Do Morro ao MAR

 

Revista da Cultura * Seção: Cidades. Páginas 52 a 55.
Data da publicação: Abril de 2013 * Edição n° 69

Print Revista da Cultura Reportagens de autoria da jornalista Adriana Paiva Porto Maravilha Miguel Pinheiro Morro Conceição portugueses Portugal

Do Morro ao MAR, a África é logo ali

Um museu novo com metas inclusivas, um coletivo de criadores vindo de Portugal, um bairro repleto de ateliês: a zona portuária do Rio vê a arte brotar por todos os lados

POR: ADRIANA PAIVA / 04/04/2013

Embora sejam muitos, mundo afora, os exemplos de cidades que tiveram áreas inteiras transformadas a partir da revitalização de seus portos, também costumam ser numerosos os registros dos impactos negativos levados à rotina de quem circula ou mora na proximidade desses locais. Desapropriações, despejos, aumento do fluxo de pessoas e de veículos estão entre as queixas mais comuns.

Com as obras levadas a cabo na zona portuária do Rio de Janeiro, as reações não são muito diferentes. Iniciadas com vistas à Copa de 2014 e à Olimpíada de 2016, a estimativa da Cdurp (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro) é que as transformações estruturais e viárias no local se estendam por mais três anos. Mas, ainda que os moradores de bairros próximos (como Gamboa, Santo Cristo e Saúde) estejam apreensivos sobre as consequências que trarão às suas vidas, as obras capitaneadas pelo Consórcio Porto Novo (batizadas de Projeto Porto Maravilha) despertam também, aqui e ali, sinais de otimismo.

Um fato recente que veio acentuar a sensação de que novos (e auspiciosos) ares circulam pela vizinhança foi a inauguração, no início de março, do Museu de Arte do Rio (MAR), o primeiro (e o que se anuncia um dos mais imponentes) dos produtos do “Porto Maravilha” a ser entregue à população carioca. Localizado na Praça Mauá, uma das portas de entrada da zona portuária, o museu é fruto de uma parceria entre a Prefeitura do Rio e a Fundação Roberto Marinho.

“Fomos convidados pelo prefeito do Rio de Janeiro, o Eduardo Paes, há cerca de quatro anos, para ajudar a prefeitura a pensar um projeto para esse local, que fosse uma âncora cultural e educacional do processo de revitalização da área portuária”, disse Hugo Barreto, diretor-geral da Fundação Roberto Marinho, durante coletiva de imprensa realizada na véspera da inauguração do MAR. “Esse museu, então, é uma das vertentes, junto com o processo educacional, que visa a contribuir com isso, além de também agregar valor à paisagem urbana do Rio de Janeiro.”

CELEIRO ARTÍSTICO

Pertinho do MAR, a poucos metros do centro financeiro do Rio, mas já nos domínios do bairro da Saúde, encontra-se o Morro da Conceição. Cercado por grandes avenidas, mas a salvo de boa parte das desvantagens do progresso, o local ainda preserva ares de cidade interiorana e tesouros culturais datados dos primeiros momentos da ocupação do Rio de Janeiro, a partir de 1565. Foi ali, desde o final dos anos 1970, que se iniciou um processo – por que não? – de reinvenção, renovação e resgate histórico. Vários artistas plásticos passaram a adotar o morro como moradia e estabelecer lá seus ateliês. Em casas espalhadas por ladeiras com nomes pitorescos como “Rua do Jogo da Bola”, eles foram chegando aos poucos e para ficar. “Hoje, somos 12 artistas”, conta o escultor paulistano Claudio Aun, que está ali desde 1980. “Depois que me mudei, comecei a resgatar uma série de pessoas, porque na época era muito em conta alugar casa aqui”, relembra.

Cedo ou tarde, a presença de tantos criadores em uma mesma vizinhança teria que fazer vicejar alguma outra manifestação artística de peso. E eis que, em 2002, quatro daqueles pioneiros (Claudio Aun, Paulo Dallier, Renato Sant’Ana e Marcelo Frazão), todos artistas plásticos, uniram-se para dar à luz o Projeto Mauá.

