanto na leitura via internet as áreas cerebrais ativadas relacionam-se à tomada de decisão – abro ou não aquele link? –, ao ler um livro, eu ativo partes do cérebro ligadas à reflexão e à memória de longo prazo”. E finaliza, recorrendo à analogia: “Quando absorvo um monte de informações de uma vez, tudo no meu armário cerebral fica uma bagunça. Assim, na hora em que preciso puxar determinada informação, puxo errado. Ou, na hora em que puxo, não vem”.

FIM

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Entrevista: Domingos Oliveira

Revista da Cultura * Seção: Entrevista. Páginas 14 a 21

Data da publicação: Janeiro de 2015 * Edição n° 90

Entrevista com Domingos Oliveira

 

ONDE MAIS HOUVER POESIA

Entrevista e texto por Adriana Paiva

Quantos Domingos podem se revelar em uma única entrevista? Gire o caleidoscópio e espere. Difícil será escolher com qual deles entabular a próxima conversa. Se com o realizador profícuo e fervilhante de ideias que, no auge da forma física, era capaz de estar envolvido em oito produções ao mesmo tempo; com o amigo fiel dos inúmeros amigos; ou, ainda, com o homem que, diuturnamente, encontra novos motivos para se encantar pela mulher com quem vive há 35 anos.
Certo mesmo é que todos os Domingos têm ótimas histórias para contar. Algumas delas presentes na recém-lançada autobiografia “Domingos Oliveira – Vida minha”. Aos 78 anos de idade e com 50 de carreira, era de esperar que o cineasta, ator e dramaturgo tivesse sido testemunha e partícipe de alguns dos mais importantes acontecimentos da cena artística nacional. Do nascimento da teledramaturgia ao despontar dos maiores atores do país, suas vivências resultam em passagens narradas com graça e minúcias. Também não ficaram de fora as recordações familiares, as paixões precoces, tampouco os momentos felizes e, às vezes tormentosos, de seus cinco casamentos – um dos quais responsável por trazer ao mundo uma das grandes personagens femininas de sua vida, a atriz Maria Mariana. “Quis ter mais filhos, mas, por circunstâncias várias, não pude. A vida quis assim. Fui levado para um caminho, levado para outro. Não me incomodo com isso, não. Maria Mariana me deu quatro netos!”

Apesar de uma decepção aqui, outro travo ali – às vezes, decorrente do Parkinson, doença com a qual foi diagnosticado em 1998 –, o homem segue cheio de planos. Além de um longa-metragem pronto para ser rodado, um romance no prelo e outro sendo escrito, Domingos também planeja levar aos palcos o que, segundo ele, talvez seja o mais audacioso plano jamais aventado, um stand-up contando a sua vida. Para falar de suas memórias e sobre o que tem pensado ultimamente, foi que ele recebeu a Revista da Cultura em seu apartamento no Leblon.

Logo no início de Domingos Oliveira – Vida minha, você se pergunta se deveria contar as passagens de sua vida seguindo uma cronologia. E conclui que não, que seria um desperdício. Como suas memórias foram sendo registradas?

Quando você está escrevendo um livro de memórias, se abre a esse jorrar de recordações imprevistas. Escrevi minhas memórias de uma forma requintadíssima. Sou muito exigente, porque fiz análise. De modo que, quando você reúne todos esses fatos, não é possível deixar de ver que se forma um desenho que é você. E, às vezes, você gosta; às vezes, não…

Algumas passagens da autobiografia também aparecem entremeadas às entrevistas que a atriz Maria Ribeiro gravou com você para o documentário que ela dirigiu (Domingos, lançado em 2011). Ela teve acesso a alguns de seus diários?

Não especialmente. Esses diários sempre foram para mim um modo de eu me entender, lembrar o que fiz nos últimos 15 dias… Mas Maria começou há muito tempo, pegando autorizações no teatro, etc. E a minha vida, ah, minha vida é um livro aberto. Para dizer um lugar-comum adequado…

Vários de seus filmes nasceram de peças teatrais. Infância, seu mais recente longa-metragem, é uma adaptação de “Do fundo do lago escuro”, que estreou em 1980. Por que transpor teatro para o cinema?


O teatro sempre me tocou muito. É uma relação até mais estreita do que parece à primeira vista. Não sou um homem de cinema, talvez. Sou um homem de teatro, minha formação é teatral. Stanislavskiana pura. Não sei dizer onde começa o amor à arte. Mas a arte do ator supera em grandeza todas as outras. Para mim, é mais ou menos a mesma coisa. Todo filme bom tem bases teatrais.

E como você vê o cinema feito atualmente no Brasil?

Não gosto de falar da produção cinematográfica brasileira. Porque ela não está errada aqui ou ali. Ela está toda errada. Está tudo errado! Há uma política voltada a impedir que bons filmes sejam feitos. E, falando do filme que fiz, o “Infância”, que tem excelentes qualidades – tenho certeza de que não estou maluco –, não encontro exibição, não encontro distribuição. As regras do mercado não permitem. Se você faz um filme que tem ótimo roteiro, ótimas atrizes, ótimos atores, um conteúdo digno de ser dito, mas não encontra exibição, é porque algo vai muito mal. É preciso fazer esse balanço entre filme comercial, que pode existir, que deve existir, mas que deve sustentar o filme de arte, digamos assim. Mas também detesto essa expressão, “filme de arte”. Tenho outra melhor: filme útil. Este tem que ser útil para quem o vê. Se o filme não me dá munição para lutar a luta da vida, ele não é bom. A arte também existe para as pessoas viverem melhor. E cada vez a gente está mais distante disso. Não se pode entregar o cinema ao mercado. Do mesmo modo que você não pode entregar a saúde pública e a educação à política…

Infância é fruto também dos princípios do “B.O.A.A.” (Baixo Orçamento e Alto Astral), o polêmico manifesto cunhado por você, em 2005, em defesa da produção de filmes com poucos recursos?

Sempre gostei muito de trabalhar com baixo orçamento. Sou filho dessa geração. Minha influência cinematográfica é, primeiro do neorrealismo, depois da Nouvelle Vague, toda uma escola de baixo orçamento. Então, tenho essa tendência. O dinheiro, às vezes, atrapalha. Às vezes, não! Sempre atrapalha. Porque o dinheiro compromete, mistura outros valores com valores artísticos. Mas quase me bateram quando eu lancei esse negócio do B.O.A.A..

Mas, desde que foi lançado, em meados de 2014, Infância vem fazendo boa carreira nos festivais, recebeu vários prêmios…

Ele tem sido visto como um bom filme. Mas é mau negócio para a distribuidora distribuir qualquer filme. O filme é excelente! Tem Fernanda Montenegro! Não é bom negócio para a distribuidora gastar, com lançamento, uma verba considerável que ela não vai ter de volta. Não gosto de falar sobre esse assunto, que é muito chato. Mas vi um filme outro dia, Relatos selvagens. Um filme sensacional feito na Argentina, um país que está em plena decadência, que tem problemas seriíssimos, mas que consegue ter um cinema fulgurante. Por quê? Porque tem uma boa legislação. Eu não sei dizer como funciona o cinema argentino, em detalhes. Em linhas gerais, é assim: se você fizer um filme bom, se a crítica for boa, se o público for ver (todo mundo sabe, até uma criança sabe o que é um filme bom), se você fizer um filme útil para a sociedade em que você vive, mais cedo ou mais tarde, por um desses mecanismos de financiamento, o governo acaba devolvendo o dinheiro, a verba que você tirou do bolso. Você não tem mais chance de ficar no prejuízo. Em compensação, o governo é sócio dos filmes e ganha se o filme for bom. Com essa pequena estratégia, porém justa – e o Brasil já esteve perto disso –, você pode arriscar e fazer bons filmes, porque perder você não vai perder.

Depois de um período bastante produtivo na Rede Globo, ainda que com contratações intermitentes, em 1993, você atravessou a porta da emissora resolvido a não mais voltar. Você já explicou a decisão alegando cansaço de certa tendência das grandes redes de serem autocentradas e barrarem tudo o que pareça muito autoral. Continua sendo assim?

Não, não continua sendo assim. Está muito pior! Agora, não tem vez, não há lugar para o autor. Eu detesto falar da TV e do cinema, porque preciso desses empregos, de produzir coisas com as quais eu ganhe um dinheirinho. De modo que falo mal e eles ficam danados comigo e não me contratam. Mas eu estava falando, então continuo: a televisão está cada vez pior para o autor. Cada vez ela acha que necessita menos da autoralidade. Melhor dizendo: que ela necessita menos da poesia. Mas adoro a TV Globo. Se pudesse, passava as tardes naqueles corredores, fazendo coisas em uma sala e outra, conforme fiz durante anos. A gente da TV Globo é gente muito boa…

E os programas “Todos os homens do mundo” e “Swing”, que foram ao ar pelo Canal Brasil e você produzia e apresentava em parceria com sua mulher, a atriz Priscilla Rozenbaum?

Todos os homens do mundo era o que eu gostava mais de fazer. Mas fomos devidamente despedidos depois de alguns anos. Há algo no artista de que a televisão não gosta. A regra da televisão é simples: se você é ruim, eles te botam pra fora. Se você é bom, eles te aumentam o salário. Mas, se você é ótimo, eles cortam a sua cabeça…

A que você atribui isso?

Não sou apto a fazer psicanálise da televisão. Mas inveja não é má hipótese. A poesia do mundo incomoda, porque ela conduz à falta de administração. O absurdo da condição humana é encontrado toda vez que você caminha pelos caminhos da arte. E, na televisão, eles não estão interessados nisso. A TV é um business, um ótimo business. Já fui despedido por um senhor muito meu amigo. Ele me chamou lá em cima, no oitavo andar, e disse: “Domingos, você não vai poder dirigir este programa porque você é autoral demais. Você escreve bem, dirige bem, entrega o trabalho no prazo. Mas vamos chamar outro diretor para dirigir sua obra para diminuir sua autoralidade, porque esse é o único defeito que você tem…”

Apesar de tudo, você reconhece que a televisão é uma escola imbatível. Ensina toda a parte técnica e também a lidar com prazos, orçamentos…

É uma superescola! Mas ali tem muita coisa errada. Outro dia, vi o último capítulo de “O rebu”. Os cenários eram ótimos, os diálogos eram ótimos, as câmeras e a luz também eram muito boas… De dar orgulho. Dá orgulho ter esse nível de televisão brasileira. Principalmente pelos atores. A gente olhava e era uma plêiade, para usar o termo certo. Os melhores atores do Brasil, em quantidade enorme. E, no entanto, era ruim. No conjunto, era ruim… É um pouco como se a TV estivesse dando ao povo o que ele quer. E as pessoas que trabalham nisso são martirizadas, porque têm que dar ao público o que ele precisa, mas ele não sabe o que quer. A arte pode ser muito útil socialmente. Mas há essa falta de compreensão do papel social da arte…

E o teatro tem lhe sido um patrão muito mais generoso?

