Entrevista: Domingos Oliveira

Revista da Cultura * Seção: Entrevista. Páginas 14 a 21

Data da publicação: Janeiro de 2015 * Edição n° 90

Entrevista com Domingos Oliveira

 

ONDE MAIS HOUVER POESIA

Entrevista e texto por Adriana Paiva

Quantos Domingos podem se revelar em uma única entrevista? Gire o caleidoscópio e espere. Difícil será escolher com qual deles entabular a próxima conversa. Se com o realizador profícuo e fervilhante de ideias que, no auge da forma física, era capaz de estar envolvido em oito produções ao mesmo tempo; com o amigo fiel dos inúmeros amigos; ou, ainda, com o homem que, diuturnamente, encontra novos motivos para se encantar pela mulher com quem vive há 35 anos.
Certo mesmo é que todos os Domingos têm ótimas histórias para contar. Algumas delas presentes na recém-lançada autobiografia “Domingos Oliveira – Vida minha”. Aos 78 anos de idade e com 50 de carreira, era de esperar que o cineasta, ator e dramaturgo tivesse sido testemunha e partícipe de alguns dos mais importantes acontecimentos da cena artística nacional. Do nascimento da teledramaturgia ao despontar dos maiores atores do país, suas vivências resultam em passagens narradas com graça e minúcias. Também não ficaram de fora as recordações familiares, as paixões precoces, tampouco os momentos felizes e, às vezes tormentosos, de seus cinco casamentos – um dos quais responsável por trazer ao mundo uma das grandes personagens femininas de sua vida, a atriz Maria Mariana. “Quis ter mais filhos, mas, por circunstâncias várias, não pude. A vida quis assim. Fui levado para um caminho, levado para outro. Não me incomodo com isso, não. Maria Mariana me deu quatro netos!”

Apesar de uma decepção aqui, outro travo ali – às vezes, decorrente do Parkinson, doença com a qual foi diagnosticado em 1998 –, o homem segue cheio de planos. Além de um longa-metragem pronto para ser rodado, um romance no prelo e outro sendo escrito, Domingos também planeja levar aos palcos o que, segundo ele, talvez seja o mais audacioso plano jamais aventado, um stand-up contando a sua vida. Para falar de suas memórias e sobre o que tem pensado ultimamente, foi que ele recebeu a Revista da Cultura em seu apartamento no Leblon.

Logo no início de Domingos Oliveira – Vida minha, você se pergunta se deveria contar as passagens de sua vida seguindo uma cronologia. E conclui que não, que seria um desperdício. Como suas memórias foram sendo registradas?

Quando você está escrevendo um livro de memórias, se abre a esse jorrar de recordações imprevistas. Escrevi minhas memórias de uma forma requintadíssima. Sou muito exigente, porque fiz análise. De modo que, quando você reúne todos esses fatos, não é possível deixar de ver que se forma um desenho que é você. E, às vezes, você gosta; às vezes, não…

Algumas passagens da autobiografia também aparecem entremeadas às entrevistas que a atriz Maria Ribeiro gravou com você para o documentário que ela dirigiu (Domingos, lançado em 2011). Ela teve acesso a alguns de seus diários?

Não especialmente. Esses diários sempre foram para mim um modo de eu me entender, lembrar o que fiz nos últimos 15 dias… Mas Maria começou há muito tempo, pegando autorizações no teatro, etc. E a minha vida, ah, minha vida é um livro aberto. Para dizer um lugar-comum adequado…

Vários de seus filmes nasceram de peças teatrais. Infância, seu mais recente longa-metragem, é uma adaptação de “Do fundo do lago escuro”, que estreou em 1980. Por que transpor teatro para o cinema?


O teatro sempre me tocou muito. É uma relação até mais estreita do que parece à primeira vista. Não sou um homem de cinema, talvez. Sou um homem de teatro, minha formação é teatral. Stanislavskiana pura. Não sei dizer onde começa o amor à arte. Mas a arte do ator supera em grandeza todas as outras. Para mim, é mais ou menos a mesma coisa. Todo filme bom tem bases teatrais.

E como você vê o cinema feito atualmente no Brasil?

Não gosto de falar da produção cinematográfica brasileira. Porque ela não está errada aqui ou ali. Ela está toda errada. Está tudo errado! Há uma política voltada a impedir que bons filmes sejam feitos. E, falando do filme que fiz, o “Infância”, que tem excelentes qualidades – tenho certeza de que não estou maluco –, não encontro exibição, não encontro distribuição. As regras do mercado não permitem. Se você faz um filme que tem ótimo roteiro, ótimas atrizes, ótimos atores, um conteúdo digno de ser dito, mas não encontra exibição, é porque algo vai muito mal. É preciso fazer esse balanço entre filme comercial, que pode existir, que deve existir, mas que deve sustentar o filme de arte, digamos assim. Mas também detesto essa expressão, “filme de arte”. Tenho outra melhor: filme útil. Este tem que ser útil para quem o vê. Se o filme não me dá munição para lutar a luta da vida, ele não é bom. A arte também existe para as pessoas viverem melhor. E cada vez a gente está mais distante disso. Não se pode entregar o cinema ao mercado. Do mesmo modo que você não pode entregar a saúde pública e a educação à política…

Infância é fruto também dos princípios do “B.O.A.A.” (Baixo Orçamento e Alto Astral), o polêmico manifesto cunhado por você, em 2005, em defesa da produção de filmes com poucos recursos?

Sempre gostei muito de trabalhar com baixo orçamento. Sou filho dessa geração. Minha influência cinematográfica é, primeiro do neorrealismo, depois da Nouvelle Vague, toda uma escola de baixo orçamento. Então, tenho essa tendência. O dinheiro, às vezes, atrapalha. Às vezes, não! Sempre atrapalha. Porque o dinheiro compromete, mistura outros valores com valores artísticos. Mas quase me bateram quando eu lancei esse negócio do B.O.A.A..

