Inspirados por Nise da Silveira

 

Revista da Cultura * Seção: Arteciência. Páginas 44 a 48.
Data da publicação: Setembro de 2014 * Edição n° 86

O legado de Nise da Silveira - Reportagem e texto por Adriana Paiva. Matéria da jornalista Adriana Paiva

 

 

BRAVOS DISCÍPULOS

Dentro de instituição fundada há 103 anos, na zona norte do Rio, museu e série de projetos inovadores mantêm vivo o legado da psiquiatra Nise da Silveira

POR: ADRIANA PAIVA / 03/09/2014

Prédio do Museu de Imagens do Inconsciente, Engenho de Dentro. Uma jovem de pouco mais de 20 anos acaba de subir o último lance de escadas e chegar ao andar. A psicóloga Gladys Schincariol, coordenadora do museu, interrompe sua fala para se dirigir a ela: “Chegou agora? Vai ao CCBB?”. A moça responde com uma negativa seguida de um sim. O ônibus que a conduziria, juntamente com companheiros do centro de convivência, a uma visita à mostra Salvador Dalí: Uma retrospectiva, já estava estacionado lá embaixo.

Antes de descer a escadaria que desemboca no pátio do Instituto Municipal Nise da Silveira, ela ainda volta para avisar: na sexta-feira, vai assistir a uma peça na Casa de Cultura Laura Alvim. Gladys quer saber como ela fará para voltar para casa. A moça diz que mora em Maria da Graça, bairro da zona norte carioca, não muito distante dali, o que leva a psicóloga a logo supor: “Ah, então você vai pegar o metrô em Ipanema. É isso aí!”. A moça aquiesce e despede-se.

A., a jovem da movimentada agenda cultural (que tem seu nome abreviado a pedido do Instituto), já esteve internada na instituição, mas hoje é uma paciente com liberdade para ir e vir. Paciente, aliás, é termo raramente pronunciado ali dentro. Nas dependências do Nise da Silveira, os portadores de transtornos psiquiátricos são mais comumente referidos como clientes.

Funcionária da instituição desde 1974 – quando esta ainda se chamava Centro Psiquiátrico Dom Pedro II –, Gladys tem um punhado de histórias semelhantes para contar. A psicóloga começou a trabalhar ali como estagiária da doutora Nise da Silveira, quando a médica, havia muito, dera partida aos esforços que revolucionariam discursos e práticas da psiquiatria e hoje constituem a maior inspiração do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, que, entre outros pontos, preconiza a humanização do tratamento dos distúrbios mentais e a desinstitucionalização de indivíduos outrora tratados em regime de internação.

Nesses 40 anos, Gladys viu de perto todas as fases da chamada Reforma Psiquiátrica, desde os seus primeiros momentos, no final da década de 1970, com o processo de redemocratização do país. “Quando cheguei, já eram mais de 1.500 internos”, diz a psicóloga. Exatas três décadas antes, quando a doutora Nise começou a trabalhar ali, eram 2 mil os pacientes internados na instituição. Se as internações, nesses 30 anos, não tiveram queda expressiva, do ano 2000 para cá, com o instituto sendo assumido pelo município, elas vêm caindo consideravelmente. “A cada ano são retirados novos doentes daqui e encaminhados para residências terapêuticas. Hoje, devemos ter menos de 100 internos”, avalia Gladys.

As transferências são parte importante do programa de desinstitucionalização, como explica a filósofa clínica Valéria Sayão, responsável pelo setor de comunicação do museu. “São casas normais, onde essas pessoas moram em estado mais ou menos independente, tendo a sua singularidade preservada, mas com apoio técnico.”

Ao lembrar de casos parecidos com o de A., que hoje é atendida em esquema de externato, ela acrescenta: “No passado, eram pacientes que estavam dentro de uma instituição psiquiátrica e, para qualquer lado que se voltassem, tinham essa percepção do atendimento terapêutico. Hoje em dia, eles moram em suas casas. E, assim como nós vamos ao dentista, ao psicólogo ou a outro clínico, eles vêm ao instituto para receber atendimento”.