Sempre tentei fazer um teatro comercial de arte. No teatro, a arte ainda dava dinheiro. Atualmente, está mais difícil. As peças não têm mais a menor importância. Não acontecem, não repercutem. Se eu perguntar que boas peças você viu, recentemente… Eu queria ver o Juca de Oliveira, com o “Rei Lear”, e tinha acabado… Mas o teatro é o último reduto da inteligência. E como ele pode ser feito sem dinheiro, não depende tanto da verba, é o lugar para onde vão os astros da imaginação, os poetas. Gosto muito do teatro. Meu próximo projeto é para teatro.

E você pode nos adiantar algo?

Posso. Já fiz muita coisa, tenho uma obra numerosa, mas preciso trabalhar. Queria fazer alguma coisa que fechasse esse ciclo. Não que eu tenha encerrado, absolutamente! A impressão que tenho é que vou morrer aos 111. Eu sou tão apaixonado pela vida que não vai ser fácil me tirar daqui. Mas pensei fazer em seguida o plano mais audacioso, mais louco, mais impossível que eu puder fazer. E como minha condição física não é muito boa – tenho uma doencinha sem a menor importância, mas que às vezes me deixa enfraquecido –, a prática do teatro não é segura para mim. O teatro precisa de um corpo saudável, muito trabalhado. Mas talvez faça um stand-up e entre em cartaz em janeiro ou fevereiro, quando ficar pronto. Eu sozinho no palco, contando minha vida, um stand-up chamado “Vida minha”, adaptado do livro…

Além da volta ao teatro, quais outros planos você tem para 2015?

Estou muito apaixonado pela prosa. Depois da biografia, escrevi um romance; está na mão dos editores. O título é “Antônio”. Gostaria que tivesse o subtítulo O primeiro dia da morte de um homem. E já estou escrevendo outro! Sempre trabalhei muito e agora estou contentíssimo porque saiu o financiamento para fazer meu novo filme, “Apartamento 716”, sobre um apartamento que eu tinha quando era jovem, boêmio…

Voltando no tempo e a um ponto em que sua vocação para a escrita ganhava corpo, você tinha vinte e poucos anos, terminava o curso de Engenharia e vivia uma imensa turbulência em seu primeiro casamento. A análise também o ajudou a lidar com toda aquela angústia?

Eu sempre pirei… Enlouqueci com as separações, o fim dos casamentos. A primeira vez em que estilhacei a minha personalidade por causa do amor foi no fim do meu primeiro casamento, quando comecei a beber muito. Bebia dois dias e dormia um. Nessa fase, isso começou realmente a me prejudicar. E decidi me enriquecer com ela. Comecei a fazer análise e fiz durante anos com um cara que até hoje não sei se era ou não casado… Naquele tempo isso era moda: deitar no divã de costas. Nós tivemos um processo muito bonito. Há várias invenções modernas que um homem deve experimentar. A psicanálise é uma delas. Quando entrei para fazer análise, eu era um garoto boêmio, poeta, mas angustiado. A análise me fez muito bem. Limitado como tudo é limitado, mas gosto de análise.

E continua a fazer?

Não. O último analista que tive era um chinês que era ao mesmo tempo um jesuíta e um biólogo, era muito misterioso e me ouvia muito bem. Depois, não quis mais fazer. Não precisei mais fazer. Mas sou amigo de excelentes psicanalistas. De modo que converso com eles…

Muita gente diz que o filme “Todas as mulheres do mundo” (1966) foi sua cartada definitiva no sentido de reconquistar Leila Diniz. O processo deste longa o ajudou a superar a separação?

Resolveu. O amor com a Leila foi como outro amor qualquer, abençoado por Deus como são todos os amores. A paixão é o Himalaia de Deus. E a gente, quando é jovem, está muito mais apto a viver esse sentimento. Sempre dizem que tudo é sexo. Mas a paixão não, a paixão não é sexo. A paixão é loucura. Eu adorava a Leila, adoro até hoje. Tenho saudades nítidas! Gostaria muito que ela estivesse aqui. Foi um amor jovem, bonito pra caramba! Durou uns três anos.

Você também questiona o mito. Como alguém que não tinha atrás de si toda uma indústria cinematográfica se torna o poderoso símbolo sexual que Leila Diniz se tornou?

É. E esse é um dos capítulos de que mais gosto na autobiografia. De alguma forma, o amor que a gente bota no mundo fica no mundo. A Leila era uma simpaticíssima revolucionária e amava muito as pessoas. Ela deixou isso por aí, através da revolução que ela fez por intuição, sem planejamento.

E você fecha o capítulo sobre Leila Diniz dizendo que foi preciso pesquisar para escrevê-lo, já que transcorreram mais de 50 anos desde o primeiro encontro de vocês. Você leu, a propósito, a biografia “Leila Diniz – Uma revolução na praia”?

Nunca li nenhuma biografia da Leila, nem vi nenhum filme sobre ela. Quem conheceu bem o biografado sabe que biografias são recortes. Recortes pobres. Mesmo o filme da Maria sobre mim é um recorte pobre. O meu livro, o “Vida minha”, é um recorte pobre da minha pessoa. De modo que eu prefiro não ver.

O longa “Separações” (2002) também teve essa virtude curativa, pelo que você conta no capítulo dedicado à Priscilla, sua atual companheira…

Fiquei um ano inteiro separado dela. Depois, ela voltou. Queria muito que ela voltasse e ela voltou. Os homens são assim, provocam até que a mulher resolve ir embora. “Separações” é muito próximo da nossa vivência, coberto de colorido e com uma forte camada de humor! Nós sempre trabalhamos muito juntos. Agora, menos. Mas estamos juntos há 35 anos! E parece que foi ontem. Há 35 anos, quero me separar da Priscilla e ela de mim (risos). Mas a gente não consegue. A Priscilla é uma gracinha, uma pessoa séria, ética, fiel, leal, uma boa atriz… Tenho por ela, frequentemente, encantos de juventude. Mas a gente briga também. Agora, que estou mais velho, é difícil de me relacionar… A relação do homem com a mulher mais nova é uma relação maravilhosa. Talvez, a relação ideal. Mas é preciso sabedoria para carregar. O bom da vida é isso: se desafiar. Pensei que fosse um homem experimentado, pensei que fosse um homem vivido. Hoje, vejo que não. Vivi muitas situações e, com a maturidade, vi o que passei. Mas a velhice e a doença – por que não dizê-lo, apesar de não ser nada grave –, trazem situações novas que você não tem parâmetros para resolver. Isso está sendo para mim delicioso, descobrir novas soluções para novos problemas. Falando assim, parece um slogan da prefeitura quando começam as obras (risos)…

Ou prova de que você já consegue enxergar a situação com aquele bom humor tipicamente seu. Depois de ser diagnosticado com Parkinson, em 1998, você evitou, durante muito tempo, falar publicamente sobre a doença…

Ninguém gosta de falar de velho e de pessoas doentes. O preconceito contra o velho – eu nem falo da doença – é enorme! E precisa ser estudado. Outro dia, me dizia o Aderbal (Freire-Filho), com uma aguda percepção, se eu já tinha reparado como aumentou o preconceito contra os velhos namorarem mocinhas. Atualmente, isso é uma coisa indecente. Isso sempre houve na humanidade. Mas, atualmente, é muito feio. No mundo tem muito preconceito contra o velho. As pessoas odeiam olhar para a face da morte! E o velho representa isso de alguma forma.

Já você, ultimamente, tem refletido bastante sobre esses assuntos…

A velhice é uma coisa muito interessante, é um abacaxi que você faz do seu corpo. Ela cria enigmas dificílimos de resolver e, portanto, interessantíssimos. Um novo tabuleiro de xadrez, que é visto pelos outros. Porque você nunca se sente velho, não há essa possibilidade. Por dentro, eu sou um garoto. O chato é quando a velhice vai te tirando possibilidades. Por exemplo, não posso mais convidar você para dar uma volta no quarteirão depois do almoço. Tenho um problema na perna e ela me cansa. Então, você vai limitando os programas. É um esquema de grande desafio. Um grande desafio holístico, que é transformar a parte que te ficou no todo. E isso é um trabalho artístico (risos), digno de um artista. O medo da morte é um desafio difícil, mas passível de ser vencido. Já o amor, ele ultrapassa toda e qualquer regra. Todo o pensamento sobrenatural que você possa ter sobre ele. O amor não tem nenhuma explicação; ele é a essência do homem mesmo. Quem vive ama. Quem ama vive.

FIM

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Cinema brasileiro em Paris

 

Revista Brasileiros * Editoria: Cultura | Cinema * Páginas 48 a 50
Data da publicação: Abril de 2010 * Edição n° 33

Festival de Cinema de Paris

 

 


A França, em tempo do nosso cinema

O Festival do Cinema Brasileiro de Paris chega à sua 12ª edição e consolida-se como vitrine da produção cinematográfica do Brasil

Por Adriana Paiva

No ano passado, mais de 7 mil pessoas assistiram aos filmes do Festival do Cinema Brasileiro de Paris. Dessas, 58% eram franceses. Os outros 42% do público eram de espectadores de diferentes países – entre os quais, 17% provenientes do Brasil.

“O festival abre uma janela importante para nossos filmes junto a público, imprensa e distribuidores”, anima-se o cineasta Sérgio Rezende, assíduo frequentador e que participará da mostra competitiva com Salve Geral. Organizadora do evento desde a primeira edição, a produtora Kátia Adler, carioca de 48 anos, formada em cinema pela Université Paris 8, reforça: “O festival é uma vitrine da nossa produção cinematográfica; e Paris é a vitrine para toda a Europa. A gente só pode pensar em coprodução e distribuição mostrando os filmes, criando meios para as pessoas se encontrarem”.

Pouco divulgada no Brasil, a mostra terá sua 12ª edição entre os dias 5 e 18 de maio. Está confirmada a exibição de 27 produções, entre documentários e filmes de ficção. Somente estes últimos disputam entre si os prêmios de júri e de público para melhor filme, melhor ator e melhor atriz.

Entre os competidores estão novos diretores, como Marcelo Laffite e Paulo Halm, o que é salutar para a divulgação no exterior da recente produção cinematográfica brasileira. Halm participa com Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos. O título faz alusão à duração, considerada ideal por distribuidores e exibidores, de um longa-metragem. “Permite cinco exibições diárias no cinema, tempo suficiente para trailers e comerciais e, ainda, limpar a área, entre uma sessão e outra”, brinca Halm. O filme trata do ritual de passagem de um jovem escritor. Marcelo Laffite, por sua vez, inscreveu Elvis e Madona – assim mesmo, com um “n” só -, que narra a história de amor entre uma garota homossexual e um travesti. O cineasta comemora uma agenda cheia, com participações em festivais mundo afora: “Depois de Paris, vamos para o concorridíssimo Tribeca, em Nova York, organizado por Robert De Niro”.

Fato inédito, o Festival do Cinema Brasileiro de Paris será inaugurado com um documentário, Dzi Croquettes, premiado como o melhor do gênero no mais recente Festival de Cinema do Rio de Janeiro. O filme marca a estreia de Tatiana Issa e Raphael Alvarez na direção de um longa-metragem. Baseia-se na trajetória dos Croquettes – corruptela de The Crocketts -, grupo de dançarinos/cantores que, nos anos 1970, atuavam travestidos, fazendo do escracho um de seus atrativos. Kátia Adler escolheu esse filme para o début do festival não apenas pela qualidade, mas também pelo fato de os Croquettes terem feito retumbantes temporadas nos palcos parisienses. “Moro há três anos no Rio, onde nasci, mas vivi 24 anos em Paris e acho que adquiri um olhar meio francês, né?”, comenta, confiante na escolha. “Além disso, os franceses estão cansados de filmes de violência.”

