Perfil : Thaís Gulin

 

Revista da Cultura * Seção: Música. Páginas : 48 a 50
Data da publicação: Julho/2014 * Edição n° 84

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

ENTRE O NINHO E A ESTRADA

Reportagem e texto por Adriana Paiva

 

Após lançar dois álbuns e um single com excelente acolhida do público e da crítica, a curitibana Thaís Gulin concentra agora energias na criação de canções de seu terceiro trabalho e vive um processo bastante particular de silêncio e recolhimento

Ao descobrir-se mais introvertida do que acreditava, Thaís Gulin não sente culpa por se isolar. E diz entender que essa não é uma necessidade nova, mas que se insinuava desde a época em que lançou seus dois primeiros álbuns, embora tenha se acentuado bastante de um ano para cá. “No primeiro disco foi assim também, embora tenha sido o processo menos calado. Mas, no terceiro, isso está ainda mais forte que no segundo”, diz. “Quase não saio e acho que vou ficar cada vez mais quieta.”

Foi em meio a essas reflexões que a artista concluiu que não fazia mais sentido voltar esforços à produção do DVD que reuniria os trabalhos lançados até aqui, algo que ainda estava em seus planos no ano passado. O hiato entre o disco de estreia Thaís Gulin, de 2007, e ôÔÔôôÔôÔ, de 2011, deu margem a uma urgência criativa e também a um reajuste de curso. “Normalmente, o DVD é lançado logo em seguida ao CD. Acho que não sabia disso antes”, justifica. “Estou aprendendo tudo na prática: o tempo das coisas, o tempo do mercado.”

Até o dia em que Thaís concedeu esta entrevista, em seu apartamento, na Gávea, eram cinco as canções prontas. Todas com letra e música de sua autoria. O que não significa que, para esse futuro álbum, ela descarte a possibilidade de parcerias. Alguns convites já foram feitos e a ideia é, inclusive, repetir colaborações experimentadas nos trabalhos anteriores, como a com o carioca Rodrigo Bittencourt. Outra parceria já divulgada é com o músico pernambucano China. “Eles mandaram músicas lindas. Mas aí entrei nesse processo de ficar muito, muito quieta, sabe?”

NO RIO E PELO MUNDO

Thaís é capaz de discorrer com igual fluência tanto sobre as maravilhas quanto sobre as mazelas do Rio de Janeiro, cidade homenageada em seu segundo disco. Mas ela, que já morou na França, na Bélgica e na Inglaterra, diz não se conceber mais vivendo em outro lugar que não aqui. O sotaque de sua Curitiba natal e a pele muito alva desfazem, no entanto, qualquer possibilidade de a artista ter assumido a imagem típica da garota carioca ao longo dos 11 anos na cidade. No Rio, a cantora continua não sendo dada a frequentar praias. E já não era na época em que morava no Leblon, a poucos metros do mar. “Eu era mais bronzeada quando morava em Curitiba”, diz, sorrindo. E essa, ela assegura, não foi uma mudança que tenha ocorrido em função do assédio dos paparazzi. Observado, sobretudo, após o namoro com Chico Buarque, iniciado em 2009. Desse assunto, aliás, Thaís continua se esquivando com a mesma veemência de sempre. Mas não sem alguma dose de humor. Tendo sido fotografada ao lado do cantor em diversas ocasiões, é às gargalhadas que ela diz não saber se algum paparazzo também chegou a fotografá-la em uma de suas raras incursões pelas praias do Rio.

Na cidade, a cantora estabeleceu uma rotina cujo foco principal está em compor para o próximo disco. E uma das atividades que lhe têm sido fundamentais nesse processo é a meditação transcendental. “Já faço há seis anos. Acordo, medito, tomo um café e começo a trabalhar”, conta. “Isso abre um canal e você fica muito em contato consigo mesma. É maravilhoso!” Outro hábito diligentemente cultivado é o da leitura. No momento, Thaís mergulha em sugestões bibliográficas do músico Jorge Mautner, a quem ela recebeu como convidado na série de shows que realizou, em maio passado, na Caixa Cultural Rio (participação que volta a se repetir na Caixa Cultural Brasília, nos dias 24 e 25 deste mês). Interlocutor frequente da artista há algum tempo, Mautner indicou-lhe a leitura de China tropical, reunião de artigos de Gilberto Freyre sobre a influência do Oriente na cultura brasileira, e os três volumes de História das crenças e das ideias religiosas, do romeno Mircea Eliade.