No início, a proposta era tornar todas as pérolas do patrimônio histórico local acessíveis a um número maior de pessoas, já que o morro, então, não era muito mais que um ponto remoto na selva de pedra do centro do Rio. E o chamariz adotado pelos artistas para mudar essa situação foi abrir seus ateliês à visitação pública, oferecendo oficinas criativas gratuitas. O projeto, que começaria ocupando o morro de dois em dois anos, um pouco mais tarde aconteceria anualmente. E assim, a cada edição, o evento foi ganhando apoiadores importantes (como o próprio Consórcio Porto Novo), visibilidade na mídia e fãs nos quatro cantos da cidade. “Antes, muita gente de fora achava que, por ser morro, aqui era uma favela”, revela o paulistano Aun. “Todo esse pessoal que chegou depois veio atraído pelo Projeto Mauá”, acredita.

Em um desses “fluxos migratórios”, foi que aportou ali a artista plástica Adrianna Eu, convidada para realizar no local uma intervenção urbana ligada a um projeto do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). “Nunca tinha ouvido falar no Morro da Conceição antes. Foi amor à primeira vista”, conta a carioca, que, há quatro anos, saiu da Urca e mudou-se com pincéis e cavaletes para uma casa na Rua do Jogo da Bola, vizinha de vários outros parceiros de métier. Ela também costuma abrir seu ateliê às atividades do Projeto Mauá. E embora não dê cursos nessa ocasião, já que seu trabalho é mais voltado à arte contemporânea, ela colabora incentivando o cultivo de tradições herdadas dos primeiros moradores vindos de além-mar.

A ilustradora e grafiteira carioca Vanessa Rosa ainda morava no Leblon quando, acatando sugestão de seu orientador de pesquisa, o artista plástico e curador Roberto Conduru, passou a frequentar o morro em busca de inspiração para dar corpo a um projeto para o seu curso de graduação em História da Arte, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O objetivo? Mesclar o passado e o presente desse pedaço específico do Rio para recriá-los por meio de personagens que, posteriormente, seriam pintados nos muros e nas paredes de construções locais. Munida de leituras como os relatos de viajantes e valendo-se de entrevistas informais, Vanessa foi refazendo o percurso de homens e mulheres que passaram pelo morro nas mais diferentes épocas. “Inicialmente, foi um morador e historiador da arte, Rafael Cardoso, quem me mostrou alguns dos lugares mais interessantes para pintar e contou sua visão da história da região”, explica. “Outro, o pintor Paulo Dallier, me emprestou fotos antigas de sua família, que mora no morro já há algumas gerações.” A primeira pintura que Vanessa fez em um muro local, de um “preto velho”, foi atendendo à sugestão da própria dona da casa, que é espírita. Depois dessa, muitas outras intervenções vieram. Sempre pintadas em tamanho natural – e em alguns casos cobrindo muros outrora pichados –, as figuras, que evocam de padres a marinheiros e de sambistas a baianas, continuam lá, lembrando aos moradores um pouco da sua história e de onde vieram os seus antepassados.

DE PORTO EM PORTO

O ator e diretor teatral português Miguel Pinheiro é outro exemplo de forasteiro que caiu de amores pelo Morro da Conceição. Tamanho o seu encanto pelo lugar que foi ali que ele, vindo de Portugal em 2012, resolveu estabelecer moradia. Pinheiro é o diretor artístico do 10pt – Criação Lusófona, coletivo que tem como proposta desenvolver um trabalho multidisciplinar em comunidades periféricas de países de língua portuguesa, de modo a redescobri-las a partir da voz dos nativos.
Antes de chegar ao Rio, o coletivo (criado em 2010) já passou com projetos pela Cidade do Porto, em Portugal, e por Mindelo, em Cabo Verde. “O que nos motivou desde o início foi despir essas comunidades de preconceitos, tais como, ‘a África é toda pobre e miserável’, ‘Portugal é um país sem graça, decadente e submisso’, ou ‘o Brasil não é um país sério’. Apostamos em achar a singularidade desses lugares”, esclarece Pinheiro, reforçando o significado do nome do coletivo: “10pt, em português de Portugal, se lê ‘des.pe-te’, de despir, desnudar”.