Mas, desde que foi lançado, em meados de 2014, Infância vem fazendo boa carreira nos festivais, recebeu vários prêmios…

Ele tem sido visto como um bom filme. Mas é mau negócio para a distribuidora distribuir qualquer filme. O filme é excelente! Tem Fernanda Montenegro! Não é bom negócio para a distribuidora gastar, com lançamento, uma verba considerável que ela não vai ter de volta. Não gosto de falar sobre esse assunto, que é muito chato. Mas vi um filme outro dia, Relatos selvagens. Um filme sensacional feito na Argentina, um país que está em plena decadência, que tem problemas seriíssimos, mas que consegue ter um cinema fulgurante. Por quê? Porque tem uma boa legislação. Eu não sei dizer como funciona o cinema argentino, em detalhes. Em linhas gerais, é assim: se você fizer um filme bom, se a crítica for boa, se o público for ver (todo mundo sabe, até uma criança sabe o que é um filme bom), se você fizer um filme útil para a sociedade em que você vive, mais cedo ou mais tarde, por um desses mecanismos de financiamento, o governo acaba devolvendo o dinheiro, a verba que você tirou do bolso. Você não tem mais chance de ficar no prejuízo. Em compensação, o governo é sócio dos filmes e ganha se o filme for bom. Com essa pequena estratégia, porém justa – e o Brasil já esteve perto disso –, você pode arriscar e fazer bons filmes, porque perder você não vai perder.

Depois de um período bastante produtivo na Rede Globo, ainda que com contratações intermitentes, em 1993, você atravessou a porta da emissora resolvido a não mais voltar. Você já explicou a decisão alegando cansaço de certa tendência das grandes redes de serem autocentradas e barrarem tudo o que pareça muito autoral. Continua sendo assim?

Não, não continua sendo assim. Está muito pior! Agora, não tem vez, não há lugar para o autor. Eu detesto falar da TV e do cinema, porque preciso desses empregos, de produzir coisas com as quais eu ganhe um dinheirinho. De modo que falo mal e eles ficam danados comigo e não me contratam. Mas eu estava falando, então continuo: a televisão está cada vez pior para o autor. Cada vez ela acha que necessita menos da autoralidade. Melhor dizendo: que ela necessita menos da poesia. Mas adoro a TV Globo. Se pudesse, passava as tardes naqueles corredores, fazendo coisas em uma sala e outra, conforme fiz durante anos. A gente da TV Globo é gente muito boa…

E os programas “Todos os homens do mundo” e “Swing”, que foram ao ar pelo Canal Brasil e você produzia e apresentava em parceria com sua mulher, a atriz Priscilla Rozenbaum?

Todos os homens do mundo era o que eu gostava mais de fazer. Mas fomos devidamente despedidos depois de alguns anos. Há algo no artista de que a televisão não gosta. A regra da televisão é simples: se você é ruim, eles te botam pra fora. Se você é bom, eles te aumentam o salário. Mas, se você é ótimo, eles cortam a sua cabeça…

A que você atribui isso?

Não sou apto a fazer psicanálise da televisão. Mas inveja não é má hipótese. A poesia do mundo incomoda, porque ela conduz à falta de administração. O absurdo da condição humana é encontrado toda vez que você caminha pelos caminhos da arte. E, na televisão, eles não estão interessados nisso. A TV é um business, um ótimo business. Já fui despedido por um senhor muito meu amigo. Ele me chamou lá em cima, no oitavo andar, e disse: “Domingos, você não vai poder dirigir este programa porque você é autoral demais. Você escreve bem, dirige bem, entrega o trabalho no prazo. Mas vamos chamar outro diretor para dirigir sua obra para diminuir sua autoralidade, porque esse é o único defeito que você tem…”

Apesar de tudo, você reconhece que a televisão é uma escola imbatível. Ensina toda a parte técnica e também a lidar com prazos, orçamentos…

É uma superescola! Mas ali tem muita coisa errada. Outro dia, vi o último capítulo de “O rebu”. Os cenários eram ótimos, os diálogos eram ótimos, as câmeras e a luz também eram muito boas… De dar orgulho. Dá orgulho ter esse nível de televisão brasileira. Principalmente pelos atores. A gente olhava e era uma plêiade, para usar o termo certo. Os melhores atores do Brasil, em quantidade enorme. E, no entanto, era ruim. No conjunto, era ruim… É um pouco como se a TV estivesse dando ao povo o que ele quer. E as pessoas que trabalham nisso são martirizadas, porque têm que dar ao público o que ele precisa, mas ele não sabe o que quer. A arte pode ser muito útil socialmente. Mas há essa falta de compreensão do papel social da arte…

E o teatro tem lhe sido um patrão muito mais generoso?

Sempre tentei fazer um teatro comercial de arte. No teatro, a arte ainda dava dinheiro. Atualmente, está mais difícil. As peças não têm mais a menor importância. Não acontecem, não repercutem. Se eu perguntar que boas peças você viu, recentemente… Eu queria ver o Juca de Oliveira, com o “Rei Lear”, e tinha acabado… Mas o teatro é o último reduto da inteligência. E como ele pode ser feito sem dinheiro, não depende tanto da verba, é o lugar para onde vão os astros da imaginação, os poetas. Gosto muito do teatro. Meu próximo projeto é para teatro.

E você pode nos adiantar algo?

Posso. Já fiz muita coisa, tenho uma obra numerosa, mas preciso trabalhar. Queria fazer alguma coisa que fechasse esse ciclo. Não que eu tenha encerrado, absolutamente! A impressão que tenho é que vou morrer aos 111. Eu sou tão apaixonado pela vida que não vai ser fácil me tirar daqui. Mas pensei fazer em seguida o plano mais audacioso, mais louco, mais impossível que eu puder fazer. E como minha condição física não é muito boa – tenho uma doencinha sem a menor importância, mas que às vezes me deixa enfraquecido –, a prática do teatro não é segura para mim. O teatro precisa de um corpo saudável, muito trabalhado. Mas talvez faça um stand-up e entre em cartaz em janeiro ou fevereiro, quando ficar pronto. Eu sozinho no palco, contando minha vida, um stand-up chamado “Vida minha”, adaptado do livro…

Além da volta ao teatro, quais outros planos você tem para 2015?

Estou muito apaixonado pela prosa. Depois da biografia, escrevi um romance; está na mão dos editores. O título é “Antônio”. Gostaria que tivesse o subtítulo O primeiro dia da morte de um homem. E já estou escrevendo outro! Sempre trabalhei muito e agora estou contentíssimo porque saiu o financiamento para fazer meu novo filme, “Apartamento 716”, sobre um apartamento que eu tinha quando era jovem, boêmio…

Voltando no tempo e a um ponto em que sua vocação para a escrita ganhava corpo, você tinha vinte e poucos anos, terminava o curso de Engenharia e vivia uma imensa turbulência em seu primeiro casamento. A análise também o ajudou a lidar com toda aquela angústia?