Na mesma manhã em que a reportagem da Revista da Cultura esteve no museu, Gladys acabara de proceder a um desses atendimentos. “Fiquei durante horas conversando com um cliente que fazia tempo que não vinha”, conta. “Aqui, atualmente, fazemos o que chamamos de projetos terapêuticos. Cada cliente nosso tem o seu próprio projeto. Desse modo, conseguimos lidar com cada um de maneira diferenciada, respeitando suas idiossincrasias.”

Como extensão desses projetos terapêuticos é que, dentro do museu, também funciona um ateliê de pintura e modelagem. Assim que se adentra a sala amplamente iluminada, chamam a atenção as dezenas de desenhos, alguns pendurados nas paredes, outros distribuídos pelas mesas. Gladys escolhe dois para comentar. O primeiro integra uma série de inspiração heráldica cujo autor é um cliente que também faz aulas de desenho em outro núcleo do instituto. O segundo, uma multicolorida composição geométrica, é usado pela psicóloga para ilustrar o progresso clínico de outra cliente. Gladys conta que, quando essa mulher começou a frequentar o ateliê, ela estava a tal ponto medicada que seus desenhos se resumiam a traços muito curtos, dispersos por toda a folha de papel. “Mas veja esse desenho hoje!”, exulta. “Agora, ela está muito bem. É uma querida e auxilia a todos quando vem aqui.”

Enquanto caminha por uma das galerias, discorrendo sobre obras de ex-pacientes do antigo centro psiquiátrico, que se tornaram figuras de renome no campo das artes plásticas (a exemplo de Emygdio de Barros e Raphael Domingues), vez ou outra, Gladys recorre a uma citação da doutora Nise. “Ela falava que o que está doente, que o que se desestruturou, é o ego desses indivíduos. E que pintar, por si só, é terapêutico, porque despotencializa os conteúdos ameaçadores”, pontua, antes de avisar que precisa sair para uma reunião com membros da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente. Há algum tempo, a psicóloga articula com o grupo uma série de iniciativas em prol do museu. “Estamos reivindicando um espaço aqui ao lado. Queremos ampliar, fazer uma exposição maior, abrir mais para a comunidade – inclusive nos finais de semana. Mas tudo isso com uma estrutura realmente museológica.”

HOTEL DA LOUCURA

A cada ano, aumenta o número de programas e iniciativas, dentro do instituto, voltados à integração de portadores de transtornos mentais à vida saudável em sociedade. O médico Vitor Pordeus, por exemplo, está à frente de dois dos mais bem-sucedidos desses projetos: a Universidade Popular de Arte e Ciência (Upac) e o Teatro de DyoNises. Formado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e com experiência teatral obtida em cursos com os atores Amir Haddad e Camila Amado, o carioca fez de uma antiga enfermaria do hospital a sede de ambas as iniciativas.

Sob o irreverente nome de Hotel e Spa da Loucura, desde 2012, é ali que são desenvolvidas várias das atividades que antes aconteciam no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça Onze, localizada no centro do Rio. “Em 2010, estávamos lá fazendo esses intercâmbios em arte e ciência, cultura e saúde, tendo na doutora Nise da Silveira nossa principal referência de artecientista”, lembra Vitor, que também dá expediente na Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil.

Agora, com a sede própria, ele e seus colaboradores têm multiplicado projetos quase no mesmo ritmo em que obtêm visibilidade para eles. Projetos esses que, não raro, ocorrem além dos muros do Instituto. O DyoNises é um exemplo desse esforço. Todas as quartas-feiras, a trupe faz da praia do Arpoador palco das apresentações do espetáculo-oficina Loucura sim, mas tem seu método, inspirado em Hamlet, de William Shakespeare.

Lá se apresentam não apenas parceiros e “hóspedes” do Hotel da Loucura, mas, eventualmente, também curiosos que surgem manifestando desejo de viver a experiência de atuação teatral. “Todas as nossas atividades são abertas. Qualquer pessoa pode chegar e fazer teatro com a gente. Imediatamente!”, enfatiza Vitor. “O teatro trabalha sem estratificação social. Acho que isso é que faz dar certo, isso é que faz andar.”