Aqui, o projeto, que recebeu o nome de Fui? e está inscrito no programa oficial do Ano de Portugal no Brasil, tem promovido oficinas e passeios fotográficos desde fevereiro. No trajeto das saídas, que invariavelmente compreendem ruas da zona portuária, os participantes fotografam e colhem histórias das pessoas que moram e circulam por ali. Segundo Pinheiro, a iniciativa tem atraído um número considerável de brasileiros que, radicados na cidade há algum tempo, têm especial interesse pela discussão de temas como memória e identidade. Para o ativista, quanto maior for o conhecimento sobre os povos que formam a identidade brasileira, maior também será o orgulho de possuirmos laços de sangue com eles. “Sinceramente, gostaria muito que o trabalho do 10pt pudesse ajudar nesse movimento.”

O material reunido durante as atividades do coletivo no Brasil já tem destino certo. As fotos serão exibidas em duas mostras: uma nas ruas da região portuária, outra no Centro Cultural Justiça Federal (a partir do dia 10 deste mês). Já os depoimentos registrados durante entrevistas com pessoas fotografadas deverão servir de base ao roteiro da peça teatral que Pinheiro pretende encenar ainda no primeiro semestre deste ano. Desde que com “a bênção de Dioniso”, avisa.

DE VOLTA AO MAR

Se tantos cariocas e estrangeiros estão acordando para as maravilhas ocultas no Morro da Conceição, não seria o Museu de Arte do Rio, vizinho tão próximo, que iria se manter impassível diante delas.
Em novembro passado, meses antes de sua inauguração, o museu coordenou a realização ali da segunda edição do evento O Morro e o Mar. Graças ao grande sucesso da edição realizada em setembro – e que levou ao Morro mais de 1600 visitantes –, monitores treinados pela instituição voltaram a conduzir visitas aos ateliês locais e aos pontos de maior importância histórica da região.

A artista plástica Adrianna Eu, que participou das duas edições da iniciativa, vê com muito bons olhos a presença do MAR na vizinhança. “Minhas expectativas, como artista e cidadã, são as melhores possíveis”, garante. Adrianna diz observar uma especial disposição por parte do museu de estabelecer vínculos com a comunidade à sua volta. E cita como exemplo dessa postura a garantia dada pela instituição de que todos os moradores da zona portuária poderão visitar o museu gratuitamente, em qualquer dia da semana, bastando para isso, que apresentem um comprovante de residência à administração. “O MAR é um museu incrível, que chega pensando em criar fortes laços com o seu entorno e um lugar de parceria”, reforça. “Esse cuidado é o que me dá esperança”.

FIM

:: Link para a edição em PDF [=]

 

Os Gêmeos: das ruas para a galeria

 

| Matéria publicada no portal Yahoo! News em 25/07/2006.

Texto e foto por Adriana Paiva

 

Texto e foto por Adriana Paiva

Galeria Fortes Vilaça grafitada por Gustávio e Otávio Pandolfo, “Os Gêmeos”

 

São Paulo – A gigantesca cabeça amarela em que se transformou o prédio da galeria Fortes Vilaça, há algumas semanas, é um convite para que se ingresse no universo onírico dos grafiteiros Os Gêmeos (ou ´osgemeos´ – outra de suas assinaturas). É lá que, agora, fora do circuito de muros, pontes e viadutos paulistanos, o trabalho desses artistas – já reconhecido no exterior – alcança outro status e outro público no Brasil.
Durante uma pausa nos preparativos finais para a abertura da exposição – nesta quinta (27/07), para convidados, e sexta (28/07), para o público – os artistas concederam entrevista.
Os irmãos paulistanos Otávio e Gustavo Pandolfo – gêmeos idênticos -, 32 anos, que têm muros grafitados nos quatro cantos do planeta – EUA (Nova York, Los Angeles, São Francisco), Austrália, Alemanha, Portugal , Itália, Grécia, Espanha, China, Japão, Cuba, Chile e Argentina – batizaram a mostra com o nome da instalação-surpresa ainda em processo de finalização O Peixe que Comia Estrelas Cadentes. A exposição também inclui pintura-mural e uma série inédita de pinturas-objeto.