Eu sempre pirei… Enlouqueci com as separações, o fim dos casamentos. A primeira vez em que estilhacei a minha personalidade por causa do amor foi no fim do meu primeiro casamento, quando comecei a beber muito. Bebia dois dias e dormia um. Nessa fase, isso começou realmente a me prejudicar. E decidi me enriquecer com ela. Comecei a fazer análise e fiz durante anos com um cara que até hoje não sei se era ou não casado… Naquele tempo isso era moda: deitar no divã de costas. Nós tivemos um processo muito bonito. Há várias invenções modernas que um homem deve experimentar. A psicanálise é uma delas. Quando entrei para fazer análise, eu era um garoto boêmio, poeta, mas angustiado. A análise me fez muito bem. Limitado como tudo é limitado, mas gosto de análise.

E continua a fazer?

Não. O último analista que tive era um chinês que era ao mesmo tempo um jesuíta e um biólogo, era muito misterioso e me ouvia muito bem. Depois, não quis mais fazer. Não precisei mais fazer. Mas sou amigo de excelentes psicanalistas. De modo que converso com eles…

Muita gente diz que o filme “Todas as mulheres do mundo” (1966) foi sua cartada definitiva no sentido de reconquistar Leila Diniz. O processo deste longa o ajudou a superar a separação?

Resolveu. O amor com a Leila foi como outro amor qualquer, abençoado por Deus como são todos os amores. A paixão é o Himalaia de Deus. E a gente, quando é jovem, está muito mais apto a viver esse sentimento. Sempre dizem que tudo é sexo. Mas a paixão não, a paixão não é sexo. A paixão é loucura. Eu adorava a Leila, adoro até hoje. Tenho saudades nítidas! Gostaria muito que ela estivesse aqui. Foi um amor jovem, bonito pra caramba! Durou uns três anos.

Você também questiona o mito. Como alguém que não tinha atrás de si toda uma indústria cinematográfica se torna o poderoso símbolo sexual que Leila Diniz se tornou?

É. E esse é um dos capítulos de que mais gosto na autobiografia. De alguma forma, o amor que a gente bota no mundo fica no mundo. A Leila era uma simpaticíssima revolucionária e amava muito as pessoas. Ela deixou isso por aí, através da revolução que ela fez por intuição, sem planejamento.

E você fecha o capítulo sobre Leila Diniz dizendo que foi preciso pesquisar para escrevê-lo, já que transcorreram mais de 50 anos desde o primeiro encontro de vocês. Você leu, a propósito, a biografia “Leila Diniz – Uma revolução na praia”?

Nunca li nenhuma biografia da Leila, nem vi nenhum filme sobre ela. Quem conheceu bem o biografado sabe que biografias são recortes. Recortes pobres. Mesmo o filme da Maria sobre mim é um recorte pobre. O meu livro, o “Vida minha”, é um recorte pobre da minha pessoa. De modo que eu prefiro não ver.

O longa “Separações” (2002) também teve essa virtude curativa, pelo que você conta no capítulo dedicado à Priscilla, sua atual companheira…

Fiquei um ano inteiro separado dela. Depois, ela voltou. Queria muito que ela voltasse e ela voltou. Os homens são assim, provocam até que a mulher resolve ir embora. “Separações” é muito próximo da nossa vivência, coberto de colorido e com uma forte camada de humor! Nós sempre trabalhamos muito juntos. Agora, menos. Mas estamos juntos há 35 anos! E parece que foi ontem. Há 35 anos, quero me separar da Priscilla e ela de mim (risos). Mas a gente não consegue. A Priscilla é uma gracinha, uma pessoa séria, ética, fiel, leal, uma boa atriz… Tenho por ela, frequentemente, encantos de juventude. Mas a gente briga também. Agora, que estou mais velho, é difícil de me relacionar… A relação do homem com a mulher mais nova é uma relação maravilhosa. Talvez, a relação ideal. Mas é preciso sabedoria para carregar. O bom da vida é isso: se desafiar. Pensei que fosse um homem experimentado, pensei que fosse um homem vivido. Hoje, vejo que não. Vivi muitas situações e, com a maturidade, vi o que passei. Mas a velhice e a doença – por que não dizê-lo, apesar de não ser nada grave –, trazem situações novas que você não tem parâmetros para resolver. Isso está sendo para mim delicioso, descobrir novas soluções para novos problemas. Falando assim, parece um slogan da prefeitura quando começam as obras (risos)…

Ou prova de que você já consegue enxergar a situação com aquele bom humor tipicamente seu. Depois de ser diagnosticado com Parkinson, em 1998, você evitou, durante muito tempo, falar publicamente sobre a doença…

Ninguém gosta de falar de velho e de pessoas doentes. O preconceito contra o velho – eu nem falo da doença – é enorme! E precisa ser estudado. Outro dia, me dizia o Aderbal (Freire-Filho), com uma aguda percepção, se eu já tinha reparado como aumentou o preconceito contra os velhos namorarem mocinhas. Atualmente, isso é uma coisa indecente. Isso sempre houve na humanidade. Mas, atualmente, é muito feio. No mundo tem muito preconceito contra o velho. As pessoas odeiam olhar para a face da morte! E o velho representa isso de alguma forma.

Já você, ultimamente, tem refletido bastante sobre esses assuntos…

A velhice é uma coisa muito interessante, é um abacaxi que você faz do seu corpo. Ela cria enigmas dificílimos de resolver e, portanto, interessantíssimos. Um novo tabuleiro de xadrez, que é visto pelos outros. Porque você nunca se sente velho, não há essa possibilidade. Por dentro, eu sou um garoto. O chato é quando a velhice vai te tirando possibilidades. Por exemplo, não posso mais convidar você para dar uma volta no quarteirão depois do almoço. Tenho um problema na perna e ela me cansa. Então, você vai limitando os programas. É um esquema de grande desafio. Um grande desafio holístico, que é transformar a parte que te ficou no todo. E isso é um trabalho artístico (risos), digno de um artista. O medo da morte é um desafio difícil, mas passível de ser vencido. Já o amor, ele ultrapassa toda e qualquer regra. Todo o pensamento sobrenatural que você possa ter sobre ele. O amor não tem nenhuma explicação; ele é a essência do homem mesmo. Quem vive ama. Quem ama vive.