Na esteira de um intercâmbio tão profícuo, é bastante provável que o próximo disco também venha a ter algo da lavra do amigo. “O Mautner é incrível. Ele é sabido, mas também é solto e muito livre; um poeta”, elogia, entregando em seguida: “Combinamos de fazer uma música juntos”.

HÁBITOS E CRENÇAS

Embora religiões frequentem o universo de interesses da cantora, ela diz não professar nenhuma doutrina em especial. Ainda antes de completar 20 anos e concluir a graduação em Administração de Empresas, na PUC-PR, Thaís chegou a pensar em cursar Teologia. Mas como seu interesse era, sobretudo, conhecer outros costumes e crenças, alguém na universidade sugeriu-lhe que talvez fosse mais apropriado estudar Sociologia. Desde então, certa busca por sentido, nos pequenos e grandes fatos da vida, a tem movido. “Quando viajei para a Tailândia, dois anos atrás, estive em vários templos. Acho tudo muito bonito e a energia é diferente. Como é lindo ter esse convento aqui perto [de casa] ou o Candomblé, que já fui ver algumas vezes. Mas não que eu tenha um credo específico.”

Nessa fase de energias voltadas à criação e de sensibilidade especialmente aguçada, outro hábito que Thaís faz questão de manter é o de deitar com um caderninho ao lado da cama. Na verdade, o método, trazido da época em que trabalhou com o diretor Augusto Boal, passou por adaptações depois que ela teve seguidas noites de sono comprometidas. “Eu ficava sempre ligada e aquilo me deu muita insônia.” Mas a cantora encontrou alternativas para registrar as ideias que afluem enquanto ainda está na cama. “Tenho sonhado muito com música”, revela. “Às vezes, sonho com uma melodia, aí, levanto e gravo no celular. Dia desses, no aparelho em que fui gravar, a memória estava cheia. Precisava voltar a dormir, mas, antes, queria registrar aquela ideia. Aí, levantei e gravei no GarageBand [software da Apple]. Depois, descobri que não tinha gravado nada.”

Algo que se infere logo nos primeiros minutos de uma conversa com a cantora é o quanto tecnologia e internet estão presentes no seu dia a dia. Duas das redes sociais em que ela tem sido mais assídua, ultimamente, são o Facebook e o Instagram. Foi acessando este último, a propósito, que ela descobriu o mural grafitado que seria um dos cenários das fotografias que ilustram esta matéria – não tivesse a arte recebido, na véspera, uma imprevista camada de tinta branca.

Para ela, a rede, além de eliminar a necessidade de o artista estar em tantos lugares, tem funcionado como um eficiente canal para divulgação de seu trabalho, aqui e no exterior. Ela corrobora a impressão com o exemplo de show feito, em outubro passado, na Casa de América, em Madri. Assim que chegou ao teatro, Thaís, que não tem disco lançado na Espanha, diz ter ficado imediatamente apreensiva frente ao tamanho do lugar. “A gente vinha de shows em um país por dia e não tinha parada para descanso. Ia passando o som e pensando, exausta: “putz, é grande, né?” Preocupação que, no final, se mostrou infundada, uma vez que, minutos antes de o espetáculo começar, a fila na bilheteria já dava volta no quarteirão e muita gente teve que voltar para casa. Da Espanha à Alemanha, o mesmo afluxo de público se repetiu em todas as casas onde a turnê aportou. E a cantora não hesita ao atribuir tamanho sucesso também à sua presença nas redes sociais.

Com shows agendados em algumas capitais brasileiras até setembro, a curitibana cogita voltar à Europa antes do final do ano, mas com objetivos diferentes dos habituais. Na Inglaterra, ela fará um novo curso de teatro e, em Paris, uma oficina de canção francesa. “Não para escrever música em francês, mas para me divertir um pouco, limpar a cabeça”, adianta. “Também vou usar esse tempo fora para terminar as músicas. Rendo muito mais quando estou viajando.”