Para seduzir mais espectadores, o festival não se limita aos filmes. Também programa exposições de artistas plásticos brasileiros e shows musicais. E mais: anualmente, homenageia um grande artista do cinema brasileiro. Em outras edições, celebrou-se a arte das atrizes Fernanda Montenegro e Marieta Severo, do ator Paulo José e dos diretores Sérgio Rezende e Roberto Farias.

Neste ano, o homenageado será Chico Buarque de Hollanda. Embora tenha participado como ator de um único filme, Quando o Carnaval Chegar, dirigido por Cacá Diegues, em 1972, o cantor, compositor e escritor tem o seu nome ligado a diversas produções cinematográficas. Entre outras participações, foi o autor da música-tema ou da trilha sonora de Dona Flor e Seus Dois Maridos (de Bruno Barreto), A Ostra e o Vento (Walter Lima Jr.) e, sobretudo, de A Ópera do Malandro (Ruy Guerra). Além disso, alguns romances escritos por Chico foram adaptados para o cinema, casos de Benjamim (dirigido por Monique Gardenberg) e Budapeste (Walter Carvalho). “Claro que ele merece essa homenagem”, diz Kátia. “O cinema está cada vez mais presente na carreira do Chico.” De quebra, a organizadora do festival aproveita-se de o compositor ter muitos admiradores na França. “É, também, uma maneira de atrair um novo público para o cinema brasileiro.”

Os cinco filmes serão exibidos em uma mostra paralela do festival. Aproveitando mais uma vez a deixa, Kátia Adler está programando shows de cantoras da nova safra da MPB para desfilar o repertório de Chico Buarque. O próprio compositor, no entanto, embora tenha apartamento em Paris há muitos anos – por sinal, no bairro do cinema onde se dará a mostra -, não confirmou presença. Até agora, alega outros compromissos também na Europa.

O Festival de Cinema Brasileiro de Paris rendeu a Kátia Adler convites para atuar em outros centros. Não apenas na chamada Cidade Luz – metrópole em que foram exibidos, no dia 28 de dezembro de 1895, os primeiros filmes da história, dirigidos pelos irmãos Lumière. Por exemplo: as cidades canadenses de Toronto e Montreal já entraram, há alguns anos, no circuito. Toronto promoveu, em dezembro, a terceira edição do Brazil Film Fest, organizado pela Associação Jangada (misto de produtora, distribuidora e editora), fundada por Kátia em 1998. O Festival du Film Brésilien de Montréal, por sua vez, também caminha para a quarta edição. Evidentemente, os festivais internacionais de Cannes, Veneza e Berlim continuarão a ser o maior objetivo dos cineastas brasileiros. Mas eles sabem muito bem que o pontual trabalho de Kátia é uma das maneiras mais consistentes de continuar a ganhar as telas do mundo.

SERVIÇO
Festival du Cinéma Brésilien de Paris
www.festivaldecinemabresilienparis.com

Link para a matéria, no site da revista:
http://brasileiros.com.br/2010/04/a-franca-em-tempo-do-nosso-cinema/

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Perfil : Thaís Gulin

 

Revista da Cultura * Seção: Música. Páginas : 48 a 50
Data da publicação: Julho/2014 * Edição n° 84

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

ENTRE O NINHO E A ESTRADA

Reportagem e texto por Adriana Paiva

 

Após lançar dois álbuns e um single com excelente acolhida do público e da crítica, a curitibana Thaís Gulin concentra agora energias na criação de canções de seu terceiro trabalho e vive um processo bastante particular de silêncio e recolhimento

Ao descobrir-se mais introvertida do que acreditava, Thaís Gulin não sente culpa por se isolar. E diz entender que essa não é uma necessidade nova, mas que se insinuava desde a época em que lançou seus dois primeiros álbuns, embora tenha se acentuado bastante de um ano para cá. “No primeiro disco foi assim também, embora tenha sido o processo menos calado. Mas, no terceiro, isso está ainda mais forte que no segundo”, diz. “Quase não saio e acho que vou ficar cada vez mais quieta.”

Foi em meio a essas reflexões que a artista concluiu que não fazia mais sentido voltar esforços à produção do DVD que reuniria os trabalhos lançados até aqui, algo que ainda estava em seus planos no ano passado. O hiato entre o disco de estreia Thaís Gulin, de 2007, e ôÔÔôôÔôÔ, de 2011, deu margem a uma urgência criativa e também a um reajuste de curso. “Normalmente, o DVD é lançado logo em seguida ao CD. Acho que não sabia disso antes”, justifica. “Estou aprendendo tudo na prática: o tempo das coisas, o tempo do mercado.”

Até o dia em que Thaís concedeu esta entrevista, em seu apartamento, na Gávea, eram cinco as canções prontas. Todas com letra e música de sua autoria. O que não significa que, para esse futuro álbum, ela descarte a possibilidade de parcerias. Alguns convites já foram feitos e a ideia é, inclusive, repetir colaborações experimentadas nos trabalhos anteriores, como a com o carioca Rodrigo Bittencourt. Outra parceria já divulgada é com o músico pernambucano China. “Eles mandaram músicas lindas. Mas aí entrei nesse processo de ficar muito, muito quieta, sabe?”

NO RIO E PELO MUNDO

Thaís é capaz de discorrer com igual fluência tanto sobre as maravilhas quanto sobre as mazelas do Rio de Janeiro, cidade homenageada em seu segundo disco. Mas ela, que já morou na França, na Bélgica e na Inglaterra, diz não se conceber mais vivendo em outro lugar que não aqui. O sotaque de sua Curitiba natal e a pele muito alva desfazem, no entanto, qualquer possibilidade de a artista ter assumido a imagem típica da garota carioca ao longo dos 11 anos na cidade. No Rio, a cantora continua não sendo dada a frequentar praias. E já não era na época em que morava no Leblon, a poucos metros do mar. “Eu era mais bronzeada quando morava em Curitiba”, diz, sorrindo. E essa, ela assegura, não foi uma mudança que tenha ocorrido em função do assédio dos paparazzi. Observado, sobretudo, após o namoro com Chico Buarque, iniciado em 2009. Desse assunto, aliás, Thaís continua se esquivando com a mesma veemência de sempre. Mas não sem alguma dose de humor. Tendo sido fotografada ao lado do cantor em diversas ocasiões, é às gargalhadas que ela diz não saber se algum paparazzo também chegou a fotografá-la em uma de suas raras incursões pelas praias do Rio.

Na cidade, a cantora estabeleceu uma rotina cujo foco principal está em compor para o próximo disco. E uma das atividades que lhe têm sido fundamentais nesse processo é a meditação transcendental. “Já faço há seis anos. Acordo, medito, tomo um café e começo a trabalhar”, conta. “Isso abre um canal e você fica muito em contato consigo mesma. É maravilhoso!” Outro hábito diligentemente cultivado é o da leitura. No momento, Thaís mergulha em sugestões bibliográficas do músico Jorge Mautner, a quem ela recebeu como convidado na série de shows que realizou, em maio passado, na Caixa Cultural Rio (participação que volta a se repetir na Caixa Cultural Brasília, nos dias 24 e 25 deste mês). Interlocutor frequente da artista há algum tempo, Mautner indicou-lhe a leitura de China tropical, reunião de artigos de Gilberto Freyre sobre a influência do Oriente na cultura brasileira, e os três volumes de História das crenças e das ideias religiosas, do romeno Mircea Eliade.

Na esteira de um intercâmbio tão profícuo, é bastante provável que o próximo disco também venha a ter algo da lavra do amigo. “O Mautner é incrível. Ele é sabido, mas também é solto e muito livre; um poeta”, elogia, entregando em seguida: “Combinamos de fazer uma música juntos”.

HÁBITOS E CRENÇAS

Embora religiões frequentem o universo de interesses da cantora, ela diz não professar nenhuma doutrina em especial. Ainda antes de completar 20 anos e concluir a graduação em Administração de Empresas, na PUC-PR, Thaís chegou a pensar em cursar Teologia. Mas como seu interesse era, sobretudo, conhecer outros costumes e crenças, alguém na universidade sugeriu-lhe que talvez fosse mais apropriado estudar Sociologia. Desde então, certa busca por sentido, nos pequenos e grandes fatos da vida, a tem movido. “Quando viajei para a Tailândia, dois anos atrás, estive em vários templos. Acho tudo muito bonito e a energia é diferente. Como é lindo ter esse convento aqui perto [de casa] ou o Candomblé, que já fui ver algumas vezes. Mas não que eu tenha um credo específico.”

Nessa fase de energias voltadas à criação e de sensibilidade especialmente aguçada, outro hábito que Thaís faz questão de manter é o de deitar com um caderninho ao lado da cama. Na verdade, o método, trazido da época em que trabalhou com o diretor Augusto Boal, passou por adaptações depois que ela teve seguidas noites de sono comprometidas. “Eu ficava sempre ligada e aquilo me deu muita insônia.” Mas a cantora encontrou alternativas para registrar as ideias que afluem enquanto ainda está na cama. “Tenho sonhado muito com música”, revela. “Às vezes, sonho com uma melodia, aí, levanto e gravo no celular. Dia desses, no aparelho em que fui gravar, a memória estava cheia. Precisava voltar a dormir, mas, antes, queria registrar aquela ideia. Aí, levantei e gravei no GarageBand [software da Apple]. Depois, descobri que não tinha gravado nada.”

Algo que se infere logo nos primeiros minutos de uma conversa com a cantora é o quanto tecnologia e internet estão presentes no seu dia a dia. Duas das redes sociais em que ela tem sido mais assídua, ultimamente, são o Facebook e o Instagram. Foi acessando este último, a propósito, que ela descobriu o mural grafitado que seria um dos cenários das fotografias que ilustram esta matéria – não tivesse a arte recebido, na véspera, uma imprevista camada de tinta branca.

Para ela, a rede, além de eliminar a necessidade de o artista estar em tantos lugares, tem funcionado como um eficiente canal para divulgação de seu trabalho, aqui e no exterior. Ela corrobora a impressão com o exemplo de show feito, em outubro passado, na Casa de América, em Madri. Assim que chegou ao teatro, Thaís, que não tem disco lançado na Espanha, diz ter ficado imediatamente apreensiva frente ao tamanho do lugar. “A gente vinha de shows em um país por dia e não tinha parada para descanso. Ia passando o som e pensando, exausta: “putz, é grande, né?” Preocupação que, no final, se mostrou infundada, uma vez que, minutos antes de o espetáculo começar, a fila na bilheteria já dava volta no quarteirão e muita gente teve que voltar para casa. Da Espanha à Alemanha, o mesmo afluxo de público se repetiu em todas as casas onde a turnê aportou. E a cantora não hesita ao atribuir tamanho sucesso também à sua presença nas redes sociais.