FIM

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Perfil : Thaís Gulin

 

Revista da Cultura * Seção: Música. Páginas : 48 a 50
Data da publicação: Julho/2014 * Edição n° 84

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

ENTRE O NINHO E A ESTRADA

Reportagem e texto por Adriana Paiva

 

Após lançar dois álbuns e um single com excelente acolhida do público e da crítica, a curitibana Thaís Gulin concentra agora energias na criação de canções de seu terceiro trabalho e vive um processo bastante particular de silêncio e recolhimento

Ao descobrir-se mais introvertida do que acreditava, Thaís Gulin não sente culpa por se isolar. E diz entender que essa não é uma necessidade nova, mas que se insinuava desde a época em que lançou seus dois primeiros álbuns, embora tenha se acentuado bastante de um ano para cá. “No primeiro disco foi assim também, embora tenha sido o processo menos calado. Mas, no terceiro, isso está ainda mais forte que no segundo”, diz. “Quase não saio e acho que vou ficar cada vez mais quieta.”

Foi em meio a essas reflexões que a artista concluiu que não fazia mais sentido voltar esforços à produção do DVD que reuniria os trabalhos lançados até aqui, algo que ainda estava em seus planos no ano passado. O hiato entre o disco de estreia Thaís Gulin, de 2007, e ôÔÔôôÔôÔ, de 2011, deu margem a uma urgência criativa e também a um reajuste de curso. “Normalmente, o DVD é lançado logo em seguida ao CD. Acho que não sabia disso antes”, justifica. “Estou aprendendo tudo na prática: o tempo das coisas, o tempo do mercado.”

Até o dia em que Thaís concedeu esta entrevista, em seu apartamento, na Gávea, eram cinco as canções prontas. Todas com letra e música de sua autoria. O que não significa que, para esse futuro álbum, ela descarte a possibilidade de parcerias. Alguns convites já foram feitos e a ideia é, inclusive, repetir colaborações experimentadas nos trabalhos anteriores, como a com o carioca Rodrigo Bittencourt. Outra parceria já divulgada é com o músico pernambucano China. “Eles mandaram músicas lindas. Mas aí entrei nesse processo de ficar muito, muito quieta, sabe?”

NO RIO E PELO MUNDO

Thaís é capaz de discorrer com igual fluência tanto sobre as maravilhas quanto sobre as mazelas do Rio de Janeiro, cidade homenageada em seu segundo disco. Mas ela, que já morou na França, na Bélgica e na Inglaterra, diz não se conceber mais vivendo em outro lugar que não aqui. O sotaque de sua Curitiba natal e a pele muito alva desfazem, no entanto, qualquer possibilidade de a artista ter assumido a imagem típica da garota carioca ao longo dos 11 anos na cidade. No Rio, a cantora continua não sendo dada a frequentar praias. E já não era na época em que morava no Leblon, a poucos metros do mar. “Eu era mais bronzeada quando morava em Curitiba”, diz, sorrindo. E essa, ela assegura, não foi uma mudança que tenha ocorrido em função do assédio dos paparazzi. Observado, sobretudo, após o namoro com Chico Buarque, iniciado em 2009. Desse assunto, aliás, Thaís continua se esquivando com a mesma veemência de sempre. Mas não sem alguma dose de humor. Tendo sido fotografada ao lado do cantor em diversas ocasiões, é às gargalhadas que ela diz não saber se algum paparazzo também chegou a fotografá-la em uma de suas raras incursões pelas praias do Rio.

Na cidade, a cantora estabeleceu uma rotina cujo foco principal está em compor para o próximo disco. E uma das atividades que lhe têm sido fundamentais nesse processo é a meditação transcendental. “Já faço há seis anos. Acordo, medito, tomo um café e começo a trabalhar”, conta. “Isso abre um canal e você fica muito em contato consigo mesma. É maravilhoso!” Outro hábito diligentemente cultivado é o da leitura. No momento, Thaís mergulha em sugestões bibliográficas do músico Jorge Mautner, a quem ela recebeu como convidado na série de shows que realizou, em maio passado, na Caixa Cultural Rio (participação que volta a se repetir na Caixa Cultural Brasília, nos dias 24 e 25 deste mês). Interlocutor frequente da artista há algum tempo, Mautner indicou-lhe a leitura de China tropical, reunião de artigos de Gilberto Freyre sobre a influência do Oriente na cultura brasileira, e os três volumes de História das crenças e das ideias religiosas, do romeno Mircea Eliade.

Na esteira de um intercâmbio tão profícuo, é bastante provável que o próximo disco também venha a ter algo da lavra do amigo. “O Mautner é incrível. Ele é sabido, mas também é solto e muito livre; um poeta”, elogia, entregando em seguida: “Combinamos de fazer uma música juntos”.

HÁBITOS E CRENÇAS

Embora religiões frequentem o universo de interesses da cantora, ela diz não professar nenhuma doutrina em especial. Ainda antes de completar 20 anos e concluir a graduação em Administração de Empresas, na PUC-PR, Thaís chegou a pensar em cursar Teologia. Mas como seu interesse era, sobretudo, conhecer outros costumes e crenças, alguém na universidade sugeriu-lhe que talvez fosse mais apropriado estudar Sociologia. Desde então, certa busca por sentido, nos pequenos e grandes fatos da vida, a tem movido. “Quando viajei para a Tailândia, dois anos atrás, estive em vários templos. Acho tudo muito bonito e a energia é diferente. Como é lindo ter esse convento aqui perto [de casa] ou o Candomblé, que já fui ver algumas vezes. Mas não que eu tenha um credo específico.”

Nessa fase de energias voltadas à criação e de sensibilidade especialmente aguçada, outro hábito que Thaís faz questão de manter é o de deitar com um caderninho ao lado da cama. Na verdade, o método, trazido da época em que trabalhou com o diretor Augusto Boal, passou por adaptações depois que ela teve seguidas noites de sono comprometidas. “Eu ficava sempre ligada e aquilo me deu muita insônia.” Mas a cantora encontrou alternativas para registrar as ideias que afluem enquanto ainda está na cama. “Tenho sonhado muito com música”, revela. “Às vezes, sonho com uma melodia, aí, levanto e gravo no celular. Dia desses, no aparelho em que fui gravar, a memória estava cheia. Precisava voltar a dormir, mas, antes, queria registrar aquela ideia. Aí, levantei e gravei no GarageBand [software da Apple]. Depois, descobri que não tinha gravado nada.”