Perguntado sobre a maneira como o teatro tem promovido a cura das pessoas com as quais ele trabalha, o médico-ator não hesita ao responder: “Ressignificando! A doença também é produção simbólica. Se você quiser mexer na doença, tem que mexer nos fatores simbólicos, culturais e políticos”, defende. “Aqui, tenho muitos casos de cura. Um grupo inteiro de pessoas trabalhando com engajamento e continuidade, com melhoras no estado mental, nas relações, fazendo viagens”, exemplifica, mostrando fotos de integrantes da trupe. Entre eles, Reginaldo Terra, de 64 anos, que continua a viver no instituto, principalmente por já não ter, fora dali, familiares com quem contar. “O Reginaldo, por exemplo, está internado desde os 11 anos de idade. Ama fazer teatro e faz muito bem. Ele improvisa cenas e faz o fantasma do pai do Hamlet.”

Outra participante ativa de projetos do grupo, a atriz Denise de Andrade, que também tem formação em Ciências Sociais, diz que chegou ao Hotel da Loucura depois de ver uma entrevista de Vitor. “Fiquei impactada com a ideia de uma universidade que valoriza saberes acadêmicos e populares de forma igualitária, sem hierarquias”, diz. “Quando cheguei, vi as ideias de Nise da Silveira em sua plenitude: o afeto catalisador, a convivência que quebra preconceitos, a criação livre e a arte produzindo cura coletiva.”

No hotel, ela também participa do grupo de estudos Gerar, que, a cada 15 dias, recebe interessados em discutir textos de autores que embasam as propostas ali desenvolvidas, como Baruch Spinoza, Franco Basaglia, Humberto Maturana, Paulo Freire e José Pacheco. Criador da inovadora Escola da Ponte, em Portugal, Pacheco, aliás, é um dos convidados do Ocupa Nise – 4º Congresso da Universidade Popular de Arte e Ciência, que acontece de 1° a 7 deste mês na sede do Hotel da Loucura.

FIM

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Entrevista: Domingos Oliveira

Revista da Cultura * Seção: Entrevista. Páginas 14 a 21

Data da publicação: Janeiro de 2015 * Edição n° 90

Entrevista com Domingos Oliveira

 

ONDE MAIS HOUVER POESIA

Entrevista e texto por Adriana Paiva

Quantos Domingos podem se revelar em uma única entrevista? Gire o caleidoscópio e espere. Difícil será escolher com qual deles entabular a próxima conversa. Se com o realizador profícuo e fervilhante de ideias que, no auge da forma física, era capaz de estar envolvido em oito produções ao mesmo tempo; com o amigo fiel dos inúmeros amigos; ou, ainda, com o homem que, diuturnamente, encontra novos motivos para se encantar pela mulher com quem vive há 35 anos.
Certo mesmo é que todos os Domingos têm ótimas histórias para contar. Algumas delas presentes na recém-lançada autobiografia “Domingos Oliveira – Vida minha”. Aos 78 anos de idade e com 50 de carreira, era de esperar que o cineasta, ator e dramaturgo tivesse sido testemunha e partícipe de alguns dos mais importantes acontecimentos da cena artística nacional. Do nascimento da teledramaturgia ao despontar dos maiores atores do país, suas vivências resultam em passagens narradas com graça e minúcias. Também não ficaram de fora as recordações familiares, as paixões precoces, tampouco os momentos felizes e, às vezes tormentosos, de seus cinco casamentos – um dos quais responsável por trazer ao mundo uma das grandes personagens femininas de sua vida, a atriz Maria Mariana. “Quis ter mais filhos, mas, por circunstâncias várias, não pude. A vida quis assim. Fui levado para um caminho, levado para outro. Não me incomodo com isso, não. Maria Mariana me deu quatro netos!”

Apesar de uma decepção aqui, outro travo ali – às vezes, decorrente do Parkinson, doença com a qual foi diagnosticado em 1998 –, o homem segue cheio de planos. Além de um longa-metragem pronto para ser rodado, um romance no prelo e outro sendo escrito, Domingos também planeja levar aos palcos o que, segundo ele, talvez seja o mais audacioso plano jamais aventado, um stand-up contando a sua vida. Para falar de suas memórias e sobre o que tem pensado ultimamente, foi que ele recebeu a Revista da Cultura em seu apartamento no Leblon.