Com shows agendados em algumas capitais brasileiras até setembro, a curitibana cogita voltar à Europa antes do final do ano, mas com objetivos diferentes dos habituais. Na Inglaterra, ela fará um novo curso de teatro e, em Paris, uma oficina de canção francesa. “Não para escrever música em francês, mas para me divertir um pouco, limpar a cabeça”, adianta. “Também vou usar esse tempo fora para terminar as músicas. Rendo muito mais quando estou viajando.”

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Link para a edição em PDF, no site da Revista da Cultura [ = ] * Website da jornalista Adriana Paiva: www.verveweb.com.br/vervepress

Do Morro ao MAR

 

Revista da Cultura * Seção: Cidades. Páginas 52 a 55.
Data da publicação: Abril de 2013 * Edição n° 69

Print Revista da Cultura Reportagens de autoria da jornalista Adriana Paiva Porto Maravilha Miguel Pinheiro Morro Conceição portugueses Portugal

Do Morro ao MAR, a África é logo ali

Um museu novo com metas inclusivas, um coletivo de criadores vindo de Portugal, um bairro repleto de ateliês: a zona portuária do Rio vê a arte brotar por todos os lados

POR: ADRIANA PAIVA / 04/04/2013

Embora sejam muitos, mundo afora, os exemplos de cidades que tiveram áreas inteiras transformadas a partir da revitalização de seus portos, também costumam ser numerosos os registros dos impactos negativos levados à rotina de quem circula ou mora na proximidade desses locais. Desapropriações, despejos, aumento do fluxo de pessoas e de veículos estão entre as queixas mais comuns.

Com as obras levadas a cabo na zona portuária do Rio de Janeiro, as reações não são muito diferentes. Iniciadas com vistas à Copa de 2014 e à Olimpíada de 2016, a estimativa da Cdurp (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro) é que as transformações estruturais e viárias no local se estendam por mais três anos. Mas, ainda que os moradores de bairros próximos (como Gamboa, Santo Cristo e Saúde) estejam apreensivos sobre as consequências que trarão às suas vidas, as obras capitaneadas pelo Consórcio Porto Novo (batizadas de Projeto Porto Maravilha) despertam também, aqui e ali, sinais de otimismo.

Um fato recente que veio acentuar a sensação de que novos (e auspiciosos) ares circulam pela vizinhança foi a inauguração, no início de março, do Museu de Arte do Rio (MAR), o primeiro (e o que se anuncia um dos mais imponentes) dos produtos do “Porto Maravilha” a ser entregue à população carioca. Localizado na Praça Mauá, uma das portas de entrada da zona portuária, o museu é fruto de uma parceria entre a Prefeitura do Rio e a Fundação Roberto Marinho.

“Fomos convidados pelo prefeito do Rio de Janeiro, o Eduardo Paes, há cerca de quatro anos, para ajudar a prefeitura a pensar um projeto para esse local, que fosse uma âncora cultural e educacional do processo de revitalização da área portuária”, disse Hugo Barreto, diretor-geral da Fundação Roberto Marinho, durante coletiva de imprensa realizada na véspera da inauguração do MAR. “Esse museu, então, é uma das vertentes, junto com o processo educacional, que visa a contribuir com isso, além de também agregar valor à paisagem urbana do Rio de Janeiro.”

CELEIRO ARTÍSTICO

Pertinho do MAR, a poucos metros do centro financeiro do Rio, mas já nos domínios do bairro da Saúde, encontra-se o Morro da Conceição. Cercado por grandes avenidas, mas a salvo de boa parte das desvantagens do progresso, o local ainda preserva ares de cidade interiorana e tesouros culturais datados dos primeiros momentos da ocupação do Rio de Janeiro, a partir de 1565. Foi ali, desde o final dos anos 1970, que se iniciou um processo – por que não? – de reinvenção, renovação e resgate histórico. Vários artistas plásticos passaram a adotar o morro como moradia e estabelecer lá seus ateliês. Em casas espalhadas por ladeiras com nomes pitorescos como “Rua do Jogo da Bola”, eles foram chegando aos poucos e para ficar. “Hoje, somos 12 artistas”, conta o escultor paulistano Claudio Aun, que está ali desde 1980. “Depois que me mudei, comecei a resgatar uma série de pessoas, porque na época era muito em conta alugar casa aqui”, relembra.

Cedo ou tarde, a presença de tantos criadores em uma mesma vizinhança teria que fazer vicejar alguma outra manifestação artística de peso. E eis que, em 2002, quatro daqueles pioneiros (Claudio Aun, Paulo Dallier, Renato Sant’Ana e Marcelo Frazão), todos artistas plásticos, uniram-se para dar à luz o Projeto Mauá.

No início, a proposta era tornar todas as pérolas do patrimônio histórico local acessíveis a um número maior de pessoas, já que o morro, então, não era muito mais que um ponto remoto na selva de pedra do centro do Rio. E o chamariz adotado pelos artistas para mudar essa situação foi abrir seus ateliês à visitação pública, oferecendo oficinas criativas gratuitas. O projeto, que começaria ocupando o morro de dois em dois anos, um pouco mais tarde aconteceria anualmente. E assim, a cada edição, o evento foi ganhando apoiadores importantes (como o próprio Consórcio Porto Novo), visibilidade na mídia e fãs nos quatro cantos da cidade. “Antes, muita gente de fora achava que, por ser morro, aqui era uma favela”, revela o paulistano Aun. “Todo esse pessoal que chegou depois veio atraído pelo Projeto Mauá”, acredita.

Em um desses “fluxos migratórios”, foi que aportou ali a artista plástica Adrianna Eu, convidada para realizar no local uma intervenção urbana ligada a um projeto do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). “Nunca tinha ouvido falar no Morro da Conceição antes. Foi amor à primeira vista”, conta a carioca, que, há quatro anos, saiu da Urca e mudou-se com pincéis e cavaletes para uma casa na Rua do Jogo da Bola, vizinha de vários outros parceiros de métier. Ela também costuma abrir seu ateliê às atividades do Projeto Mauá. E embora não dê cursos nessa ocasião, já que seu trabalho é mais voltado à arte contemporânea, ela colabora incentivando o cultivo de tradições herdadas dos primeiros moradores vindos de além-mar.

A ilustradora e grafiteira carioca Vanessa Rosa ainda morava no Leblon quando, acatando sugestão de seu orientador de pesquisa, o artista plástico e curador Roberto Conduru, passou a frequentar o morro em busca de inspiração para dar corpo a um projeto para o seu curso de graduação em História da Arte, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O objetivo? Mesclar o passado e o presente desse pedaço específico do Rio para recriá-los por meio de personagens que, posteriormente, seriam pintados nos muros e nas paredes de construções locais. Munida de leituras como os relatos de viajantes e valendo-se de entrevistas informais, Vanessa foi refazendo o percurso de homens e mulheres que passaram pelo morro nas mais diferentes épocas. “Inicialmente, foi um morador e historiador da arte, Rafael Cardoso, quem me mostrou alguns dos lugares mais interessantes para pintar e contou sua visão da história da região”, explica. “Outro, o pintor Paulo Dallier, me emprestou fotos antigas de sua família, que mora no morro já há algumas gerações.” A primeira pintura que Vanessa fez em um muro local, de um “preto velho”, foi atendendo à sugestão da própria dona da casa, que é espírita. Depois dessa, muitas outras intervenções vieram. Sempre pintadas em tamanho natural – e em alguns casos cobrindo muros outrora pichados –, as figuras, que evocam de padres a marinheiros e de sambistas a baianas, continuam lá, lembrando aos moradores um pouco da sua história e de onde vieram os seus antepassados.

DE PORTO EM PORTO

O ator e diretor teatral português Miguel Pinheiro é outro exemplo de forasteiro que caiu de amores pelo Morro da Conceição. Tamanho o seu encanto pelo lugar que foi ali que ele, vindo de Portugal em 2012, resolveu estabelecer moradia. Pinheiro é o diretor artístico do 10pt – Criação Lusófona, coletivo que tem como proposta desenvolver um trabalho multidisciplinar em comunidades periféricas de países de língua portuguesa, de modo a redescobri-las a partir da voz dos nativos.
Antes de chegar ao Rio, o coletivo (criado em 2010) já passou com projetos pela Cidade do Porto, em Portugal, e por Mindelo, em Cabo Verde. “O que nos motivou desde o início foi despir essas comunidades de preconceitos, tais como, ‘a África é toda pobre e miserável’, ‘Portugal é um país sem graça, decadente e submisso’, ou ‘o Brasil não é um país sério’. Apostamos em achar a singularidade desses lugares”, esclarece Pinheiro, reforçando o significado do nome do coletivo: “10pt, em português de Portugal, se lê ‘des.pe-te’, de despir, desnudar”.

Aqui, o projeto, que recebeu o nome de Fui? e está inscrito no programa oficial do Ano de Portugal no Brasil, tem promovido oficinas e passeios fotográficos desde fevereiro. No trajeto das saídas, que invariavelmente compreendem ruas da zona portuária, os participantes fotografam e colhem histórias das pessoas que moram e circulam por ali. Segundo Pinheiro, a iniciativa tem atraído um número considerável de brasileiros que, radicados na cidade há algum tempo, têm especial interesse pela discussão de temas como memória e identidade. Para o ativista, quanto maior for o conhecimento sobre os povos que formam a identidade brasileira, maior também será o orgulho de possuirmos laços de sangue com eles. “Sinceramente, gostaria muito que o trabalho do 10pt pudesse ajudar nesse movimento.”

O material reunido durante as atividades do coletivo no Brasil já tem destino certo. As fotos serão exibidas em duas mostras: uma nas ruas da região portuária, outra no Centro Cultural Justiça Federal (a partir do dia 10 deste mês). Já os depoimentos registrados durante entrevistas com pessoas fotografadas deverão servir de base ao roteiro da peça teatral que Pinheiro pretende encenar ainda no primeiro semestre deste ano. Desde que com “a bênção de Dioniso”, avisa.

DE VOLTA AO MAR

Se tantos cariocas e estrangeiros estão acordando para as maravilhas ocultas no Morro da Conceição, não seria o Museu de Arte do Rio, vizinho tão próximo, que iria se manter impassível diante delas.
Em novembro passado, meses antes de sua inauguração, o museu coordenou a realização ali da segunda edição do evento O Morro e o Mar. Graças ao grande sucesso da edição realizada em setembro – e que levou ao Morro mais de 1600 visitantes –, monitores treinados pela instituição voltaram a conduzir visitas aos ateliês locais e aos pontos de maior importância histórica da região.

A artista plástica Adrianna Eu, que participou das duas edições da iniciativa, vê com muito bons olhos a presença do MAR na vizinhança. “Minhas expectativas, como artista e cidadã, são as melhores possíveis”, garante. Adrianna diz observar uma especial disposição por parte do museu de estabelecer vínculos com a comunidade à sua volta. E cita como exemplo dessa postura a garantia dada pela instituição de que todos os moradores da zona portuária poderão visitar o museu gratuitamente, em qualquer dia da semana, bastando para isso, que apresentem um comprovante de residência à administração. “O MAR é um museu incrível, que chega pensando em criar fortes laços com o seu entorno e um lugar de parceria”, reforça. “Esse cuidado é o que me dá esperança”.