Hip hop

Otávio e Gustavo começaram a grafitar no final dos anos 80 , no bairro do Cambuci (zona sul de São Paulo), onde nasceram. Eles militavam no movimento hip hop, quando este alcançava o auge no Brasil. Além de grafitar, a dupla percorria a cidade fazendo apresentações de break (modalidade de dança de rua que, juntamente com o rap e o próprio grafite, são marcas do movimento nascido nos EUA, na década de 70). “A gente frequentava a Estação São Bento (do Metrô), que na época era o ´point´ dos caras que curtiam hip hop”, conta Gustavo.

Os irmãos fazem questão de deixar claro, contudo, que, do final dos anos 80 para cá, apesar de continuarem a participar de eventos ligados ao hip hop, seu vínculo com o movimento mudou radicalmente. “A gente conhece bastante a cultura, teve uma ligação forte. Então, de vez em quando, acontece um convite assim. Mas, hoje em dia, nosso trabalho não tem nada a ver mais com o hip hop”.

“Grafite x pichação”

Um olhar um pouco mais atento permite concluir que o grafite feito hoje por Otávio e Gustavo mantém poucas semelhanças com aquele que ainda dá sinais de beber da fonte dos precursores : os “manos” afro-americanos que se criaram no Bronx. Essas diferenças entre estilos costumam vir à baila na sempre revigorada polêmica “grafite x pichação”. Controvérsia na qual Os Gêmeos preferem não jogar lenha. “A gente já não aguenta mais responder perguntas do tipo ´qual a diferença entre grafite e pichação?´ Isso não importa”, dispara Gustavo.
O nível de elaboração e a riqueza de detalhes dos murais grafitados pelos gêmeos vêm, segundo eles, de uma obsessão pela prática do desenho. Eles contam que nunca fizeram um curso. O estudo, ainda hoje, acontece em casa. “A gente sempre estudou, desde pequeno: desenho, desenho, desenho”.

Fino traço

Foi justamente essa aplicação que ajudou a forjar o estilo de Os Gêmeos. Para eles, as principais características de seu trabalho vêm da maneira como o desenho é feito: “O jeito de a gente usar o spray, a linha, o contorno…”, explica Gustavo. “A gente faz fininho — isso também é estilo nosso”.

A preocupação com detalhes fica evidente também na criação dos trajes de seus personagens.”A estampa das roupas também é uma característica que a gente tem”. Os personagens, mostrados em situações que ora parecem saídas de sonho, ora da dura realidade brasileira, são todos revestidos de um lirismo sem paralelo nesse tipo de manifestação artística.

“O que a gente quer, o jeito como filtra as informações, a gente coloca através dos personagens”.
Quando o assunto se aprofunda na questão das influências artísticas, ambos preferem não citar nomes. “Acho que começam com a arte brasileira, a cultura popular brasileira”, revela Otávio, “e vão até tudo o que a gente sonha, vê, sente, ouve”.

E Volpi ?

A confusão sobre a suposta influência do artista no estilo de pintura de Os Gêmeos tem mais de uma explicação. A primeira delas : as bandeirinhas, que se repetem no traje de vários dos personagens criados pelos imãos, segundo eles, teriam a mesma origem das que, a partir dos anos 50, tornaram-se frequentes na obra de Volpi : as festividades juninas (São João, Santo Antônio e São Pedro).

Alfredo Volpi (nascido na Itália em 1896 e falecido em 1988), como Os Gêmeos, morou quase toda a sua vida no Bairro do Cambuci. Gustavo conta que, quando crianças, ele e o irmão estiveram, em certa ocasião, no ateliê do artista. “Gostamos do trabalho dele , mas não virou influência”, ressalta.

“A gente tem muito dessa coisa do brasileiro, do improviso, das coisas que o brasileiro faz para se virar. Tem muito dessas improvisações no nosso trabalho”, argumenta Otávio, aludindo ao fato de que Volpi, além de auto-didata, se encarregava de fazer seus próprios pincéis e telas. Outra “coincidência”: o artista, que veio da Itália ainda criança, iniciou-se na pintura como “decorador de paredes”, ou seja, fazendo uso do mesmo tipo de suporte que, décadas mais tarde, notabilizaria Os Gêmeos do Cambuci.

Filme para Nike

A visibilidade alcançada pelo trabalho da dupla, presente em muros ao redor do planeta, acabou rendendo-lhe convites como o da Nike. Otávio e Gustavo foram contratados para fazer a parte gráfica do documentário patrocinado e co-produzido (juntamente com a O2 Filmes) pela fabricante de materiais esportivos.