Logo no início de Domingos Oliveira – Vida minha, você se pergunta se deveria contar as passagens de sua vida seguindo uma cronologia. E conclui que não, que seria um desperdício. Como suas memórias foram sendo registradas?

Quando você está escrevendo um livro de memórias, se abre a esse jorrar de recordações imprevistas. Escrevi minhas memórias de uma forma requintadíssima. Sou muito exigente, porque fiz análise. De modo que, quando você reúne todos esses fatos, não é possível deixar de ver que se forma um desenho que é você. E, às vezes, você gosta; às vezes, não…

Algumas passagens da autobiografia também aparecem entremeadas às entrevistas que a atriz Maria Ribeiro gravou com você para o documentário que ela dirigiu (Domingos, lançado em 2011). Ela teve acesso a alguns de seus diários?

Não especialmente. Esses diários sempre foram para mim um modo de eu me entender, lembrar o que fiz nos últimos 15 dias… Mas Maria começou há muito tempo, pegando autorizações no teatro, etc. E a minha vida, ah, minha vida é um livro aberto. Para dizer um lugar-comum adequado…

Vários de seus filmes nasceram de peças teatrais. Infância, seu mais recente longa-metragem, é uma adaptação de “Do fundo do lago escuro”, que estreou em 1980. Por que transpor teatro para o cinema?


O teatro sempre me tocou muito. É uma relação até mais estreita do que parece à primeira vista. Não sou um homem de cinema, talvez. Sou um homem de teatro, minha formação é teatral. Stanislavskiana pura. Não sei dizer onde começa o amor à arte. Mas a arte do ator supera em grandeza todas as outras. Para mim, é mais ou menos a mesma coisa. Todo filme bom tem bases teatrais.

E como você vê o cinema feito atualmente no Brasil?

Não gosto de falar da produção cinematográfica brasileira. Porque ela não está errada aqui ou ali. Ela está toda errada. Está tudo errado! Há uma política voltada a impedir que bons filmes sejam feitos. E, falando do filme que fiz, o “Infância”, que tem excelentes qualidades – tenho certeza de que não estou maluco –, não encontro exibição, não encontro distribuição. As regras do mercado não permitem. Se você faz um filme que tem ótimo roteiro, ótimas atrizes, ótimos atores, um conteúdo digno de ser dito, mas não encontra exibição, é porque algo vai muito mal. É preciso fazer esse balanço entre filme comercial, que pode existir, que deve existir, mas que deve sustentar o filme de arte, digamos assim. Mas também detesto essa expressão, “filme de arte”. Tenho outra melhor: filme útil. Este tem que ser útil para quem o vê. Se o filme não me dá munição para lutar a luta da vida, ele não é bom. A arte também existe para as pessoas viverem melhor. E cada vez a gente está mais distante disso. Não se pode entregar o cinema ao mercado. Do mesmo modo que você não pode entregar a saúde pública e a educação à política…

Infância é fruto também dos princípios do “B.O.A.A.” (Baixo Orçamento e Alto Astral), o polêmico manifesto cunhado por você, em 2005, em defesa da produção de filmes com poucos recursos?

Sempre gostei muito de trabalhar com baixo orçamento. Sou filho dessa geração. Minha influência cinematográfica é, primeiro do neorrealismo, depois da Nouvelle Vague, toda uma escola de baixo orçamento. Então, tenho essa tendência. O dinheiro, às vezes, atrapalha. Às vezes, não! Sempre atrapalha. Porque o dinheiro compromete, mistura outros valores com valores artísticos. Mas quase me bateram quando eu lancei esse negócio do B.O.A.A..

Mas, desde que foi lançado, em meados de 2014, Infância vem fazendo boa carreira nos festivais, recebeu vários prêmios…