FIM

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Perfil : Flavio Colker

 

Revista da Cultura * Seção: Miniping. Páginas 52 a 55.
Data da publicação: Agosto de 2013 * Edição n° 73

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

 

POR UMA NARRATIVA EMOCIONADA

Fotógrafo com nome ligado à cena artística dos anos 1980 e com trabalhos na coleção permanente do MAM/SP, Flavio Colker se dedica agora a projetos que incluem a volta ao cinema e o lançamento de um livro sobre a companhia de dança de sua irmã

POR: ADRIANA PAIVA / 06/08/2013

Quando concedeu esta entrevista à Revista da Cultura, Flavio Colker estava de malas prontas para voltar do México, para onde partiu no ano passado em busca de inspiração (os retratos do artista nesta matéria foram feitos em sua casa, no Rio de Janeiro, logo após seu retorno ao Brasil). Nessa conversa, ele faz questão de deixar claro que as imagens selecionadas para o livro – com lançamento previsto para outubro e cujas fotos antecipamos nas próximas páginas – que marca os 20 anos da Cia. de Dança Deborah Colker, dirigida por sua irmã, estão entre os muitos projetos que o movem nesse momento – até o mês passado, ele esteve com um trabalho exposto no Oi Futuro Flamengo. Ainda na lista dos planos que já começam a ganhar corpo, estão um roteiro de ficção com Fausto Fawcett, parceiro das antigas, uma série para TV e um ensaio sobre máquinas, paixão que ele traz da infância. Prolixo, intenso, interessado por híbridos, o atual momento desse carioca talvez possa ser resumido em suas próprias palavras ao explicar por que a fotografia digital o arrebatou: “O importante é a gente fazer, mostrar, influenciar e ir em frente”.

A maioria das fotos presentes no livro que marca os 20 anos da Cia. de Dança Deborah Colker tem a sua assinatura. Você já declarou que a Deborah procura a imagem na dança e que suas fotografias foram importantes de várias maneiras no trabalho dela. Como, exatamente?

Ah, de uma maneira muito prática. Porque certas imagens, quando chegávamos nos teatros, nos contratantes, enfim, nas revistas que divulgavam, elas ganhavam um espaço enorme. Porque as fotos eram muito boas, sabe? Mas não vou dizer que eu sozinho fiz isso. O que consegui fazer foi com aquilo que a Deborah me deu, que eram, vamos dizer, protoimagens, cenas muito bonitas, feitas dos movimentos, da cenografia do Gringo Cardia. E tive uma inspiração enorme para fazer as fotos. Então, num nível muito prático, essas fotos foram importantes para o trabalho dela circular pelo mundo. E tem outro lado, que é o que gosto mais de falar, que é a questão das inspirações. Qual é a inspiração da Deborah no trabalho dela? No livro, ela divide isso. Ela fala que tem uma primeira fase e uma segunda fase. Na primeira, ela está se inspirando nas ações do cotidiano e transformando aquilo em dança, estilizando. Mas ela também vai buscar em outros lugares. Em Nó[espetáculo que estreou em 2005], por exemplo, ela busca inspiração nas imagens do sadomasoquismo. Acho que esse é um dos trabalhos mais importantes dela. Não à toa, é recorde de público. As imagens são muito importantes, sabe? Essa pesquisa, digamos assim, eu fazia de olhar, por exemplo, o [Robert] Mapplethorpe e como ele transforma isso [o universo sadomasoquista] em arte. Ou como o Velvet Underground transforma isso em música.

4×4 e Nó foram dois espetáculos em que você também assinou a direção com a Deborah…

E teve outros em que eu também participava e ela me deu o título de dramaturg, que recusei, porque não me preparei para ser um dramaturg. Mas trabalhava, vamos dizer, discutindo com ela a arquitetura dramática do espetáculo, onde tinha uma “barriga”, em que podia melhorar, enfim, buscando a dinâmica…

Mas no 4×4, por exemplo, que tem essa proposta de um diálogo entre dança e artes plásticas, houve uma participação maior sua?

Não. Na verdade, esse tem menos. Acho que o Nó é o espetáculo que tem mais presença minha. Porque, quando faz o 4×4, a Deborah vai procurar esses artistas que são crânios, como o Cildo [Meireles], o [coletivo] Chelpa Ferro, o Gringo [Cardia]… Caras muito inteligentes. Aí, eu saí de campo (risos). Acho que dirigir é deixar as pessoas fazerem o que elas sabem fazer melhor. Você só vai ali ver o que está faltando e ajuda.

Kid Abelha, Blitz, Barão Vermelho, Legião Urbana… Você fotografou e dirigiu os videoclipes de várias das bandas que despontaram nos anos 1980, batiam ponto no Circo Voador e tocavam direto na Fluminense FM [rádio de Niterói que tinha o rock como carro-chefe e entrou para a história sob o epíteto de ‘a Maldita’]. Como se deu seu ingresso no mercado fonográfico?

Por intuição e por causa de algumas circunstâncias. Eu precisava trabalhar. Trabalhei como assistente num estúdio e aprendi logo. Era a efervescência, era o momento, entende? A intuição da gente fica aguçada, a antena ligada. Você vê o que está acontecendo e pensa: sou o cara certo pra fazer o que tem que ser feito (risos)… Aí, quando eu já trabalhava como repórter fotográfico da Editora Abril, por acaso, tive de fazer umas fotos da Neuzinha Brizola…

Sim, a filha do Leonel Brizola [ falecida em 2011 por complicações decorrentes de uma hepatite ]. Quando ela estourou com o hit Mintchura, no início da década de 1980, o pai dela tinha acabado de ser eleito governador do Rio.

Exatamente. E a Neuzinha sacou na hora que eu sabia fazer. Tanto que, depois daquelas fotos, ela me chamou pra fazer a capa do LP dela. Logo que eu fiz essa capa, o momento do rock brasileiro aconteceu de uma hora pra outra: bum!

Você se diz uma pessoa em busca permanente de sentido no que faz. Há não muito tempo, você dava aulas de fotografia na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Lecionar é algo que já não o move mais?

Adoro ensinar! Parei pelo seguinte: as reflexões que desenvolvo nas aulas, que são bastante improvisadas, acabam influenciando muito o meu trabalho pessoal. Às vezes, tenho questões não resolvidas no meu trabalho e não quero colocar para os meus alunos. E nem quero que o falado em aula, principalmente isso, me influencie quando estou trabalhando. Eu estava sofrendo, sabe? Foi por esse motivo que dei um tempo. Porque, para mim, dar aulas é muito intenso, me realiza muito. Enfim, mas tenho que fazer minha fotografia, minhas narrativas, tenho que escrever… Essas coisas misturadas estavam provocando um impedimento no meu trabalho.

Foi diante dessa constatação que você decidiu partir para o México? Em que cidade se estabeleceu aí?

Agora, estou em Querétaro, uma cidade pequenininha. O México, para mim, foi um “ligar as turbinas”, o turbo nas imagens, sabe? Porque estou sempre dividido entre a imagem e a narrativa. Eu tinha começado a escrever no Facebook, escrever alguns ensaios sobre fotografia, a partir das aulas que dava. Mas, aí, quando vim pra cá, comecei a fotografar, fotografar muito! E a facilidade de criar imagens interessantes acontecia aqui.

Cântico, trabalho que você classifica como poema audiovisual, foi quase todo desenvolvido durante sua estada aí, não?

Aqui, fiz o trabalho que queria fazer. O Cântico,para mim, é esse dobrar a esquina, é o que quis fazer a vida inteira. Um canto de amor feito com imagens, voltado para a emoção, muito visceral e ao encontro de coisas básicas e verdadeiras. Toda a minha aproximação com o cinema, com a narrativa, foi sempre procurando a emoção.

Em que sentido esse trabalho é uma provocação ao cinema? E quais seus planos para ele?

Olha, pretendo sensibilizar as pessoas, pretendo impactar. Ainda não sei como. Nem as vias institucionais quais serão. O Cântico é uma provocação, porque fiz um híbrido da imagem com a narrativa. É um cinema, mas, veja bem, cinema é imagem em movimento. Fiz um filme no qual as imagens não têm movimento, mas montei como um filme. Usei toda a minha experiência de montagem de videoclipes, de cinema, para criar esse híbrido. Algo que você não consegue definir. Isso me interessa.

Flavio, essa sua personalidade de buscar novos caminhos e olhares é, de alguma forma, influência de sua origem judaica, uma vez que você é neto de judeus russos que se estabeleceram no Rio, no início do século 20?

Em vários sentidos. No judaísmo, a palavra é muito importante. Os judeus são um povo da palavra, não são um povo da imagem. E acho que essa necessidade que tenho de criar narrativa, de falar, de escrever, de dar aula… Isso é muito judaico, sabe? E tem também o conflito com essa condição, com a minha identidade. O fato de estar sempre insatisfeito, sempre procurando resolver as coisas no nível da cultura, no nível do trabalho intelectual. Quer dizer, resolver um conflito que não dá pra resolver de jeito nenhum. Mas, veja, embora a cultura judaica não seja uma cultura de imagem, os judeus têm uma presença muito grande no cinema norte-americano, por exemplo. Mas acho que isso se dá muito mais no aspecto de contar histórias. O judeu é um povo contador de histórias.

FIM

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Fotografia e passagem do tempo

 

Revista da Cultura * Matéria de capa. Seção: Fotografia. Páginas 24 a 31.
Data da publicação: Novembro de 2014 * Edição n° 88

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

 

MEMÓRIA EXPANDIDA

Artistas e coletivos de fotógrafos encontram na passagem do tempo matéria e desafio para a criação de projetos que extrapolam os suportes tradicionais e, não raro, vão parar nas ruas

POR: ADRIANA PAIVA / 06/11/2014

De Brasília e de Belo Horizonte, mas com atuação também fora de suas cidades de origem (e, inclusive, do país), esses grupos de artistas e fotógrafos têm em comum o fato de encontrarem na passagem do tempo matéria para a criação. Seja pelo resgate da história dos indivíduos retratados, seja pelo uso de métodos próprios da arqueologia ou mesmo enquanto desafio para continuar produzindo coletivamente. Outra linha costura o trabalho de todos: vai longe a época em que eles libertaram a fotografia dos suportes convencionais, apresentando-a para fora das galerias, e, amiúde, imbricada com outras linguagens.

Atuando como coletivo fotográfico desde 2007, Armando Salmito, Henry Macario e o casal Arthur Monteiro e Isabela Lyrio integram o brasiliense Punctum. Três deles estão às voltas agora com o projeto Ensaios sobre o tempo, que deve desdobrar-se em livro, mostras e oficinas itinerantes nos primeiros meses de 2015. A ideia para a empreitada começou a ganhar corpo a partir de um convite de Kazuo Okubo, dono da galeria A Casa da Luz Vermelha, que pretendia reunir, em uma série de iniciativas, fotógrafos em atividade na capital do país..