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Link para a edição em PDF, no site da Revista da Cultura [ = ] * Website da jornalista Adriana Paiva: www.verveweb.com.br/vervepress

Perfil : Flavio Colker

 

Revista da Cultura * Seção: Miniping. Páginas 52 a 55.
Data da publicação: Agosto de 2013 * Edição n° 73

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

 

POR UMA NARRATIVA EMOCIONADA

Fotógrafo com nome ligado à cena artística dos anos 1980 e com trabalhos na coleção permanente do MAM/SP, Flavio Colker se dedica agora a projetos que incluem a volta ao cinema e o lançamento de um livro sobre a companhia de dança de sua irmã

POR: ADRIANA PAIVA / 06/08/2013

Quando concedeu esta entrevista à Revista da Cultura, Flavio Colker estava de malas prontas para voltar do México, para onde partiu no ano passado em busca de inspiração (os retratos do artista nesta matéria foram feitos em sua casa, no Rio de Janeiro, logo após seu retorno ao Brasil). Nessa conversa, ele faz questão de deixar claro que as imagens selecionadas para o livro – com lançamento previsto para outubro e cujas fotos antecipamos nas próximas páginas – que marca os 20 anos da Cia. de Dança Deborah Colker, dirigida por sua irmã, estão entre os muitos projetos que o movem nesse momento – até o mês passado, ele esteve com um trabalho exposto no Oi Futuro Flamengo. Ainda na lista dos planos que já começam a ganhar corpo, estão um roteiro de ficção com Fausto Fawcett, parceiro das antigas, uma série para TV e um ensaio sobre máquinas, paixão que ele traz da infância. Prolixo, intenso, interessado por híbridos, o atual momento desse carioca talvez possa ser resumido em suas próprias palavras ao explicar por que a fotografia digital o arrebatou: “O importante é a gente fazer, mostrar, influenciar e ir em frente”.

A maioria das fotos presentes no livro que marca os 20 anos da Cia. de Dança Deborah Colker tem a sua assinatura. Você já declarou que a Deborah procura a imagem na dança e que suas fotografias foram importantes de várias maneiras no trabalho dela. Como, exatamente?

Ah, de uma maneira muito prática. Porque certas imagens, quando chegávamos nos teatros, nos contratantes, enfim, nas revistas que divulgavam, elas ganhavam um espaço enorme. Porque as fotos eram muito boas, sabe? Mas não vou dizer que eu sozinho fiz isso. O que consegui fazer foi com aquilo que a Deborah me deu, que eram, vamos dizer, protoimagens, cenas muito bonitas, feitas dos movimentos, da cenografia do Gringo Cardia. E tive uma inspiração enorme para fazer as fotos. Então, num nível muito prático, essas fotos foram importantes para o trabalho dela circular pelo mundo. E tem outro lado, que é o que gosto mais de falar, que é a questão das inspirações. Qual é a inspiração da Deborah no trabalho dela? No livro, ela divide isso. Ela fala que tem uma primeira fase e uma segunda fase. Na primeira, ela está se inspirando nas ações do cotidiano e transformando aquilo em dança, estilizando. Mas ela também vai buscar em outros lugares. Em Nó[espetáculo que estreou em 2005], por exemplo, ela busca inspiração nas imagens do sadomasoquismo. Acho que esse é um dos trabalhos mais importantes dela. Não à toa, é recorde de público. As imagens são muito importantes, sabe? Essa pesquisa, digamos assim, eu fazia de olhar, por exemplo, o [Robert] Mapplethorpe e como ele transforma isso [o universo sadomasoquista] em arte. Ou como o Velvet Underground transforma isso em música.

4×4 e Nó foram dois espetáculos em que você também assinou a direção com a Deborah…

E teve outros em que eu também participava e ela me deu o título de dramaturg, que recusei, porque não me preparei para ser um dramaturg. Mas trabalhava, vamos dizer, discutindo com ela a arquitetura dramática do espetáculo, onde tinha uma “barriga”, em que podia melhorar, enfim, buscando a dinâmica…

Mas no 4×4, por exemplo, que tem essa proposta de um diálogo entre dança e artes plásticas, houve uma participação maior sua?

Não. Na verdade, esse tem menos. Acho que o Nó é o espetáculo que tem mais presença minha. Porque, quando faz o 4×4, a Deborah vai procurar esses artistas que são crânios, como o Cildo [Meireles], o [coletivo] Chelpa Ferro, o Gringo [Cardia]… Caras muito inteligentes. Aí, eu saí de campo (risos). Acho que dirigir é deixar as pessoas fazerem o que elas sabem fazer melhor. Você só vai ali ver o que está faltando e ajuda.