Ele tem sido visto como um bom filme. Mas é mau negócio para a distribuidora distribuir qualquer filme. O filme é excelente! Tem Fernanda Montenegro! Não é bom negócio para a distribuidora gastar, com lançamento, uma verba considerável que ela não vai ter de volta. Não gosto de falar sobre esse assunto, que é muito chato. Mas vi um filme outro dia, Relatos selvagens. Um filme sensacional feito na Argentina, um país que está em plena decadência, que tem problemas seriíssimos, mas que consegue ter um cinema fulgurante. Por quê? Porque tem uma boa legislação. Eu não sei dizer como funciona o cinema argentino, em detalhes. Em linhas gerais, é assim: se você fizer um filme bom, se a crítica for boa, se o público for ver (todo mundo sabe, até uma criança sabe o que é um filme bom), se você fizer um filme útil para a sociedade em que você vive, mais cedo ou mais tarde, por um desses mecanismos de financiamento, o governo acaba devolvendo o dinheiro, a verba que você tirou do bolso. Você não tem mais chance de ficar no prejuízo. Em compensação, o governo é sócio dos filmes e ganha se o filme for bom. Com essa pequena estratégia, porém justa – e o Brasil já esteve perto disso –, você pode arriscar e fazer bons filmes, porque perder você não vai perder.

Depois de um período bastante produtivo na Rede Globo, ainda que com contratações intermitentes, em 1993, você atravessou a porta da emissora resolvido a não mais voltar. Você já explicou a decisão alegando cansaço de certa tendência das grandes redes de serem autocentradas e barrarem tudo o que pareça muito autoral. Continua sendo assim?

Não, não continua sendo assim. Está muito pior! Agora, não tem vez, não há lugar para o autor. Eu detesto falar da TV e do cinema, porque preciso desses empregos, de produzir coisas com as quais eu ganhe um dinheirinho. De modo que falo mal e eles ficam danados comigo e não me contratam. Mas eu estava falando, então continuo: a televisão está cada vez pior para o autor. Cada vez ela acha que necessita menos da autoralidade. Melhor dizendo: que ela necessita menos da poesia. Mas adoro a TV Globo. Se pudesse, passava as tardes naqueles corredores, fazendo coisas em uma sala e outra, conforme fiz durante anos. A gente da TV Globo é gente muito boa…

E os programas “Todos os homens do mundo” e “Swing”, que foram ao ar pelo Canal Brasil e você produzia e apresentava em parceria com sua mulher, a atriz Priscilla Rozenbaum?

Todos os homens do mundo era o que eu gostava mais de fazer. Mas fomos devidamente despedidos depois de alguns anos. Há algo no artista de que a televisão não gosta. A regra da televisão é simples: se você é ruim, eles te botam pra fora. Se você é bom, eles te aumentam o salário. Mas, se você é ótimo, eles cortam a sua cabeça…

A que você atribui isso?

Não sou apto a fazer psicanálise da televisão. Mas inveja não é má hipótese. A poesia do mundo incomoda, porque ela conduz à falta de administração. O absurdo da condição humana é encontrado toda vez que você caminha pelos caminhos da arte. E, na televisão, eles não estão interessados nisso. A TV é um business, um ótimo business. Já fui despedido por um senhor muito meu amigo. Ele me chamou lá em cima, no oitavo andar, e disse: “Domingos, você não vai poder dirigir este programa porque você é autoral demais. Você escreve bem, dirige bem, entrega o trabalho no prazo. Mas vamos chamar outro diretor para dirigir sua obra para diminuir sua autoralidade, porque esse é o único defeito que você tem…”

Apesar de tudo, você reconhece que a televisão é uma escola imbatível. Ensina toda a parte técnica e também a lidar com prazos, orçamentos…

É uma superescola! Mas ali tem muita coisa errada. Outro dia, vi o último capítulo de “O rebu”. Os cenários eram ótimos, os diálogos eram ótimos, as câmeras e a luz também eram muito boas… De dar orgulho. Dá orgulho ter esse nível de televisão brasileira. Principalmente pelos atores. A gente olhava e era uma plêiade, para usar o termo certo. Os melhores atores do Brasil, em quantidade enorme. E, no entanto, era ruim. No conjunto, era ruim… É um pouco como se a TV estivesse dando ao povo o que ele quer. E as pessoas que trabalham nisso são martirizadas, porque têm que dar ao público o que ele precisa, mas ele não sabe o que quer. A arte pode ser muito útil socialmente. Mas há essa falta de compreensão do papel social da arte…

E o teatro tem lhe sido um patrão muito mais generoso?