Uma vez aceito, o desafio do grupo foi criar um projeto que tivesse relação com Brasília e que, de alguma forma, explorasse o tema do tempo. Assim, eles estabeleceram como proposta investigar, por meio de imagens, de que maneiras a passagem do tempo vem alterando a anatomia da cidade e influindo na relação que seus moradores mantêm com ela. Dentro desse princípio, cada fotógrafo elegeu um local a partir do qual desenvolveu seu ensaio. “A gente juntou as temáticas que tinham a ver com a decadência de uma cidade tão nova”, explica Isabela. “Brasília tem 54 anos de fundação, mas é uma cidade que já tem uma história de ruínas”, diz, antes de tocar no assunto que lhe é sentimentalmente caro e que norteia seu ensaio no projeto, a W3 Sul. A mais antiga avenida comercial do Plano Piloto viveu seu período de ouro nas décadas de 1960 e 1970 e, hoje, está em franca decadência. Apesar de tudo, a fotógrafa continua a ver beleza nas ruas onde se habituou a caminhar ainda criança. “A W3 Sul é toda arborizada e você encontra de tudo ali. É um grande passeio público”, defende, sem deixar de destacar que as calçadas estão repletas de sinais do descaso do poder público. “São muitas pedras portuguesas soltas e buracos, de mais de 20 centímetros de profundidade, em plena avenida.”.

Abandonada também está a Piscina de Ondas, tema do ensaio de Henry Macario. Construída dentro do Parque da Cidade, maior centro de lazer público da capital federal, a piscina foi inaugurada em 1978 e, após vários problemas administrativos, encontra-se desativada desde 1997. Embora não tenha frequentado o lugar, Macario encontrou ali o seu elemento. Niteroiense radicado em Brasília desde 1995, foi ao mudar para a cidade que ele se tornou um assíduo nadador. “Longe do mar e das praias do Rio, só me encontrei em Brasília depois que conheci as cachoeiras, as piscinas e o Lago Paranoá”, diz.

Arthur Monteiro valeu-se de sua experiência como retratista, e de um antigo gosto por ouvir as pessoas, para encontrar na Candangolândia o seu tema. É lá onde moram, no que outrora foi um conjunto de acampamentos, vários dos personagens que, direta ou indiretamente, estiveram ligados à construção de Brasília. Monteiro foi atrás de dez desses pioneiros. Encontrou (e fotografou), entre outros, Omar de Moraes, o primeiro alfaiate a se estabelecer na capital federal.

Com as duas primeiras etapas do projeto concluídas, ou seja, a dos registros fotográficos e a da colagem das fotografias em espaços de circulação pública – definidos em conjunto com a curadora, Usha Velasco –, o coletivo dedica-se agora à documentação da receptividade às imagens e do processo de deterioração pelo qual elas já começam a passar.

Foram muitos os fatores que contribuíram para que Usha assumisse a curadoria de Ensaios sobre o tempo. Além da experiência editando publicações voltadas para as artes visuais, ela é integrante de um dos mais longevos coletivos fotográficos do Brasil, o Ladrões de Alma. O grupo, que completa 25 anos de estrada em 2014, está prestes a lançar um livro e a inaugurar uma exposição para marcar a efeméride. “Conheço os punctuns desde 2007 e admiro muito o trabalho deles”, diz. “Fiquei muito grata pelo convite, porque o assunto do tempo me é caríssimo.”

Usha vem desenvolvendo ensaios pessoais sobre o tema desde 1998. Sendo que O olhar no tempo – Encontros e trânsitos, o mais portentoso desses projetos, rendeu-lhe, em 2010, o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. Com a proposta de explorar a noção de que a fotografia é uma janela aberta no muro da percepção espaçotemporal, Usha tirou do baú retratos de família, registrados entre as décadas de 1920 e 1930, pelo avô e pelo bisavô, ambos fotógrafos amadores, reproduziu-os em grandes dimensões e distribuiu-os por vários locais de grande circulação na área central do Distrito Federal.
O livro contando a história do coletivo trará um terço de material inédito, entre textos e ensaios fotográficos. Os outros dois terços serão de conteúdo histórico e vão contemplar trabalhos de todos os 24 fotógrafos que passaram pelo coletivo.

DAS GERAIS

Quatro fotógrafos e um jornalista formam o quinteto por trás da Nitro Imagens, sediada em Belo Horizonte. Misto de agência, banco de imagens e editora. Ou, como eles preferem se apresentar, “um coletivo independente de contadores de histórias visuais”. Histórias que eles costumam narrar valendo-se dos instrumentos mais diversos e sempre segundo as afinidades de cada um com os temas eleitos.
Assim foi com Os Chicos, projeto tocado pelo fotógrafo Leo Drumond em colaboração com Gustavo Nolasco, o jornalista do grupo.

A proposta era abordar aspectos do passado e do presente da região do Rio São Francisco sob a ótica dos ribeirinhos. E a partir de um viés bastante original: “Todos os personagens tinham que ser Franciscos ou Franciscas, ou ter o apelido de Chico ou Chica”, conta Drumond. “Quando se fala de cultura oral, sempre se pensa nos moradores antigos ou nos contadores de ‘causos’. Esse recorte nos impôs uma diversidade de gênero e idade que enriqueceu muito o conteúdo”, justifica. Os Chicos acabou se tornando um dos projetos do coletivo que mais repercussão obteve dentro e fora de Minas Gerais. Além das mostras multimídia, que passaram por várias cidades mineiras, o material rendeu os volumes: Os Chicos – Prosa e Os Chicos – Fotografia. Tendo este faturado o Prêmio Jabuti de 2012 como melhor livro de fotografia. A ideia agora é transformar o projeto em documentário.

Prova de que as narrativas visuais da Nitro Imagens vêm chamando cada vez mais atenção foi o convite recebido para participar do conceituado E.CO – Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-Americanos, que aconteceu em Santos (SP), entre agosto e setembro.

Embora sejam uma formação recente como coletivo, André Hauck e Camila Otto, do SC02, também representaram Belo Horizonte no E.CO. Formados em Artes Visuais pela UFMG, eles já trabalhavam em projetos paralelos desde 2006 – Camila com gravura expandida, Hauck com fotografia. Mas a constatação de que funcionavam bem como coletivo só veio a acontecer em 2012, durante uma residência artística em Buenos Aires. Também ali se esboçou o que viria a ser o norte do grupo: circular pelas cidades, mapeando-as visualmente e propondo reflexões sobre como as pessoas moldam e configuram o espaço e são plasmadas por tudo o que as rodeia.

“A passagem do tempo é crucial em nosso trabalho como um todo, seja no deslocamento espaçotemporal, seja no deslocamento de objetos e entre lugares”, diz Camila. Inventariar, ação de 2013, apresentada durante a residência artística RE:USO, já apontava para essa importância – bem como para a opção de subverter os chamados cânones científicos. Percorrendo o Jardim Canadá, bairro da mineira Nova Lima, ao longo de 15 dias, o coletivo realizou um inventário fotográfico de artefatos descartados pela população, ressignificando-os e transportando-os para o universo da arte contemporânea. “Todo o material coletado foi numerado, fotografado, classificado, ordenado e catalogado, como referência a métodos empregados em processos arqueológicos e científicos”, esclarece Camila. Ação semelhante se repetiu na Feira de São Joaquim, em Salvador. Dessa vez, o filtro da coleta foram os elementos sincréticos da cultura baiana.

Ocupados com vários projetos simultâneos, os mineiros do SC02 também se dedicam agora à edição do livro e do blog resultantes de Entre-Lugares, mapeamento visual da cidade de Foz do Iguaçu, tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. A expectativa é de que ambos os lançamentos ocorram na segunda quinzena deste mês.

FIM

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Os Gêmeos: das ruas para a galeria

 

| Matéria publicada no portal Yahoo! News em 25/07/2006.

Texto e foto por Adriana Paiva

 

Texto e foto por Adriana Paiva

Galeria Fortes Vilaça grafitada por Gustávio e Otávio Pandolfo, “Os Gêmeos”

 

São Paulo – A gigantesca cabeça amarela em que se transformou o prédio da galeria Fortes Vilaça, há algumas semanas, é um convite para que se ingresse no universo onírico dos grafiteiros Os Gêmeos (ou ´osgemeos´ – outra de suas assinaturas). É lá que, agora, fora do circuito de muros, pontes e viadutos paulistanos, o trabalho desses artistas – já reconhecido no exterior – alcança outro status e outro público no Brasil.
Durante uma pausa nos preparativos finais para a abertura da exposição – nesta quinta (27/07), para convidados, e sexta (28/07), para o público – os artistas concederam entrevista.
Os irmãos paulistanos Otávio e Gustavo Pandolfo – gêmeos idênticos -, 32 anos, que têm muros grafitados nos quatro cantos do planeta – EUA (Nova York, Los Angeles, São Francisco), Austrália, Alemanha, Portugal , Itália, Grécia, Espanha, China, Japão, Cuba, Chile e Argentina – batizaram a mostra com o nome da instalação-surpresa ainda em processo de finalização O Peixe que Comia Estrelas Cadentes. A exposição também inclui pintura-mural e uma série inédita de pinturas-objeto.

Hip hop

Otávio e Gustavo começaram a grafitar no final dos anos 80 , no bairro do Cambuci (zona sul de São Paulo), onde nasceram. Eles militavam no movimento hip hop, quando este alcançava o auge no Brasil. Além de grafitar, a dupla percorria a cidade fazendo apresentações de break (modalidade de dança de rua que, juntamente com o rap e o próprio grafite, são marcas do movimento nascido nos EUA, na década de 70). “A gente frequentava a Estação São Bento (do Metrô), que na época era o ´point´ dos caras que curtiam hip hop”, conta Gustavo.

Os irmãos fazem questão de deixar claro, contudo, que, do final dos anos 80 para cá, apesar de continuarem a participar de eventos ligados ao hip hop, seu vínculo com o movimento mudou radicalmente. “A gente conhece bastante a cultura, teve uma ligação forte. Então, de vez em quando, acontece um convite assim. Mas, hoje em dia, nosso trabalho não tem nada a ver mais com o hip hop”.

“Grafite x pichação”

Um olhar um pouco mais atento permite concluir que o grafite feito hoje por Otávio e Gustavo mantém poucas semelhanças com aquele que ainda dá sinais de beber da fonte dos precursores : os “manos” afro-americanos que se criaram no Bronx. Essas diferenças entre estilos costumam vir à baila na sempre revigorada polêmica “grafite x pichação”. Controvérsia na qual Os Gêmeos preferem não jogar lenha. “A gente já não aguenta mais responder perguntas do tipo ´qual a diferença entre grafite e pichação?´ Isso não importa”, dispara Gustavo.
O nível de elaboração e a riqueza de detalhes dos murais grafitados pelos gêmeos vêm, segundo eles, de uma obsessão pela prática do desenho. Eles contam que nunca fizeram um curso. O estudo, ainda hoje, acontece em casa. “A gente sempre estudou, desde pequeno: desenho, desenho, desenho”.

Fino traço

Foi justamente essa aplicação que ajudou a forjar o estilo de Os Gêmeos. Para eles, as principais características de seu trabalho vêm da maneira como o desenho é feito: “O jeito de a gente usar o spray, a linha, o contorno…”, explica Gustavo. “A gente faz fininho — isso também é estilo nosso”.