“Ginga – A Alma do Futebol Brasileiro”  teve direção de Hank Levine, Marcelo Machado e Tocha Alves e produção-executiva a cargo do cineasta Fernando Meirelles. O lançamento no Brasil aconteceu em abril último. “Convidaram a gente por ter esse estilo bem brasileiro de pintar”, conta Otávio. “Fizemos as vinhetinhas e decoramos todas as peças passadas no filme”.

Fernando Meirelles gostou tanto da experiência de trabalhar com Os Gêmeos, que os convidou para auxiliarem na produção das animações para a série televisiva da Rede Globo, Cidade dos Homens. “A gente fez a animação com ele. Foi um outro experimento”, lembra Otávio . “A gente falou : vamos fazer uma brincadeira , vamos ver no que é que dá”.

Ainda por conta do trabalho para a Nike, Otávio e Gustavo passaram quatro meses viajando por cidades de sete países. Eles contam que a proposta da turnê – batizada de Brasil – era fazer uma festa brasileira em cada local visitado. Em cada cidade, acontecia uma exposição com o trabalho dos grafiteiros e a exibição do filme Ginga. “Eles precisavam de artistas que representassem a nossa cultura através das artes plásticas ou das artes visuais”, explica Gustavo.

Outros suportes

Foi entre uma viagem e outra que surgiu a proposta de desenhar um tênis especial para a marca. Os calçados, produzidos em edição limitada e lançados apenas nas cidades visitadas durante o tour organizado pela Nike, tiveram a parte traseira, a língua e a palmilha ilustradas pelos grafiteiros.
Sobre o convite que os traz agora a São Paulo quem fala é Gustavo: “Veio da Márcia e da Alessandra (Márcia Fortes e Alessandra Ragazzo d´Aloia, sócias-fundadoras da galeria). Elas já conheciam o nosso trabalho e o que a gente fez em Nova York também”, continua, referindo-se à estréia deles no circuito formal de arte contemporânea, com uma grande exposição na Deitch Projects Gallery (que representa Keith Haring e Jean-Michel Basquiat, artistas que também alcançaram fama usando o grafite como linguagem). “Acho que acabou rolando assim: ´Pô, como os caras são de São Paulo e nunca fizeram nada aqui? Vamos fazer, meu, tá na hora de fazer”, acredita Otávio.

Embora a paixão pela atividade nas ruas não tenha arrefecido, os rapazes não escondem a empolgação com a nova empreitada. Sobretudo, segundo contam, pela miríade de possibilidades implicadas em mostrar seu trabalho em uma galeria, fazendo uso de um espaço que, nas palavras de Otávio, “pode ser transformado em 100%”. “Você pode ter um trabalho tridimensional, pode ter luz, música, pode ter objeto, você pode fazer uma coisa se movimentar”.

Grafite,  só lá fora

Mas é quase em uníssono que Os Gêmeos dizem que o que eles vão exibir nas dependências da Fortes Vilaça não é grafite. “Aqui dentro é arte, arte contemporânea”, esclarecem.

Quem não tiver a oportunidade de estar em São Paulo para ver a exposição d´Os Gêmeos, nem puder explorar a cidade para descobrir a marca deles impressa nos muros, há outras alternativas para conhecer um pouco mais da arte desses paulistanos. Uma delas é folhear o livro inglês Graffiti Brasil (Org.: Tristan Manco, Caleb Neelon, Ignácio Aronovich e Louise Chin – Ed. Thames & Hudson).

Outra opção é visitar o site Flickr, onde fãs dos irmãos espalhados pelo mundo (fotógrafos amadores e profissionais) publicam imagens de instalações e muros grafitados pela dupla de artistas quando em passagem por suas cidades . O endereço é : http://www.flickr.com/groups/osgemeos/.

No Rio e em POA

Antes de viajar para a Alemanha, onde estarão envolvidos com novos projetos, Os Gêmeos farão a curadoria do evento Identidade de Rua (organizado pela ONG gaúcha Instituto Trocando Idéia Tecnologia Social), cuja terceira edição deve acontecer em setembro, no Rio de Janeiro.
Em novembro do ano passado, como parte do projeto, Os Gêmeos, juntamente com outros conhecidos grafiteiros da cena nacional , pintaram vagões do Metrô da Trensurb ( Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre).