Sempre tentei fazer um teatro comercial de arte. No teatro, a arte ainda dava dinheiro. Atualmente, está mais difícil. As peças não têm mais a menor importância. Não acontecem, não repercutem. Se eu perguntar que boas peças você viu, recentemente… Eu queria ver o Juca de Oliveira, com o “Rei Lear”, e tinha acabado… Mas o teatro é o último reduto da inteligência. E como ele pode ser feito sem dinheiro, não depende tanto da verba, é o lugar para onde vão os astros da imaginação, os poetas. Gosto muito do teatro. Meu próximo projeto é para teatro.

E você pode nos adiantar algo?

Posso. Já fiz muita coisa, tenho uma obra numerosa, mas preciso trabalhar. Queria fazer alguma coisa que fechasse esse ciclo. Não que eu tenha encerrado, absolutamente! A impressão que tenho é que vou morrer aos 111. Eu sou tão apaixonado pela vida que não vai ser fácil me tirar daqui. Mas pensei fazer em seguida o plano mais audacioso, mais louco, mais impossível que eu puder fazer. E como minha condição física não é muito boa – tenho uma doencinha sem a menor importância, mas que às vezes me deixa enfraquecido –, a prática do teatro não é segura para mim. O teatro precisa de um corpo saudável, muito trabalhado. Mas talvez faça um stand-up e entre em cartaz em janeiro ou fevereiro, quando ficar pronto. Eu sozinho no palco, contando minha vida, um stand-up chamado “Vida minha”, adaptado do livro…

Além da volta ao teatro, quais outros planos você tem para 2015?

Estou muito apaixonado pela prosa. Depois da biografia, escrevi um romance; está na mão dos editores. O título é “Antônio”. Gostaria que tivesse o subtítulo O primeiro dia da morte de um homem. E já estou escrevendo outro! Sempre trabalhei muito e agora estou contentíssimo porque saiu o financiamento para fazer meu novo filme, “Apartamento 716”, sobre um apartamento que eu tinha quando era jovem, boêmio…

Voltando no tempo e a um ponto em que sua vocação para a escrita ganhava corpo, você tinha vinte e poucos anos, terminava o curso de Engenharia e vivia uma imensa turbulência em seu primeiro casamento. A análise também o ajudou a lidar com toda aquela angústia?

Eu sempre pirei… Enlouqueci com as separações, o fim dos casamentos. A primeira vez em que estilhacei a minha personalidade por causa do amor foi no fim do meu primeiro casamento, quando comecei a beber muito. Bebia dois dias e dormia um. Nessa fase, isso começou realmente a me prejudicar. E decidi me enriquecer com ela. Comecei a fazer análise e fiz durante anos com um cara que até hoje não sei se era ou não casado… Naquele tempo isso era moda: deitar no divã de costas. Nós tivemos um processo muito bonito. Há várias invenções modernas que um homem deve experimentar. A psicanálise é uma delas. Quando entrei para fazer análise, eu era um garoto boêmio, poeta, mas angustiado. A análise me fez muito bem. Limitado como tudo é limitado, mas gosto de análise.

E continua a fazer?

Não. O último analista que tive era um chinês que era ao mesmo tempo um jesuíta e um biólogo, era muito misterioso e me ouvia muito bem. Depois, não quis mais fazer. Não precisei mais fazer. Mas sou amigo de excelentes psicanalistas. De modo que converso com eles…

Muita gente diz que o filme “Todas as mulheres do mundo” (1966) foi sua cartada definitiva no sentido de reconquistar Leila Diniz. O processo deste longa o ajudou a superar a separação?

Resolveu. O amor com a Leila foi como outro amor qualquer, abençoado por Deus como são todos os amores. A paixão é o Himalaia de Deus. E a gente, quando é jovem, está muito mais apto a viver esse sentimento. Sempre dizem que tudo é sexo. Mas a paixão não, a paixão não é sexo. A paixão é loucura. Eu adorava a Leila, adoro até hoje. Tenho saudades nítidas! Gostaria muito que ela estivesse aqui. Foi um amor jovem, bonito pra caramba! Durou uns três anos.

Você também questiona o mito. Como alguém que não tinha atrás de si toda uma indústria cinematográfica se torna o poderoso símbolo sexual que Leila Diniz se tornou?