A preocupação com detalhes fica evidente também na criação dos trajes de seus personagens.”A estampa das roupas também é uma característica que a gente tem”. Os personagens, mostrados em situações que ora parecem saídas de sonho, ora da dura realidade brasileira, são todos revestidos de um lirismo sem paralelo nesse tipo de manifestação artística.

“O que a gente quer, o jeito como filtra as informações, a gente coloca através dos personagens”.
Quando o assunto se aprofunda na questão das influências artísticas, ambos preferem não citar nomes. “Acho que começam com a arte brasileira, a cultura popular brasileira”, revela Otávio, “e vão até tudo o que a gente sonha, vê, sente, ouve”.

E Volpi ?

A confusão sobre a suposta influência do artista no estilo de pintura de Os Gêmeos tem mais de uma explicação. A primeira delas : as bandeirinhas, que se repetem no traje de vários dos personagens criados pelos imãos, segundo eles, teriam a mesma origem das que, a partir dos anos 50, tornaram-se frequentes na obra de Volpi : as festividades juninas (São João, Santo Antônio e São Pedro).

Alfredo Volpi (nascido na Itália em 1896 e falecido em 1988), como Os Gêmeos, morou quase toda a sua vida no Bairro do Cambuci. Gustavo conta que, quando crianças, ele e o irmão estiveram, em certa ocasião, no ateliê do artista. “Gostamos do trabalho dele , mas não virou influência”, ressalta.

“A gente tem muito dessa coisa do brasileiro, do improviso, das coisas que o brasileiro faz para se virar. Tem muito dessas improvisações no nosso trabalho”, argumenta Otávio, aludindo ao fato de que Volpi, além de auto-didata, se encarregava de fazer seus próprios pincéis e telas. Outra “coincidência”: o artista, que veio da Itália ainda criança, iniciou-se na pintura como “decorador de paredes”, ou seja, fazendo uso do mesmo tipo de suporte que, décadas mais tarde, notabilizaria Os Gêmeos do Cambuci.

Filme para Nike

A visibilidade alcançada pelo trabalho da dupla, presente em muros ao redor do planeta, acabou rendendo-lhe convites como o da Nike. Otávio e Gustavo foram contratados para fazer a parte gráfica do documentário patrocinado e co-produzido (juntamente com a O2 Filmes) pela fabricante de materiais esportivos.

“Ginga – A Alma do Futebol Brasileiro”  teve direção de Hank Levine, Marcelo Machado e Tocha Alves e produção-executiva a cargo do cineasta Fernando Meirelles. O lançamento no Brasil aconteceu em abril último. “Convidaram a gente por ter esse estilo bem brasileiro de pintar”, conta Otávio. “Fizemos as vinhetinhas e decoramos todas as peças passadas no filme”.

Fernando Meirelles gostou tanto da experiência de trabalhar com Os Gêmeos, que os convidou para auxiliarem na produção das animações para a série televisiva da Rede Globo, Cidade dos Homens. “A gente fez a animação com ele. Foi um outro experimento”, lembra Otávio . “A gente falou : vamos fazer uma brincadeira , vamos ver no que é que dá”.

Ainda por conta do trabalho para a Nike, Otávio e Gustavo passaram quatro meses viajando por cidades de sete países. Eles contam que a proposta da turnê – batizada de Brasil – era fazer uma festa brasileira em cada local visitado. Em cada cidade, acontecia uma exposição com o trabalho dos grafiteiros e a exibição do filme Ginga. “Eles precisavam de artistas que representassem a nossa cultura através das artes plásticas ou das artes visuais”, explica Gustavo.

Outros suportes

Foi entre uma viagem e outra que surgiu a proposta de desenhar um tênis especial para a marca. Os calçados, produzidos em edição limitada e lançados apenas nas cidades visitadas durante o tour organizado pela Nike, tiveram a parte traseira, a língua e a palmilha ilustradas pelos grafiteiros.
Sobre o convite que os traz agora a São Paulo quem fala é Gustavo: “Veio da Márcia e da Alessandra (Márcia Fortes e Alessandra Ragazzo d´Aloia, sócias-fundadoras da galeria). Elas já conheciam o nosso trabalho e o que a gente fez em Nova York também”, continua, referindo-se à estréia deles no circuito formal de arte contemporânea, com uma grande exposição na Deitch Projects Gallery (que representa Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, artistas que também alcançaram fama usando o grafite como linguagem). “Acho que acabou rolando assim: ´Pô, como os caras são de São Paulo e nunca fizeram nada aqui? Vamos fazer, meu, tá na hora de fazer”, acredita Otávio.

Embora a paixão pela atividade nas ruas não tenha arrefecido, os rapazes não escondem a empolgação com a nova empreitada. Sobretudo, segundo contam, pela miríade de possibilidades implicadas em mostrar seu trabalho em uma galeria, fazendo uso de um espaço que, nas palavras de Otávio, “pode ser transformado em 100%”. “Você pode ter um trabalho tridimensional, pode ter luz, música, pode ter objeto, você pode fazer uma coisa se movimentar”.

Grafite,  só lá fora

Mas é quase em uníssono que Os Gêmeos dizem que o que eles vão exibir nas dependências da Fortes Vilaça não é grafite. “Aqui dentro é arte, arte contemporânea”, esclarecem.

Quem não tiver a oportunidade de estar em São Paulo para ver a exposição d´Os Gêmeos, nem puder explorar a cidade para descobrir a marca deles impressa nos muros, há outras alternativas para conhecer um pouco mais da arte desses paulistanos. Uma delas é folhear o livro inglês Graffiti Brasil (Org.: Tristan Manco, Caleb Neelon, Ignácio Aronovich e Louise Chin – Ed. Thames & Hudson).

Outra opção é visitar o site Flickr, onde fãs dos irmãos espalhados pelo mundo (fotógrafos amadores e profissionais) publicam imagens de instalações e muros grafitados pela dupla de artistas quando em passagem por suas cidades . O endereço é : http://www.flickr.com/groups/osgemeos/.

No Rio e em POA

Antes de viajar para a Alemanha, onde estarão envolvidos com novos projetos, Os Gêmeos farão a curadoria do evento Identidade de Rua (organizado pela ONG gaúcha Instituto Trocando Idéia Tecnologia Social), cuja terceira edição deve acontecer em setembro, no Rio de Janeiro.
Em novembro do ano passado, como parte do projeto, Os Gêmeos, juntamente com outros conhecidos grafiteiros da cena nacional , pintaram vagões do Metrô da Trensurb ( Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre).

Horário de visitação : Terça à sexta-feira, das 10h às 19h; Sáb., das 10h às 17h. Até 16/09.
Entrada franca.
Galeria Fortes Vilaça – Rua Fradique Coutinho, 1500; (11) 3032-7066/ 3097-0384

Mais Náufragos

 

Revista da Cultura * Seção: Cinema. Páginas 48 a 50.
Data da publicação: Junho de 2013 * Edição n° 71

Documentário do uruguaio Guillermo Planel

 

 

Estas veias que não fecham

Documentário do uruguaio Guillermo Planel propõe discussão ampliada sobre direitos humanos na América Latina

POR: ADRIANA PAIVA / 06/06/2013


Mais náufragos que navegantes, quarto documentário do diretor Guillermo Planel, fez recentemente sua première no teatro Oi Casa Grande com sala cheia. Não há exagero em afirmar que boa parte do público que rumou para o shopping do Leblon, no Rio de Janeiro, em uma segunda-feira, o fez por especial interesse no tema em torno do qual gira o filme: direitos humanos. Ao observador mais atento não escapará o fato de que, há tempos, o assunto não frequentava rodas de conversa e noticiários, como tem ocorrido de um ano para cá. Por um lado, pelas informações vindas à tona desde que foi instaurada a Comissão Nacional da Verdade, em maio de 2012. Por outro, graças à figura polêmica e homofóbica de Marco Feliciano, deputado do Partido Social Cristão (PSC) de São Paulo, que, no início de março, assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Mais náufragos é o primeiro filme do cineasta a não ter o assunto fotojornalismo como carro-chefe e inaugura um novo ciclo na carreira deste uruguaio de 52 anos, que veio com a família para o Rio de Janeiro ainda criança, no início da década de 1970.

JORNALISTAS E VIOLÊNCIA

O título do documentário vem de uma passagem do livro As veias abertas da América Latina (1971), de seu conterrâneo, o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Mas, segundo Planel, a ideia para sua realização começou a ganhar contornos mesmo a partir de uma provocação. Em 2009, ele apresentava o seu premiado Abaixando a máquina – Ética e dor no fotojornalismo carioca (lançado em 2007) em um festival de cinema sobre direitos humanos que acontecia na capital paraguaia, Assunção. No debate que se seguiu à exibição do filme, enquanto falava sobre os riscos envolvidos no trabalho de repórteres fotográficos que cobrem conflitos urbanos, alguém na plateia o interpelou. Era um militante ligado a movimentos sociais que, em tom bastante inflamado, dizia acreditar que a maneira como o fotojornalismo retrata a violência só contribui para fazê-la aumentar. O diretor não pestanejou ao retrucar: “Mas para nós, que moramos no Rio de Janeiro, para nós, que somos jornalistas e trabalhamos nessa área de fotografia e audiovisual, e, principalmente, para quem mora em comunidades carentes, a segurança pública é um dos quesitos mais básicos dos direitos humanos”. Uma das discussões levantadas pelo filme Abaixando a máquina é, justamente, sobre o quão mais desprotegidos pelo aparato do estado encontravam-se os cidadãos cariocas naquela época, imediatamente anterior à instalação das primeiras UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) nas principais favelas da cidade.

Diante da argumentação do documentarista, o militante paraguaio respondeu de volta, justificando que, no Paraguai, a questão dos direitos humanos é mais frequentemente discutida pela ótica do “campesino”, isto é, dos trabalhadores rurais, daqueles que têm pouco ou nenhum direito sobre as terras onde vivem. Mas a “batalha” não terminou por ali. “O cara continuava a achar absurdo o que eu estava falando”, relembra Planel, que, depois de muito argumentar, não viu outra saída senão dar o debate por encerrado. Eu disse: ‘Tudo bem, cada um tem o seu ponto de vista’. Mas, a partir disso, fiquei com a indignação dele na cabeça.”

O assunto ainda ecoou por muito tempo nos pensamentos do diretor. Que interessante seria, ele passou a imaginar, empreender uma jornada pela América Latina a fim de mostrar como cada povo e cada setor da sociedade elegem aspectos diferentes dos direitos humanos como os mais vitais para eles. Menos de um ano transcorreu entre os devaneios e a decisão de, finalmente, cair na estrada. Apesar de ter cogitado angariar recursos para a produção pelas vias habituais, Planel iniciou-a com dinheiro do próprio bolso. E foi o que ele fez questão de frisar logo na abertura do documentário: “Este filme não contou com nenhum patrocínio, de empresa pública ou privada, nacional ou estrangeira”.

Na Argentina, no Chile, no Uruguai, nos oito países para os quais o cineasta viajou com o propósito de conversar com intelectuais, trabalhadores das mais diversas categorias e representações políticas, ele ampliou a discussão, acrescendo à pauta novos matizes. Do homossexual mexicano que buscou asilo no Canadá, por ser perseguido em seu país de origem à chilena funcionária do Palácio de La Moneda que se sente discriminada em seu trabalho de varredora, passando pela jornalista e senadora argentina Norma Morandini, ao escritor Eduardo Galeano e ao arquiteto Oscar Niemeyer (em uma de suas últimas entrevistas), o documentarista diz ter feito o máximo para que seu filme contemplasse personagens e categorias com potencial para enriquecer a discussão por ele proposta.