Horário de visitação : Terça à sexta-feira, das 10h às 19h; Sáb., das 10h às 17h. Até 16/09.
Entrada franca.
Galeria Fortes Vilaça – Rua Fradique Coutinho, 1500; (11) 3032-7066/ 3097-0384

O que move aquele clique

 

Com a pergunta-mote “Por que eu fotografo?”, eventos em Brasília comemoram
Dia Mundial da Fotografia, nesta terça-feira (19/08), e propõem reflexão sobre produção fotográfica


* Matéria publicada no Yahoo! Notícias em 18/8/2008

 

Bienal do Rio 2007

Acima, uma das imagens que participam da mostra FotoGrama: E você? Por quê?

 

* Por Adriana Paiva, da Verve Press

(Brasília) – Em 19 de agosto, comemora-se o Dia Mundial da Fotografia. Foi nesse dia, no ano de 1839 , que a Academia de Ciências e Artes de Paris anunciou ao mundo a invenção do físico Louis Jacques Daguerre. Aproveitando a data, 39 fotógrafos aceitaram o convite para responder à pergunta “Por que eu fotografo?”. Este é o fio condutor de uma série de ações que acontecem na capital federal, a partir da primeira quinzena de agosto. O objetivo é criar um espaço para reflexão e debates, agregando conteúdo ao processo de fazer, mostrar e ver fotografia.
Foram planejados três eventos dentro de um evento maior: nesta sexta (15/08), acontece a abertura de uma exposição coletiva no Museu da República. No sábado (16/08), a programação prevê debates acompanhados de dinâmicas de grupo, no mesmo local. No domingo (17/08), tem início a mostra FotoGrama, que, dirigida a um público que não tem o hábito de freqüentar galerias, vai reunir fotos de 1m x 60cm, impressas em faixas de vinil e fincadas no gramado que circunda a torre de TV – local onde há grande circulação de pessoas nos finais de semana, muitas oriundas das chamadas cidades-satélites . As imagens são acompanhadas de texto onde cada autor responde à pergunta “Por que eu fotografo?”.

“Nesse primeiro encontro, ou nesses três primeiros eventos, reunimos um conjunto bem eclético de participantes”, conta a jornalista e designer Usha Velasco, uma das organizadoras . São 39 participantes, entre fotojornalistas, fotógrafos de publicidade e amadores, designers e professores.
No Museu da República , estarão expostas 46 fotografias e no FotoGrama, 43. “O resultado foi empolgante!”, comemora Usha . “O conjunto está muito bonito, as respostas muito interessantes; o próprio ato de fazer um texto sobre por que fotografar já estimulou a reflexão” .

Sementes no vácuo

Uma certa insatisfação frente ao vácuo de conteúdo da produção fotográfica atual e à banalização do ato de fotografar é a força motriz por trás desses eventos. “Há muitas imagens no mundo, na mídia, na web, no Flickr, nos blogs, mas nenhum comentário que vá além de ´linda foto, parabéns!’”, avalia Usha. A idéia para a realização dos eventos surgiu de um grupo formado por fotógrafos que começaram a conversar pela internet, após um concurso fotográfico cujas regras eles contestaram . O mailing de fotógrafos caiu na rede e deu origem a uma lista de discussão informal .
Com as trocas via web ficando mais ricas e freqüentes, um núcleo formado por cinco fotógrafos – Usha e Rinaldo Morelli , integrantes do coletivo fotográfico Ladrões de Alma; Isabela Lyrio e Arthur Monteiro, do coletivo Punctum, e por Roberto Castello – se mobilizou e convocou os demais participantes da lista para uma reunião. “Depois de alguns encontros, foram traçadas as diretrizes dos eventos”, relata Usha. Surgia aí a semente do que pretende ser um movimento de incentivo à discussão sobre a produção de fotografia na atualidade.
“Queríamos sair de um padrão que chamamos de ´vitrine vazia´”, diz Usha. “Muita coisa bonita, mas nenhuma reflexão”, ressalta.
Isabela Lyrio, fotógrafa que integrou o núcleo de discussão original , comunga com o ponto de vista de Usha sobre haver atualmente uma produção fotográfica abundante (e acrítica) . “Há muita imagem sendo produzida e as pessoas não param para analisar que tipo de idéia estão gerando”, acredita.