É. E esse é um dos capítulos de que mais gosto na autobiografia. De alguma forma, o amor que a gente bota no mundo fica no mundo. A Leila era uma simpaticíssima revolucionária e amava muito as pessoas. Ela deixou isso por aí, através da revolução que ela fez por intuição, sem planejamento.

E você fecha o capítulo sobre Leila Diniz dizendo que foi preciso pesquisar para escrevê-lo, já que transcorreram mais de 50 anos desde o primeiro encontro de vocês. Você leu, a propósito, a biografia “Leila Diniz – Uma revolução na praia”?

Nunca li nenhuma biografia da Leila, nem vi nenhum filme sobre ela. Quem conheceu bem o biografado sabe que biografias são recortes. Recortes pobres. Mesmo o filme da Maria sobre mim é um recorte pobre. O meu livro, o “Vida minha”, é um recorte pobre da minha pessoa. De modo que eu prefiro não ver.

O longa “Separações” (2002) também teve essa virtude curativa, pelo que você conta no capítulo dedicado à Priscilla, sua atual companheira…

Fiquei um ano inteiro separado dela. Depois, ela voltou. Queria muito que ela voltasse e ela voltou. Os homens são assim, provocam até que a mulher resolve ir embora. “Separações” é muito próximo da nossa vivência, coberto de colorido e com uma forte camada de humor! Nós sempre trabalhamos muito juntos. Agora, menos. Mas estamos juntos há 35 anos! E parece que foi ontem. Há 35 anos, quero me separar da Priscilla e ela de mim (risos). Mas a gente não consegue. A Priscilla é uma gracinha, uma pessoa séria, ética, fiel, leal, uma boa atriz… Tenho por ela, frequentemente, encantos de juventude. Mas a gente briga também. Agora, que estou mais velho, é difícil de me relacionar… A relação do homem com a mulher mais nova é uma relação maravilhosa. Talvez, a relação ideal. Mas é preciso sabedoria para carregar. O bom da vida é isso: se desafiar. Pensei que fosse um homem experimentado, pensei que fosse um homem vivido. Hoje, vejo que não. Vivi muitas situações e, com a maturidade, vi o que passei. Mas a velhice e a doença – por que não dizê-lo, apesar de não ser nada grave –, trazem situações novas que você não tem parâmetros para resolver. Isso está sendo para mim delicioso, descobrir novas soluções para novos problemas. Falando assim, parece um slogan da prefeitura quando começam as obras (risos)…

Ou prova de que você já consegue enxergar a situação com aquele bom humor tipicamente seu. Depois de ser diagnosticado com Parkinson, em 1998, você evitou, durante muito tempo, falar publicamente sobre a doença…

Ninguém gosta de falar de velho e de pessoas doentes. O preconceito contra o velho – eu nem falo da doença – é enorme! E precisa ser estudado. Outro dia, me dizia o Aderbal (Freire-Filho), com uma aguda percepção, se eu já tinha reparado como aumentou o preconceito contra os velhos namorarem mocinhas. Atualmente, isso é uma coisa indecente. Isso sempre houve na humanidade. Mas, atualmente, é muito feio. No mundo tem muito preconceito contra o velho. As pessoas odeiam olhar para a face da morte! E o velho representa isso de alguma forma.

Já você, ultimamente, tem refletido bastante sobre esses assuntos…

A velhice é uma coisa muito interessante, é um abacaxi que você faz do seu corpo. Ela cria enigmas dificílimos de resolver e, portanto, interessantíssimos. Um novo tabuleiro de xadrez, que é visto pelos outros. Porque você nunca se sente velho, não há essa possibilidade. Por dentro, eu sou um garoto. O chato é quando a velhice vai te tirando possibilidades. Por exemplo, não posso mais convidar você para dar uma volta no quarteirão depois do almoço. Tenho um problema na perna e ela me cansa. Então, você vai limitando os programas. É um esquema de grande desafio. Um grande desafio holístico, que é transformar a parte que te ficou no todo. E isso é um trabalho artístico (risos), digno de um artista. O medo da morte é um desafio difícil, mas passível de ser vencido. Já o amor, ele ultrapassa toda e qualquer regra. Todo o pensamento sobrenatural que você possa ter sobre ele. O amor não tem nenhuma explicação; ele é a essência do homem mesmo. Quem vive ama. Quem ama vive.

FIM

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