Kid Abelha, Blitz, Barão Vermelho, Legião Urbana… Você fotografou e dirigiu os videoclipes de várias das bandas que despontaram nos anos 1980, batiam ponto no Circo Voador e tocavam direto na Fluminense FM [rádio de Niterói que tinha o rock como carro-chefe e entrou para a história sob o epíteto de ‘a Maldita’]. Como se deu seu ingresso no mercado fonográfico?

Por intuição e por causa de algumas circunstâncias. Eu precisava trabalhar. Trabalhei como assistente num estúdio e aprendi logo. Era a efervescência, era o momento, entende? A intuição da gente fica aguçada, a antena ligada. Você vê o que está acontecendo e pensa: sou o cara certo pra fazer o que tem que ser feito (risos)… Aí, quando eu já trabalhava como repórter fotográfico da Editora Abril, por acaso, tive de fazer umas fotos da Neuzinha Brizola…

Sim, a filha do Leonel Brizola [ falecida em 2011 por complicações decorrentes de uma hepatite ]. Quando ela estourou com o hit Mintchura, no início da década de 1980, o pai dela tinha acabado de ser eleito governador do Rio.

Exatamente. E a Neuzinha sacou na hora que eu sabia fazer. Tanto que, depois daquelas fotos, ela me chamou pra fazer a capa do LP dela. Logo que eu fiz essa capa, o momento do rock brasileiro aconteceu de uma hora pra outra: bum!

Você se diz uma pessoa em busca permanente de sentido no que faz. Há não muito tempo, você dava aulas de fotografia na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Lecionar é algo que já não o move mais?

Adoro ensinar! Parei pelo seguinte: as reflexões que desenvolvo nas aulas, que são bastante improvisadas, acabam influenciando muito o meu trabalho pessoal. Às vezes, tenho questões não resolvidas no meu trabalho e não quero colocar para os meus alunos. E nem quero que o falado em aula, principalmente isso, me influencie quando estou trabalhando. Eu estava sofrendo, sabe? Foi por esse motivo que dei um tempo. Porque, para mim, dar aulas é muito intenso, me realiza muito. Enfim, mas tenho que fazer minha fotografia, minhas narrativas, tenho que escrever… Essas coisas misturadas estavam provocando um impedimento no meu trabalho.

Foi diante dessa constatação que você decidiu partir para o México? Em que cidade se estabeleceu aí?

Agora, estou em Querétaro, uma cidade pequenininha. O México, para mim, foi um “ligar as turbinas”, o turbo nas imagens, sabe? Porque estou sempre dividido entre a imagem e a narrativa. Eu tinha começado a escrever no Facebook, escrever alguns ensaios sobre fotografia, a partir das aulas que dava. Mas, aí, quando vim pra cá, comecei a fotografar, fotografar muito! E a facilidade de criar imagens interessantes acontecia aqui.

Cântico, trabalho que você classifica como poema audiovisual, foi quase todo desenvolvido durante sua estada aí, não?

Aqui, fiz o trabalho que queria fazer. O Cântico,para mim, é esse dobrar a esquina, é o que quis fazer a vida inteira. Um canto de amor feito com imagens, voltado para a emoção, muito visceral e ao encontro de coisas básicas e verdadeiras. Toda a minha aproximação com o cinema, com a narrativa, foi sempre procurando a emoção.

Em que sentido esse trabalho é uma provocação ao cinema? E quais seus planos para ele?

Olha, pretendo sensibilizar as pessoas, pretendo impactar. Ainda não sei como. Nem as vias institucionais quais serão. O Cântico é uma provocação, porque fiz um híbrido da imagem com a narrativa. É um cinema, mas, veja bem, cinema é imagem em movimento. Fiz um filme no qual as imagens não têm movimento, mas montei como um filme. Usei toda a minha experiência de montagem de videoclipes, de cinema, para criar esse híbrido. Algo que você não consegue definir. Isso me interessa.

Flavio, essa sua personalidade de buscar novos caminhos e olhares é, de alguma forma, influência de sua origem judaica, uma vez que você é neto de judeus russos que se estabeleceram no Rio, no início do século 20?

Em vários sentidos. No judaísmo, a palavra é muito importante. Os judeus são um povo da palavra, não são um povo da imagem. E acho que essa necessidade que tenho de criar narrativa, de falar, de escrever, de dar aula… Isso é muito judaico, sabe? E tem também o conflito com essa condição, com a minha identidade. O fato de estar sempre insatisfeito, sempre procurando resolver as coisas no nível da cultura, no nível do trabalho intelectual. Quer dizer, resolver um conflito que não dá pra resolver de jeito nenhum. Mas, veja, embora a cultura judaica não seja uma cultura de imagem, os judeus têm uma presença muito grande no cinema norte-americano, por exemplo. Mas acho que isso se dá muito mais no aspecto de contar histórias. O judeu é um povo contador de histórias.