Algo que se infere logo nos primeiros minutos de uma conversa com a cantora é o quanto tecnologia e internet estão presentes no seu dia a dia. Duas das redes sociais em que ela tem sido mais assídua, ultimamente, são o Facebook e o Instagram. Foi acessando este último, a propósito, que ela descobriu o mural grafitado que seria um dos cenários das fotografias que ilustram esta matéria – não tivesse a arte recebido, na véspera, uma imprevista camada de tinta branca.

Para ela, a rede, além de eliminar a necessidade de o artista estar em tantos lugares, tem funcionado como um eficiente canal para divulgação de seu trabalho, aqui e no exterior. Ela corrobora a impressão com o exemplo de show feito, em outubro passado, na Casa de América, em Madri. Assim que chegou ao teatro, Thaís, que não tem disco lançado na Espanha, diz ter ficado imediatamente apreensiva frente ao tamanho do lugar. “A gente vinha de shows em um país por dia e não tinha parada para descanso. Ia passando o som e pensando, exausta: “putz, é grande, né?” Preocupação que, no final, se mostrou infundada, uma vez que, minutos antes de o espetáculo começar, a fila na bilheteria já dava volta no quarteirão e muita gente teve que voltar para casa. Da Espanha à Alemanha, o mesmo afluxo de público se repetiu em todas as casas onde a turnê aportou. E a cantora não hesita ao atribuir tamanho sucesso também à sua presença nas redes sociais.

Com shows agendados em algumas capitais brasileiras até setembro, a curitibana cogita voltar à Europa antes do final do ano, mas com objetivos diferentes dos habituais. Na Inglaterra, ela fará um novo curso de teatro e, em Paris, uma oficina de canção francesa. “Não para escrever música em francês, mas para me divertir um pouco, limpar a cabeça”, adianta. “Também vou usar esse tempo fora para terminar as músicas. Rendo muito mais quando estou viajando.”

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Mais Náufragos

 

Revista da Cultura * Seção: Cinema. Páginas 48 a 50.
Data da publicação: Junho de 2013 * Edição n° 71

Documentário do uruguaio Guillermo Planel

 

 

Estas veias que não fecham

Documentário do uruguaio Guillermo Planel propõe discussão ampliada sobre direitos humanos na América Latina

POR: ADRIANA PAIVA / 06/06/2013


Mais náufragos que navegantes, quarto documentário do diretor Guillermo Planel, fez recentemente sua première no teatro Oi Casa Grande com sala cheia. Não há exagero em afirmar que boa parte do público que rumou para o shopping do Leblon, no Rio de Janeiro, em uma segunda-feira, o fez por especial interesse no tema em torno do qual gira o filme: direitos humanos. Ao observador mais atento não escapará o fato de que, há tempos, o assunto não frequentava rodas de conversa e noticiários, como tem ocorrido de um ano para cá. Por um lado, pelas informações vindas à tona desde que foi instaurada a Comissão Nacional da Verdade, em maio de 2012. Por outro, graças à figura polêmica e homofóbica de Marco Feliciano, deputado do Partido Social Cristão (PSC) de São Paulo, que, no início de março, assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Mais náufragos é o primeiro filme do cineasta a não ter o assunto fotojornalismo como carro-chefe e inaugura um novo ciclo na carreira deste uruguaio de 52 anos, que veio com a família para o Rio de Janeiro ainda criança, no início da década de 1970.

JORNALISTAS E VIOLÊNCIA

O título do documentário vem de uma passagem do livro As veias abertas da América Latina (1971), de seu conterrâneo, o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Mas, segundo Planel, a ideia para sua realização começou a ganhar contornos mesmo a partir de uma provocação. Em 2009, ele apresentava o seu premiado Abaixando a máquina – Ética e dor no fotojornalismo carioca (lançado em 2007) em um festival de cinema sobre direitos humanos que acontecia na capital paraguaia, Assunção. No debate que se seguiu à exibição do filme, enquanto falava sobre os riscos envolvidos no trabalho de repórteres fotográficos que cobrem conflitos urbanos, alguém na plateia o interpelou. Era um militante ligado a movimentos sociais que, em tom bastante inflamado, dizia acreditar que a maneira como o fotojornalismo retrata a violência só contribui para fazê-la aumentar. O diretor não pestanejou ao retrucar: “Mas para nós, que moramos no Rio de Janeiro, para nós, que somos jornalistas e trabalhamos nessa área de fotografia e audiovisual, e, principalmente, para quem mora em comunidades carentes, a segurança pública é um dos quesitos mais básicos dos direitos humanos”. Uma das discussões levantadas pelo filme Abaixando a máquina é, justamente, sobre o quão mais desprotegidos pelo aparato do estado encontravam-se os cidadãos cariocas naquela época, imediatamente anterior à instalação das primeiras UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) nas principais favelas da cidade.

Diante da argumentação do documentarista, o militante paraguaio respondeu de volta, justificando que, no Paraguai, a questão dos direitos humanos é mais frequentemente discutida pela ótica do “campesino”, isto é, dos trabalhadores rurais, daqueles que têm pouco ou nenhum direito sobre as terras onde vivem. Mas a “batalha” não terminou por ali. “O cara continuava a achar absurdo o que eu estava falando”, relembra Planel, que, depois de muito argumentar, não viu outra saída senão dar o debate por encerrado. Eu disse: ‘Tudo bem, cada um tem o seu ponto de vista’. Mas, a partir disso, fiquei com a indignação dele na cabeça.”

O assunto ainda ecoou por muito tempo nos pensamentos do diretor. Que interessante seria, ele passou a imaginar, empreender uma jornada pela América Latina a fim de mostrar como cada povo e cada setor da sociedade elegem aspectos diferentes dos direitos humanos como os mais vitais para eles. Menos de um ano transcorreu entre os devaneios e a decisão de, finalmente, cair na estrada. Apesar de ter cogitado angariar recursos para a produção pelas vias habituais, Planel iniciou-a com dinheiro do próprio bolso. E foi o que ele fez questão de frisar logo na abertura do documentário: “Este filme não contou com nenhum patrocínio, de empresa pública ou privada, nacional ou estrangeira”.