DIREITOS UNIVERSAIS

Mais de 60 anos depois da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas, é saudável que esse debate seja continuamente retomado. Assinado em dezembro de 1948, ou seja, três anos após a criação da ONU e do fim da Segunda Guerra Mundial, o documento estabelece, ao longo de 30 artigos, os direitos fundamentais de todos os seres humanos, independentemente de raça, cor, sexo, idade, religião, opinião política, origem nacional ou social etc. Embora se reconheça a importância de cunhar uma declaração com tamanha abrangência, é a sistemática inobservância dos direitos aí arrolados que continua a servir de motor a toda a sorte de conflitos ao redor do planeta.

“Sabemos que diferentes nações escolhem diferentes caminhos para atingir a promessa de democracia e que nenhuma nação deve impor sua vontade a outra”, disse o presidente americano Barack Obama, ressaltando, em discurso gravado durante visita ao Brasil, em 2011, diretrizes que seu próprio país incontáveis vezes desrespeitou. “Queremos poder escolher como seremos governados e moldar nosso próprio destino. Esses não são ideais americanos ou brasileiros. Não são ideais ocidentais, são direitos universais. E temos que apoiar esses direitos em toda a parte”, interrompe-se, sob aplausos entusiasmados da plateia.

O ativista argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980, por sua vez, lembra que os direitos humanos não são um fenômeno estanque e que há, em todo o mundo, uma preocupação crescente com os chamados direitos de terceira geração, categoria também cunhada pela ONU, que engloba os direitos dos povos e de setores da sociedade. “São também direitos mais modernos, que foram incorporados a partir de lutas da sociedade”, acrescenta, a certa altura, o também argentino Julio Santucho, diretor do Instituto Multimedia DerHumALC – Derechos Humanos en América Latina y Caribe, enfatizando que se está tratando aqui de uma questão dinâmica. “Direitos humanos não são um evangelho, são o resultado da evolução da sociedade.”

ITINERÂNCIAS

Entre os compromissos que Planel já firmou para Mais náufragos que navegantes, estava Brasília, no último dia 6, com a exibição do documentário seguida de debate no Auditório Nereu Ramos, da Câmara dos Deputados. No dia 16, às 9h, uma nova exibição do filme acontece no Rio. E, dessa vez, dentro do programa “Domingo é Dia de Cinema”, do Cine Odeon Petrobras, na Cinelândia. Após a projeção, o diretor debate com a plateia o tema “Direitos humanos para quem?”. Um seminário itinerante baseado no documentário também está sendo planejado. A estimativa é que a primeira edição ocorra no segundo semestre deste ano.

A proposta é ter um jornalista mediando debates com personagens entrevistados por Planel – quatro em cada país por onde o evento passar. “A ideia, a princípio, é fazermos em Brasília, Rio e São Paulo. Depois: Buenos Aires, Montevidéu e Santiago. E assim iríamos trocando de personagens e cobrindo toda a América Latina até o México”, antecipa o diretor.

FIM

 

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O que move aquele clique

 

Com a pergunta-mote “Por que eu fotografo?”, eventos em Brasília comemoram
Dia Mundial da Fotografia, nesta terça-feira (19/08), e propõem reflexão sobre produção fotográfica


* Matéria publicada no Yahoo! Notícias em 18/8/2008

 

Bienal do Rio 2007

Acima, uma das imagens que participam da mostra FotoGrama: E você? Por quê?

 

* Por Adriana Paiva, da Verve Press

(Brasília) – Em 19 de agosto, comemora-se o Dia Mundial da Fotografia. Foi nesse dia, no ano de 1839 , que a Academia de Ciências e Artes de Paris anunciou ao mundo a invenção do físico Louis Jacques Daguerre. Aproveitando a data, 39 fotógrafos aceitaram o convite para responder à pergunta “Por que eu fotografo?”. Este é o fio condutor de uma série de ações que acontecem na capital federal, a partir da primeira quinzena de agosto. O objetivo é criar um espaço para reflexão e debates, agregando conteúdo ao processo de fazer, mostrar e ver fotografia.
Foram planejados três eventos dentro de um evento maior: nesta sexta (15/08), acontece a abertura de uma exposição coletiva no Museu da República. No sábado (16/08), a programação prevê debates acompanhados de dinâmicas de grupo, no mesmo local. No domingo (17/08), tem início a mostra FotoGrama, que, dirigida a um público que não tem o hábito de freqüentar galerias, vai reunir fotos de 1m x 60cm, impressas em faixas de vinil e fincadas no gramado que circunda a torre de TV – local onde há grande circulação de pessoas nos finais de semana, muitas oriundas das chamadas cidades-satélites . As imagens são acompanhadas de texto onde cada autor responde à pergunta “Por que eu fotografo?”.

“Nesse primeiro encontro, ou nesses três primeiros eventos, reunimos um conjunto bem eclético de participantes”, conta a jornalista e designer Usha Velasco, uma das organizadoras . São 39 participantes, entre fotojornalistas, fotógrafos de publicidade e amadores, designers e professores.
No Museu da República , estarão expostas 46 fotografias e no FotoGrama, 43. “O resultado foi empolgante!”, comemora Usha . “O conjunto está muito bonito, as respostas muito interessantes; o próprio ato de fazer um texto sobre por que fotografar já estimulou a reflexão” .

Sementes no vácuo

Uma certa insatisfação frente ao vácuo de conteúdo da produção fotográfica atual e à banalização do ato de fotografar é a força motriz por trás desses eventos. “Há muitas imagens no mundo, na mídia, na web, no Flickr, nos blogs, mas nenhum comentário que vá além de ´linda foto, parabéns!’”, avalia Usha. A idéia para a realização dos eventos surgiu de um grupo formado por fotógrafos que começaram a conversar pela internet, após um concurso fotográfico cujas regras eles contestaram . O mailing de fotógrafos caiu na rede e deu origem a uma lista de discussão informal .
Com as trocas via web ficando mais ricas e freqüentes, um núcleo formado por cinco fotógrafos – Usha e Rinaldo Morelli , integrantes do coletivo fotográfico Ladrões de Alma; Isabela Lyrio e Arthur Monteiro, do coletivo Punctum, e por Roberto Castello – se mobilizou e convocou os demais participantes da lista para uma reunião. “Depois de alguns encontros, foram traçadas as diretrizes dos eventos”, relata Usha. Surgia aí a semente do que pretende ser um movimento de incentivo à discussão sobre a produção de fotografia na atualidade.
“Queríamos sair de um padrão que chamamos de ´vitrine vazia´”, diz Usha. “Muita coisa bonita, mas nenhuma reflexão”, ressalta.
Isabela Lyrio, fotógrafa que integrou o núcleo de discussão original , comunga com o ponto de vista de Usha sobre haver atualmente uma produção fotográfica abundante (e acrítica) . “Há muita imagem sendo produzida e as pessoas não param para analisar que tipo de idéia estão gerando”, acredita.

Flickr

Outro tema que tem freqüentado a pauta de discussões do grupo, segundo Isabela, são os sites que, como o Flickr, permitem a publicação gratuita de imagens , além de funcionarem como redes sociais . Ela, que mantém uma conta no Flickr, diz que usa o site basicamente para mostrar seu trabalho aos amigos fotógrafos e que pouco interage com outros usuários , pois acha os comentários trocados ali , em geral, bastante superficiais. “Entre meus amigos, fazemos a brincadeira do ‘Wow, great shot!’, em inglês, ‘Grande clique!’”, revela, referindo-se aos elogios comumente trocados entre usuários do Flickr.
“Penso que a fotografia tem que correr para uma relação ainda mais forte com o objeto” , diz . “Chegar e fotografar, qualquer um pode fazer . Mas, conceber um projeto e se aprofundar exige dedicação”. Isabela, entretanto, não enxerga apenas defeitos nos sites de compartilhamento de imagens . “Com tanta imagem sendo feita, em algum lugar essa produção precisa ser extravasada” , defende . É o que ela, aliás, tem feito com as fotos que vem registrando durante os Jogos Olímpicos de Pequim, para onde foi com o propósito de atualizar seu banco de imagens.

Blog da hora

O fotógrafo Claudio Versiani, criador do blog Pictura Pixel, um dos mais recentes fenômenos de popularidade entre fotógrafos, na rede, é um grande entusiasta das possibilidades de intercâmbio trazidas pela internet. “Não sei por que e nem como aconteceu, mas hoje existe uma comunidade PicturaPixel” , empolga-se . Versiani atualmente mora em Barcelona e conta, via Skype, que há gente que acessa o blog religiosamente, todos os dias. “Isso assusta um pouco”, confessa. “Mas, ao mesmo tempo, faz bem ao ego e incentiva para o duro dia de amanhã”.

Significado à vida

Versiani, que trabalhou durante nove anos no Correio Braziliense como como editor de fotografia, tem sido um dos mais fervorosos apoiadores do movimento “Por que eu fotografo?”. “O evento é genial”, elogia . “Encontrar a resposta para tão intrigante pergunta é saber por que e para que se vive”, define. O fotógrafo lembra que a mesma pergunta , coincidentemente, foi feita na primeira edição da então Revista Eletrônica Pictura Pixel.
“Nós começamos com o Abelardo Morell (fotógrafo cubano radicado em Nova York)” , recorda . “Ele é o papa da câmera obscura” . Nesse mesmo número, além de entrevista, portifólio e vídeo sobre o trabalho do cubano, uma pergunta foi lançada aos leitores: “Por que fotografar?” . “Abelardo Morell, muito antes, já havia respondido: ´Porque me faz sentir vivo, humano e jovem´”. Cláudio Versiani assina embaixo.

Participam do evento, os seguintes fotógrafos: Alain Barki,Alan Marques, Alan Santos, Alessandro Souza,Antonio Antunes, Armando Salmito, Arthur Monteiro, Breno Fortes, Carlos Aversa, Claudio Versiani, Duda Bentes, Ed Ferreira,Eraldo Peres, Fernando Croitor, Hélio Rocha, Henry Macario, Isabela Lyrio, Jefferson Rudy, Jorge Diehl , José Rosa , Josemar Gonçalves , Kazuo Okubo , Leonardo Amaral , Lourenço Cardoso , Luis Tajes , Luísa Molina , Miguel Angelo , Patrick Grosner , Ricardo Padue , Ricardo Reis , Rinaldo Morelli Roberto Castello , Roberto Castro , Rose May Carneiro , Sérgio Fonseca, Susana Dobal , Usha Velasco e Wládia Drummond.

Abertura da exposição coletiva: 15/08, às 19h30
Visitação até 20/08
Debate e dinâmicas de grupos : dia 16/08, a partir das 14h30, no subsolo do Museu da República (Esplanada dos Ministérios)
Ingresso: R$ 10,00 + uma foto
Mostra Foto-Grama: dia 17/08, entre 9h e 18h, no gramado de acesso à Torre de TV de Brasília.

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