FIM

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Entrevista com Clarice Falcão

 

Revista da Cultura * Seção: Miniping. Páginas 44 a 46.
Data da publicação: Março de 2013 * Edição n° 68

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

MOMENTOS INCRÍVEIS

Com vídeos produzidos em esquema caseiro, a cantora, atriz e roteirista Clarice Falcão virou fenômeno de visualização no YouTube e agora se prepara para lançar seu primeiro álbum

Entrevista e texto por Adriana Paiva – Fotos: Luciana Whitaker

Contabilizando incursões diversas por áreas como cinema, teatro e TV, aos 23 anos, Clarice Falcão já se vê às voltas com a necessidade de priorizar. O que pode significar deixar um pouco de lado atividades que lhe dão grande prazer, como escrever para televisão, a fim de se dedicar a outra não menos empolgante, a música. É possível que ela mude de interesses logo ali. Mas agora a moça tem exata noção do rumo que imprime à sua carreira.

Foi assim, com foco apurado, que a filha do diretor João Falcão com a escritora e roteirista Adriana Falcão entrou em estúdio para gravar seu primeiro CD. Com 14 músicas – entre as quais cinco inéditas –, o álbum conta com colaborações luxuosas como a do violoncelista e arranjador Jaques Morelenbaum, uma experiência que, assim como outras, ela nos conta nesta entrevista.

Além de diretor (de teatro e TV) e roteirista, seu pai também compõe. Veio dele a inspiração para fazer música?

Um pouco. Mas tanto eu como meu pai, a gente não compõe com cabeça de músico. Para mim, a composição vem muito mais do que gosto de ouvir, do que penso. O principal é que nunca deixo uma música passar se acho que ela está sem ideia. Quando acho que está sem ideia, jogo tudo fora. Se a melodia ainda está esquisita, tento melhorar. Mas, em geral, dou mais valor à ideia.

Nos vídeos que estão no seu canal, no YouTube, você aparece tocando violão e ukulele. Teve aprendizado formal desses ou de outros instrumentos?

Toco para me acompanhar. Não sou uma boa instrumentista, nem nunca me chamaria para tocar violão numa banda (risos). Sei pouco de teoria musical, estudei um pouquinho de piano. Depois que comecei a me interessar de verdade por fazer música, passei a estudar, entrei numa aula de piano. Não para tocar piano perfeitamente, mas para entender um pouco de tudo.

Você namora o ator Gregório Duvivier, que é filho da cantora Olívia Byington com o músico Edgar Duvivier. Essa proximidade com gente do meio musical influiu de que maneira na sua decisão por um trabalho mais elaborado?

A Olívia é minha produtora. O fato de ela estar por perto nesse processo tem sido supervalioso para mim. Ela gravou vários discos, tem muita experiência e um ouvido muito especial. Mas eu sempre soube o que queria. Tinha um pouco de medo pelo fato de que as pessoas, em geral, acham minhas músicas engraçadas. E não queria que elas fossem vistas apenas pelo seu lado de humor, sabe?

Daí você ter se cercado de músicos experientes.

É. Queria trabalhar mais a música das canções. Mas é um equilíbrio complicado. Porque eu também não queria perder o humor, não queria que a letra sumisse. Acho que a letra é o que tenho de melhor para oferecer. Então, não quis afogar isso num mar de instrumentos. Nunca foi minha intenção. Mas acho que o que a gente fez melhorou a letra.

O Jaques Morelenbaum já tinha feito o arranjo de violoncelos para a versão da música Macaé, que também está no EP, lançado em dezembro. Como foi a experiência de gravar com ele?

Esse foi um dos momentos mais incríveis da minha vida. A gente convidou o Jaques e, quando ouviu Macaé, ele falou: “Acho que essa aí deveria ter um arranjo, eu deveria sentar e escrever”. Então a gente disse: “Claro! Leve para casa”. Ele levou e escreveu. O Jaques também é muito bom improvisando, o que ele faz na Qualquer negócio e numa música nova, em que o improviso no cello ficou lindo.

Falando em parcerias, parece ter sido bastante positivo o retorno dos seus fãs ao dueto que você fez com o músico brasiliense Tiago Iorc, interpretando Na rua, na chuva, na fazenda, do Hyldon.