Flickr

Outro tema que tem freqüentado a pauta de discussões do grupo, segundo Isabela, são os sites que, como o Flickr, permitem a publicação gratuita de imagens , além de funcionarem como redes sociais . Ela, que mantém uma conta no Flickr, diz que usa o site basicamente para mostrar seu trabalho aos amigos fotógrafos e que pouco interage com outros usuários , pois acha os comentários trocados ali , em geral, bastante superficiais. “Entre meus amigos, fazemos a brincadeira do ‘Wow, great shot!’, em inglês, ‘Grande clique!’”, revela, referindo-se aos elogios comumente trocados entre usuários do Flickr.
“Penso que a fotografia tem que correr para uma relação ainda mais forte com o objeto” , diz . “Chegar e fotografar, qualquer um pode fazer . Mas, conceber um projeto e se aprofundar exige dedicação”. Isabela, entretanto, não enxerga apenas defeitos nos sites de compartilhamento de imagens . “Com tanta imagem sendo feita, em algum lugar essa produção precisa ser extravasada” , defende . É o que ela, aliás, tem feito com as fotos que vem registrando durante os Jogos Olímpicos de Pequim, para onde foi com o propósito de atualizar seu banco de imagens.

Blog da hora

O fotógrafo Claudio Versiani, criador do blog Pictura Pixel, um dos mais recentes fenômenos de popularidade entre fotógrafos, na rede, é um grande entusiasta das possibilidades de intercâmbio trazidas pela internet. “Não sei por que e nem como aconteceu, mas hoje existe uma comunidade PicturaPixel” , empolga-se . Versiani atualmente mora em Barcelona e conta, via Skype, que há gente que acessa o blog religiosamente, todos os dias. “Isso assusta um pouco”, confessa. “Mas, ao mesmo tempo, faz bem ao ego e incentiva para o duro dia de amanhã”.

Significado à vida

Versiani, que trabalhou durante nove anos no Correio Braziliense como como editor de fotografia, tem sido um dos mais fervorosos apoiadores do movimento “Por que eu fotografo?”. “O evento é genial”, elogia . “Encontrar a resposta para tão intrigante pergunta é saber por que e para que se vive”, define. O fotógrafo lembra que a mesma pergunta , coincidentemente, foi feita na primeira edição da então Revista Eletrônica Pictura Pixel.
“Nós começamos com o Abelardo Morell (fotógrafo cubano radicado em Nova York)” , recorda . “Ele é o papa da câmera obscura” . Nesse mesmo número, além de entrevista, portifólio e vídeo sobre o trabalho do cubano, uma pergunta foi lançada aos leitores: “Por que fotografar?” . “Abelardo Morell, muito antes, já havia respondido: ´Porque me faz sentir vivo, humano e jovem´”. Cláudio Versiani assina embaixo.

Participam do evento, os seguintes fotógrafos: Alain Barki,Alan Marques, Alan Santos, Alessandro Souza,Antonio Antunes, Armando Salmito, Arthur Monteiro, Breno Fortes, Carlos Aversa, Claudio Versiani, Duda Bentes, Ed Ferreira,Eraldo Peres, Fernando Croitor, Hélio Rocha, Henry Macario, Isabela Lyrio, Jefferson Rudy, Jorge Diehl , José Rosa , Josemar Gonçalves , Kazuo Okubo , Leonardo Amaral , Lourenço Cardoso , Luis Tajes , Luísa Molina , Miguel Angelo , Patrick Grosner , Ricardo Padue , Ricardo Reis , Rinaldo Morelli Roberto Castello , Roberto Castro , Rose May Carneiro , Sérgio Fonseca, Susana Dobal , Usha Velasco e Wládia Drummond.

Abertura da exposição coletiva: 15/08, às 19h30
Visitação até 20/08
Debate e dinâmicas de grupos : dia 16/08, a partir das 14h30, no subsolo do Museu da República (Esplanada dos Ministérios)
Ingresso: R$ 10,00 + uma foto
Mostra Foto-Grama: dia 17/08, entre 9h e 18h, no gramado de acesso à Torre de TV de Brasília.

.