Na Argentina, no Chile, no Uruguai, nos oito países para os quais o cineasta viajou com o propósito de conversar com intelectuais, trabalhadores das mais diversas categorias e representações políticas, ele ampliou a discussão, acrescendo à pauta novos matizes. Do homossexual mexicano que buscou asilo no Canadá, por ser perseguido em seu país de origem à chilena funcionária do Palácio de La Moneda que se sente discriminada em seu trabalho de varredora, passando pela jornalista e senadora argentina Norma Morandini, ao escritor Eduardo Galeano e ao arquiteto Oscar Niemeyer (em uma de suas últimas entrevistas), o documentarista diz ter feito o máximo para que seu filme contemplasse personagens e categorias com potencial para enriquecer a discussão por ele proposta.

DIREITOS UNIVERSAIS

Mais de 60 anos depois da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas, é saudável que esse debate seja continuamente retomado. Assinado em dezembro de 1948, ou seja, três anos após a criação da ONU e do fim da Segunda Guerra Mundial, o documento estabelece, ao longo de 30 artigos, os direitos fundamentais de todos os seres humanos, independentemente de raça, cor, sexo, idade, religião, opinião política, origem nacional ou social etc. Embora se reconheça a importância de cunhar uma declaração com tamanha abrangência, é a sistemática inobservância dos direitos aí arrolados que continua a servir de motor a toda a sorte de conflitos ao redor do planeta.

“Sabemos que diferentes nações escolhem diferentes caminhos para atingir a promessa de democracia e que nenhuma nação deve impor sua vontade a outra”, disse o presidente americano Barack Obama, ressaltando, em discurso gravado durante visita ao Brasil, em 2011, diretrizes que seu próprio país incontáveis vezes desrespeitou. “Queremos poder escolher como seremos governados e moldar nosso próprio destino. Esses não são ideais americanos ou brasileiros. Não são ideais ocidentais, são direitos universais. E temos que apoiar esses direitos em toda a parte”, interrompe-se, sob aplausos entusiasmados da plateia.

O ativista argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980, por sua vez, lembra que os direitos humanos não são um fenômeno estanque e que há, em todo o mundo, uma preocupação crescente com os chamados direitos de terceira geração, categoria também cunhada pela ONU, que engloba os direitos dos povos e de setores da sociedade. “São também direitos mais modernos, que foram incorporados a partir de lutas da sociedade”, acrescenta, a certa altura, o também argentino Julio Santucho, diretor do Instituto Multimedia DerHumALC – Derechos Humanos en América Latina y Caribe, enfatizando que se está tratando aqui de uma questão dinâmica. “Direitos humanos não são um evangelho, são o resultado da evolução da sociedade.”

ITINERÂNCIAS

Entre os compromissos que Planel já firmou para Mais náufragos que navegantes, estava Brasília, no último dia 6, com a exibição do documentário seguida de debate no Auditório Nereu Ramos, da Câmara dos Deputados. No dia 16, às 9h, uma nova exibição do filme acontece no Rio. E, dessa vez, dentro do programa “Domingo é Dia de Cinema”, do Cine Odeon Petrobras, na Cinelândia. Após a projeção, o diretor debate com a plateia o tema “Direitos humanos para quem?”. Um seminário itinerante baseado no documentário também está sendo planejado. A estimativa é que a primeira edição ocorra no segundo semestre deste ano.

A proposta é ter um jornalista mediando debates com personagens entrevistados por Planel – quatro em cada país por onde o evento passar. “A ideia, a princípio, é fazermos em Brasília, Rio e São Paulo. Depois: Buenos Aires, Montevidéu e Santiago. E assim iríamos trocando de personagens e cobrindo toda a América Latina até o México”, antecipa o diretor.

FIM

 

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BIENAL DO RIO 2007

 

Matéria publicada no site Yahoo News, em 24/09/2007

Bienal do Rio – Todo o poder das novelas

 

Bienal do Rio 2007

Gilberto Braga e Silvio Abreu conversam com o público no Café Literário

 

 

(Rio de Janeiro) – Muita rasgação de seda e nenhuma alfinetada. Nesse clima, os teledramaturgos da Rede Globo, Gilberto Braga e Silvio de Abreu dividiram o sofá do Café Literário, no sábado (22/09), penúltimo dia da 13ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro, para um bate-papo informal sobre TV e o ofício de escrever novelas.

Confessos admiradores do trabalho um do outro, eles não foram econômicos nos elogios .”A gente se adora, se admira. Isso é ótimo”, disse Gilberto Braga, sobre o autor Silvio de Abreu, que também não esconde a admiração que nutre pelo colega: “Sou fã das novelas dele; são as que mais gosto”.

Logo no início da sabatina, um assunto que, mais até do que a absolvição de Renan Calheiros no Senado, vem mobilizando parte da nação: “Quem matou Taís?”. O responsável pelo trágico destino da personagem vivida pela atriz Alessandra Negrini, na novela Paraíso Tropical, de Gilberto Braga (escrita em parceria com Ricardo Linhares) – cujo capítulo final vai ao ar nesta sexta-feira (28/09), às 21h, segue cercado de mistérios.
Braga justifica a provocação que faz ao público de seu folhetim. “Acho interessante colocar em uma novela um ´quem matou?´, porque faz com que esse assassinato vire a espinha dorsal”, defende. “As histórias dos personagens começam a se unir, virando um grande sucesso na maioria das vezes”.

Humor e glamour

É Sílvio de Abreu, no entanto, quem elege o suspense como um dos principais ingredientes de suas novelas – seus fãs hão de se lembrar da apreensão em torno dos assassinatos de A Próxima Vítima (1995) e Belíssima (2005). O primeiro ingrediente, segundo o autor, é o humor. E Guerra dos Sexos (de 1983, com Fernanda Montenegro e Paulo Autran) foi a novela que, definitivamente, o consagrou nessa seara. Gilberto Braga diz que glamour é o que os fãs não admitem que falte em suas tramas.

E como os autores se sentem em relação aos personagens quando suas novelas terminam? Ambos concordam que o sentimento que fica é quase que de missão cumprida. “É um alívio”, diz Abreu. “Eu acho ótimo, não tenho saudade de nada!”, emenda Braga. “A glória é quando vejo o último capítulo. Acabou, está no ar. Estou de férias!”.

Mas não se pense que esses senhores não têm carinho por seus personagens. Sobre o ofício de propriamente concebê-los, Braga conta, com entusiasmo, que os cria e lapida pensando nos atores de quem gosta. E a primeira pessoa que lhe ocorre citar é Isabela Garcia, atriz para quem ele vem talhando personagens desde Água Viva (novela que a Rede Globo exibiu em 1980). Em Paraíso Tropical, ele diz ter escrito especialmente para ela o papel de Dinorá, que , no meio da trama, o marido substitui por outra mais jovem. “Eu queria que ela fosse uma ex-mulher pentelha”, explica, brincalhão.