Isso foi muito legal. Na verdade, foi uma coisa para o Tiago, que eu conhecia de nome e adorava. O empresário dele mandou uma mensagem dizendo que o Tiago tinha visto meu trabalho e gostado e que, como ele estava entre um álbum e outro, queria lançar algumas coisas. Então, ele resolveu fazer umas parcerias com algumas cantoras, interpretando versões. Ai eu falei: “Ótimo, vamos lá fazer”. Fizemos super-rápido e foi muito legal.

No álbum, aliás, você acabou não colocando nenhum dos covers que estão no YouTube. Por que incluir apenas músicas de sua autoria?

Amei fazer a versão com o Tiago. Mas não acho que eu seja uma intérprete tão boa a ponto de uma música merecer minha versão. Tenho um pouco de agonia com isso. Quando fiz as versões que estão na Internet, meu pensamento era: vou mudar essa música totalmente e fazer dela outra coisa, algo que nunca tenha sido feito. Até cogitei colocar Coração radiante, por exemplo, a versão que fiz do pagode [do Grupo Revelação]. Ou a que fiz para YMCA [do Village People]. Mas pensei melhor. Como passei muito tempo compondo e sem coragem de mostrar pra ninguém, tinha muita música.

Muito mais do que as 14 que entraram no CD?

Tenho 20 e poucas músicas prontas. E pensei: “Se eu encher (o CD) de músicas de outras pessoas, vou perder todas essas que sei que não vou colocar depois, porque vou ter crescido”. Aí, resolvi aproveitar as que tenho agora. A gente cresce muito fazendo música, né? Volta e meia, olho uma composição mais antiga e percebo que não me identifico mais com ela.

E shows, você já pensa a respeito?

Nossa! Penso muito em show, penso o tempo inteiro, deveria pensar menos (risos). Fico fantasiando…

E como você pensa em montar a banda que a acompanhará nessas apresentações?

O que gostaria de fazer é um meio-termo entre o que faço nos vídeos e o que fiz no CD. Não planejo chamar um Jaques Morelenbaum (risos). Também não queria fazer com 20 mil músicos, sabe? Até porque para viajar é mais fácil. O que imagino é fazer versões menores das músicas do CD e até pegar uma ou outra que seja mais difícil e dar uma viajada mesmo, repensar. Penso em ter três músicos, quatro no máximo.

Quem são os cantores e as bandas que têm frequentado seu iPod? E os compositores que a inspiram?

Cara, estou nesse mercado agora, no mercado da música, mas ouvia muita coisa antiga. Quer dizer, músicas que meus pais cantavam para eu dormir, gostavam muito e ficavam botando para tocar pela casa. Ou seja, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil… Minha mãe sempre me ninou com Chico. Então, sempre amei Chico, Caetano, enfim, essa galera que minha mãe ama.

E quem dessa nova geração de músicos brasileiros você tem ouvido?

Tem algumas pessoas na música, atualmente, que gosto muito. Tem um menino, o Tibério Azul…

Ele é do Recife, seu conterrâneo.

É verdade. E tem também uma banda de São Paulo, o Terno, fiquei apaixonada pelo trabalho deles. Tem o Silva, do Espírito Santo, ele fez uma participação no meu CD, tocou violino e fez um dueto comigo – arrasou tocando violino! E tem muito mais galera aí. Todos esses paulistas são muito legais: a Tulipa, a Tiê, o Marcelo Jeneci. Claro que já tinha ouvido falar de muitos deles. Mas, quando comecei a fuxicar, ver o que estava acontecendo, fiquei muito surpresa… Como a música brasileira está numa fase boa, como tem gente fazendo coisa legal.

FIM

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Deolinda – Entrevista

 

Portal Cronópios * Seção: World Music
Data da publicação: Março de 2011

 

Deolinda leva novos ares à música portuguesa

Entrevista e texto por Adriana Paiva

Com pouco mais de trinta anos de idade, Ana Bacalhau, Pedro da Silva Martins, Luís José Martins e Zé Pedro Leitão, os lisboetas do Deolinda, revigoram a música popular portuguesa com canções bem-humoradas e de forte crítica às políticas do primeiro-ministro José Sócrates. Depois de experimentar enorme sucesso em Portugal, a banda viaja pela Europa divulgando o segundo álbum “Dois Selos e Um Carimbo” e planeja, dia desses, vir tocar no Brasil. A seguir, entrevista com Ana Bacalhau, a voz da personagem que deu nome ao grupo:

O Deolinda é a junção de três primos e um amigo que veio a se tornar seu marido. Quando vocês começaram a tocar juntos?