Cortando os pulsos

Mas é com outro par romântico da novela que Braga se mostra especialmente envolvido: Neli e Heitor (interpretados por Beth Goulart e Daniel Dantas). “Se eles não ficarem juntos, eu corto os pulsos”, diz, levando a platéia às gargalhadas . Abreu não deixa dúvidas sobre o comprometimento dos autores com suas criaturas: “A gente sofre, se envolve”.
Saudado por intelectuais como um dos mais elaborados autores de telenovelas surgidos por estas bandas, Braga confessa, em dado momento, que sua experiência de fruição estética não se restringe aos clássicos . “Tem hora que a gente quer ver bobagem, se distrair”, admite. “Não é todo dia que eu vou ler Dostoievski, ver peça do Gorki”.

Tabus abaixo

Embora tanto Silvio de Abreu quanto Gilberto Braga partilhem da opinião de que a principal função das novelas deva ser mesmo a de entreter, nenhum dos dois descarta seu papel educativo. Para Abreu, as novelas têm ajudado a demolir tabus e o fizeram, por exemplo, quando explicaram para as pessoas que a homossexualidade não é um problema. Braga complementa a argumentação elogiando o tratamento que Sílvio de Abreu deu ao tema, em A Próxima Vítima, onde um casal gay – Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) – fugia ao tradicional tratamento estereotipado.
Gilberto Braga também criou, em Paraíso Tropical, um casal de homossexuais masculinos (vividos pelos galãs Carlos Casagrande e Sérgio Abreu, igualmente não-estereotipados), em torno do qual a maior polêmica, vinda, segundo ele, de representantes de movimentos gays, diz respeito à “contenção” dos personagens na trama. “Eles reclamam que não tem beijo”, diz o autor.
Outro preconceito que os autores têm tratado em suas obras é o racismo. E, também nesse caso, virando estereótipos pelo avesso. Ainda em A Próxima Vítima, os membros da família negra – que, segundo Abreu, foram muito bem aceitos pelo público – não estavam em condição subalterna, nem viviam na periferia, situações em que os negros, mais comumente, vêm sendo retratados nas novelas. Braga, que diz ter uma longa militância contra o racismo, lembra, a propósito, do destaque que deu ao personagem do fotógrafo negro, inserindo-o no “mundo do glamour”, em Celebridade (2003).

Vaidosos

Ao final do debate, os autores foram questionados sobre suas ambições literárias. Sílvio de Abreu afirma sentir-se realizado com seu ofício. “Não me vejo escrevendo um livro”, garante. Braga diz que não saberia escrever um romance e reitera o que, em sua atividade, mais o motiva: “Trabalhamos com o ator. É nossa matéria-prima”. Ele não diminui a importância do julgamento dos críticos e confessa ficar exultante ao escrever um capítulo que recebe elogios . Revela, ainda, que seu companheiro Edgar costuma dizer que ele fica “um nojo” quando isso acontece.
Antes de a mediadora, a jornalista Regina Zappa, dar por encerrado o encontro, Gilberto Braga pede licença, e, dirigindo-se à mulher de Sílvio de Abreu na platéia, pergunta: “Ele também fica um nojo?”.

…………………….

Deolinda – Entrevista

 

Portal Cronópios * Seção: World Music
Data da publicação: Março de 2011

 

Deolinda leva novos ares à música portuguesa

Entrevista e texto por Adriana Paiva

Com pouco mais de trinta anos de idade, Ana Bacalhau, Pedro da Silva Martins, Luís José Martins e Zé Pedro Leitão, os lisboetas do Deolinda, revigoram a música popular portuguesa com canções bem-humoradas e de forte crítica às políticas do primeiro-ministro José Sócrates. Depois de experimentar enorme sucesso em Portugal, a banda viaja pela Europa divulgando o segundo álbum “Dois Selos e Um Carimbo” e planeja, dia desses, vir tocar no Brasil. A seguir, entrevista com Ana Bacalhau, a voz da personagem que deu nome ao grupo:

O Deolinda é a junção de três primos e um amigo que veio a se tornar seu marido. Quando vocês começaram a tocar juntos?

Ana Bacalhau – Começámos a tocar juntos em 2005, depois de um almoço em família. Já andávamos com intenção de fazer qualquer coisa os quatro e naquele dia, proporcionou-se. Como gostámos do que ouvimos logo nesse primeiro ensaio, fomos ficando e tocando. E, agora, é o que se sabe.

Ana, você tem formação acadêmica em Linguística e Literatura. Fale-me um pouco dessa passagem das Letras à Música.

A.B. – Eu estudei Literatura e Linguística Portuguesa e Inglesa, mas o meu amor pela música falou mais alto e fiz dela a minha vida. Se, à primeira vista, a minha formação académica poderá não ter correlação imediata com a música, o facto é que por ter estudado a língua portuguesa, a interpretação textual, a importância da palavra e do texto, tenho um cuidado maior na minha abordagem aos textos das canções que canto. Tento pôr a minha voz ao serviço da mensagem. Isso é, para mim, o mais importante, respeitar a canção.

Ana canta e também compõe? Quais são as atribuições de cada um no grupo? Há planos de gravação em outros idiomas?

A.B. – Eu compus algumas canções numa banda que tive, anterior aos Deolinda, que se chamava Lupanar. Com os Deolinda, a marca autoral do Pedro (da Silva Martins) é muito forte, personalizada e de uma enorme riqueza e qualidade, pelo que, não faz sentido que a minha voz autoral, bem mais limitada que a do Pedro, se faça ouvir. O Pedro compõe a melodia e, a seguir, escreve a letra. Apresenta-nos a canção à guitarra e, imediatamente, começamos a pensar no arranjo e na interpretação. Este projecto nasceu de uma vontade em explorar a língua e música portuguesa e inscreve-se num imaginário muito português. Por isso, achamos difícil gravar numa outra língua.

Você, até recentemente, era arquivista do Ministério das Finanças. Os outros integrantes do Deolinda ainda mantêm trabalhos paralelos à atuação na banda?

A.B. – Todos nós somos músicos profissionais e todos nós tivemos outras profissões, para além da música. Agora, com a agenda de concertos que temos, é impossível manter outra actividade profissional. E também não queremos, porque fazemos aquilo de que gostamos e conseguimos viver disso.