Ana Bacalhau – Começámos a tocar juntos em 2005, depois de um almoço em família. Já andávamos com intenção de fazer qualquer coisa os quatro e naquele dia, proporcionou-se. Como gostámos do que ouvimos logo nesse primeiro ensaio, fomos ficando e tocando. E, agora, é o que se sabe.

Ana, você tem formação acadêmica em Linguística e Literatura. Fale-me um pouco dessa passagem das Letras à Música.

A.B. – Eu estudei Literatura e Linguística Portuguesa e Inglesa, mas o meu amor pela música falou mais alto e fiz dela a minha vida. Se, à primeira vista, a minha formação académica poderá não ter correlação imediata com a música, o facto é que por ter estudado a língua portuguesa, a interpretação textual, a importância da palavra e do texto, tenho um cuidado maior na minha abordagem aos textos das canções que canto. Tento pôr a minha voz ao serviço da mensagem. Isso é, para mim, o mais importante, respeitar a canção.

Ana canta e também compõe? Quais são as atribuições de cada um no grupo? Há planos de gravação em outros idiomas?

A.B. – Eu compus algumas canções numa banda que tive, anterior aos Deolinda, que se chamava Lupanar. Com os Deolinda, a marca autoral do Pedro (da Silva Martins) é muito forte, personalizada e de uma enorme riqueza e qualidade, pelo que, não faz sentido que a minha voz autoral, bem mais limitada que a do Pedro, se faça ouvir. O Pedro compõe a melodia e, a seguir, escreve a letra. Apresenta-nos a canção à guitarra e, imediatamente, começamos a pensar no arranjo e na interpretação. Este projecto nasceu de uma vontade em explorar a língua e música portuguesa e inscreve-se num imaginário muito português. Por isso, achamos difícil gravar numa outra língua.

Você, até recentemente, era arquivista do Ministério das Finanças. Os outros integrantes do Deolinda ainda mantêm trabalhos paralelos à atuação na banda?

A.B. – Todos nós somos músicos profissionais e todos nós tivemos outras profissões, para além da música. Agora, com a agenda de concertos que temos, é impossível manter outra actividade profissional. E também não queremos, porque fazemos aquilo de que gostamos e conseguimos viver disso.

Vocês costumam rechaçar o rótulo de fadistas. Qual seria, então, a relação do Deolinda com o fado, gênero musical que, poderia-se dizer, está para Portugal como o samba está para o Brasil?

A.B. – O fado é uma influência clara e muito forte, nas temáticas de amores não-correspondidos e num universo castiço que é retratado em algumas canções. No entanto, a nossa música não é, na forma ou na essência, fado. Posicionamo-nos na música popular portuguesa, onde se inscrevem os cantautores, o folclore, a canção tradicional. Se, com o nosso trabalho, pudermos chamar a atenção para as formas tradicionais da nossa música e pôr aqueles que nos ouvem atentos ao cancioneiro português, que é riquíssimo e vastíssimo, então ficamos muito felizes.

Fale-me, por favor, quem, entre seus conterrâneos, são os músicos que influenciam ou influenciaram o Deolinda.

A.B. – Zeca Afonso, António Variações, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Camané, Hermínia Silva, Humanos, Clã, Madredeus, Gaiteiros de Lisboa … São muitos e todos eles extraordinários.

O Deolinda tem fortes componentes histriônicos e teatrais, presentes tanto nas canções quanto nas performances da banda. Por que o grupo ganhou o nome dessa personagem do subúrbio lisboeta? Quem é, afinal, essa rapariga de nome Deolinda?

A.B. – A Deolinda representa-nos, de certa forma. Representa o universo musical de quatro músicos que, quando se juntam, fazem aquelas canções, com aquele som, com aquelas características. Costumamos dizer que se o Fernando Pessoa tinha vários heterónimos, nós temos um heterónimo partilhado por quatro pessoas. A Deolinda é uma senhora dos seus 30/40 anos, solteira e observadora. É das suas observações que nascem as nossas canções.

Entre suas influências, você cita pelo menos duas cantoras brasileiras: Elis Regina e Mônica Salmaso. Até que ponto, você diria, nossa música influencia o trabalho do Deolinda? Quem são os outros músicos brasileiros cujo trabalho a banda acompanha?