Vocês costumam rechaçar o rótulo de fadistas. Qual seria, então, a relação do Deolinda com o fado, gênero musical que, poderia-se dizer, está para Portugal como o samba está para o Brasil?

A.B. – O fado é uma influência clara e muito forte, nas temáticas de amores não-correspondidos e num universo castiço que é retratado em algumas canções. No entanto, a nossa música não é, na forma ou na essência, fado. Posicionamo-nos na música popular portuguesa, onde se inscrevem os cantautores, o folclore, a canção tradicional. Se, com o nosso trabalho, pudermos chamar a atenção para as formas tradicionais da nossa música e pôr aqueles que nos ouvem atentos ao cancioneiro português, que é riquíssimo e vastíssimo, então ficamos muito felizes.

Fale-me, por favor, quem, entre seus conterrâneos, são os músicos que influenciam ou influenciaram o Deolinda.

A.B. – Zeca Afonso, António Variações, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Camané, Hermínia Silva, Humanos, Clã, Madredeus, Gaiteiros de Lisboa … São muitos e todos eles extraordinários.

O Deolinda tem fortes componentes histriônicos e teatrais, presentes tanto nas canções quanto nas performances da banda. Por que o grupo ganhou o nome dessa personagem do subúrbio lisboeta? Quem é, afinal, essa rapariga de nome Deolinda?

A.B. – A Deolinda representa-nos, de certa forma. Representa o universo musical de quatro músicos que, quando se juntam, fazem aquelas canções, com aquele som, com aquelas características. Costumamos dizer que se o Fernando Pessoa tinha vários heterónimos, nós temos um heterónimo partilhado por quatro pessoas. A Deolinda é uma senhora dos seus 30/40 anos, solteira e observadora. É das suas observações que nascem as nossas canções.

Entre suas influências, você cita pelo menos duas cantoras brasileiras: Elis Regina e Mônica Salmaso. Até que ponto, você diria, nossa música influencia o trabalho do Deolinda? Quem são os outros músicos brasileiros cujo trabalho a banda acompanha?

A.B. – A música brasileira é pedra basilar para qualquer músico que trabalhe a música popular. A forma como se canta o português do Brasil, trazendo para a música o discurso corrente sem com isso sacrificar a beleza poética, cantando com subtileza, sagacidade e emoção, tudo isso faz com que seja obrigatório ouvir e conhecer a música popular brasileira. Para além de Elis Regina e Mônica Salmaso, conhecemos e acompanhamos o trabalho dos incontornáveis Caetano Veloso, Chico Buarque, João Gilberto, Marisa Monte, sem esquecer os grandes Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Los Hermanos (acompanhando ainda o extraordinário trabalho de Rodrigo Amarante, nos Little Joy).

Rodrigo Leão, um dos fundadores do Madredeus, já gravou com Rosa Passos e Adriana Calcanhotto, duas conhecidas cantoras brasileiras. Há conversações entre o Deolinda e músicos daqui, no sentido de formação de parcerias, de colaborações?

A.B. – Neste momento, não temos nenhuma colaboração planeada com músicos brasileiros, no entanto, pela afinidade musical que temos com o Brasil, caso se proporcione, teremos muito gosto em trabalhar em conjunto com músicos que admiramos.

O Deolinda planeja apresentações no Brasil? Tem conhecimento de como anda a receptividade de sua música junto ao público brasileiro?

A.B. – Ainda não conseguimos ir aí tocar, mas queremos muito, até porque recebemos muitas mensagens do Brasil com fãs a pedir-nos que aí toquemos. Esperamos estrear-nos no Brasil este ano ainda, ou no próximo. Temos muitas expectativas relativamente ao público brasileiro e à forma como a nossa música pode ser acolhida no país.

Há quem diga que a canção “Parva que Sou” é uma resposta à politica econômica de José Socrates, no que essa teria limitado o acesso dos jovens portugueses ao mercado de trabalho. A música encontrou ótima acolhida por parte desse público, vindo a tornar-se uma espécie de hino da nova geração. A letra exprime o que vocês pensam sobre a juventude portuguesa?

A.B. – O tema “Parva que Sou” não é uma resposta a ninguém, é a constatação de uma realidade que alguns de nós vivemos pessoalmente e que vemos os nossos amigos viver. O impacto que teve junto das pessoas ajudou a trazer para a discussão pública um problema que, viemos a descobrir, não é só português. Tivemos espanhóis, franceses, ingleses e, até, brasileiros a escrever-nos e a dizer que também eles se reviam de alguma forma naquelas palavras. É um problema que, por afligir muita gente, de todos os quadrantes políticos e classes sociais, deverá ser debatido de forma séria, isenta e unida, com rigor e vontade de encontrar soluções válidas.

O Deolinda sempre teve preocupação em fazer canções com mensagens políticas e sociais?

A.B. – Sempre procurámos retratar nas nossas canções a realidade que conhecemos e falar um pouco das nossas idiossincrasias, com um olhar crítico e com alguma boa disposição à mistura. Para além de pretendermos deixar o público com um sorriso de prazer ao ouvir as nossas canções, é óptimo sentir que deixamos o público, também, a pensar.

Canção ao Lado” foi muito bem recebido pela crítica. E como tem sido a aceitação a esse segundo álbum do grupo? Em que aspectos “Dois Selos e um Carimbo” se diferencia do álbum de estreia ?

A.B. – O “Dois selos e um carimbo” já atingiu o galardão de platina e continua nas tabelas dos mais vendidos, o que nos deixa muito felizes. Mais felizes ainda ficamos ao ver que as pessoas sabem as canções de cor, nos nossos concertos. Este segundo trabalho é talvez mais maduro, reflectido e resultado de dois anos intensos de estrada, em que aprendemos muito, aperfeiçoámo-nos, conhecemos países e culturas novas.

Que papel redes sociais como Twitter e Facebook desempenham na divulgação da banda ?

A.B. – As redes sociais permitem um contacto mais directo do público com os seus artistas preferidos. Isso é importante, não só para quem quer falar em discurso directo com os músicos que admira, mas também para os músicos, que têm ferramentas que lhes permitem a divulgação do seu trabalho de forma eficaz e a baixos custos.

* (Nota: optou-se aqui por manter a grafia originalmente utilizada pela vocalista).

 

FIM

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