A.B. – A música brasileira é pedra basilar para qualquer músico que trabalhe a música popular. A forma como se canta o português do Brasil, trazendo para a música o discurso corrente sem com isso sacrificar a beleza poética, cantando com subtileza, sagacidade e emoção, tudo isso faz com que seja obrigatório ouvir e conhecer a música popular brasileira. Para além de Elis Regina e Mônica Salmaso, conhecemos e acompanhamos o trabalho dos incontornáveis Caetano Veloso, Chico Buarque, João Gilberto, Marisa Monte, sem esquecer os grandes Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Los Hermanos (acompanhando ainda o extraordinário trabalho de Rodrigo Amarante, nos Little Joy).

Rodrigo Leão, um dos fundadores do Madredeus, já gravou com Rosa Passos e Adriana Calcanhotto, duas conhecidas cantoras brasileiras. Há conversações entre o Deolinda e músicos daqui, no sentido de formação de parcerias, de colaborações?

A.B. – Neste momento, não temos nenhuma colaboração planeada com músicos brasileiros, no entanto, pela afinidade musical que temos com o Brasil, caso se proporcione, teremos muito gosto em trabalhar em conjunto com músicos que admiramos.

O Deolinda planeja apresentações no Brasil? Tem conhecimento de como anda a receptividade de sua música junto ao público brasileiro?

A.B. – Ainda não conseguimos ir aí tocar, mas queremos muito, até porque recebemos muitas mensagens do Brasil com fãs a pedir-nos que aí toquemos. Esperamos estrear-nos no Brasil este ano ainda, ou no próximo. Temos muitas expectativas relativamente ao público brasileiro e à forma como a nossa música pode ser acolhida no país.

Há quem diga que a canção “Parva que Sou” é uma resposta à politica econômica de José Socrates, no que essa teria limitado o acesso dos jovens portugueses ao mercado de trabalho. A música encontrou ótima acolhida por parte desse público, vindo a tornar-se uma espécie de hino da nova geração. A letra exprime o que vocês pensam sobre a juventude portuguesa?

A.B. – O tema “Parva que Sou” não é uma resposta a ninguém, é a constatação de uma realidade que alguns de nós vivemos pessoalmente e que vemos os nossos amigos viver. O impacto que teve junto das pessoas ajudou a trazer para a discussão pública um problema que, viemos a descobrir, não é só português. Tivemos espanhóis, franceses, ingleses e, até, brasileiros a escrever-nos e a dizer que também eles se reviam de alguma forma naquelas palavras. É um problema que, por afligir muita gente, de todos os quadrantes políticos e classes sociais, deverá ser debatido de forma séria, isenta e unida, com rigor e vontade de encontrar soluções válidas.

O Deolinda sempre teve preocupação em fazer canções com mensagens políticas e sociais?

A.B. – Sempre procurámos retratar nas nossas canções a realidade que conhecemos e falar um pouco das nossas idiossincrasias, com um olhar crítico e com alguma boa disposição à mistura. Para além de pretendermos deixar o público com um sorriso de prazer ao ouvir as nossas canções, é óptimo sentir que deixamos o público, também, a pensar.

Canção ao Lado” foi muito bem recebido pela crítica. E como tem sido a aceitação a esse segundo álbum do grupo? Em que aspectos “Dois Selos e um Carimbo” se diferencia do álbum de estreia ?

A.B. – O “Dois selos e um carimbo” já atingiu o galardão de platina e continua nas tabelas dos mais vendidos, o que nos deixa muito felizes. Mais felizes ainda ficamos ao ver que as pessoas sabem as canções de cor, nos nossos concertos. Este segundo trabalho é talvez mais maduro, reflectido e resultado de dois anos intensos de estrada, em que aprendemos muito, aperfeiçoámo-nos, conhecemos países e culturas novas.

Que papel redes sociais como Twitter e Facebook desempenham na divulgação da banda ?

A.B. – As redes sociais permitem um contacto mais directo do público com os seus artistas preferidos. Isso é importante, não só para quem quer falar em discurso directo com os músicos que admira, mas também para os músicos, que têm ferramentas que lhes permitem a divulgação do seu trabalho de forma eficaz e a baixos custos.

* (Nota: optou-se aqui por manter a grafia originalmente utilizada pela vocalista).

 

FIM

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