As raízes estão no mesmo lugar

 

Revista da Cultura * Seção: Artes visuais.
Data da publicação: Janeiro de 2017 * Edição n° 108. Páginas 64 a 69.

Sagas familiares

AS RAÍZES ESTÃO NO MESMO LUGAR

Artistas desbravam sagas familiares para encontrar um pouco deles mesmos no que foi vivido por seus antepassados

POR: ADRIANA PAIVA / 08/01/2017

Para cada um deles, um elemento catalisador, um atalho. O caminho de volta às raízes, em um movimento que implica, mais do que revolver dores, descobrir, nas ramificações que se espraiam, algumas gratas surpresas. No caso do fotógrafo, escritor e pesquisador carioca Andreas Valentin, de 63 anos, o fator que precipitou esse processo foi um pacote de slides que pertencera ao pai, encontrado algo fortuitamente, em agosto de 2014, na véspera de ele viajar para Berlim, na Alemanha, onde daria início à sua pesquisa de pós-doutorado no Instituto de História da Arte da Freie Universität. “Eu já estava indo para lá com essa intenção, que era justamente a de aprofundar um pouco mais o meu conhecimento da história da nossa família, algo que já vinha fazendo havia algum tempo, junto com meu irmão, no Brasil, e meus primos, no Canadá”, conta. “Então, levei comigo esse pacotinho de diapositivos [slides de 35 milímetros], me segurando para não ver o que tinha ali dentro.” Ele só foi abrir o pacote um mês depois, quando encontrou, na Suíça, com o irmão, o também fotógrafo Thomas Valentin. O conhecimento, enfim, das imagens ali contidas trouxe um novo alento ao processo de resgate de histórias familiares.

ROTAS BERLINENSES

No esforço de perscrutação, ao tentar entender que fotografias eram aquelas, Andreas lembra que as interrogações só se multiplicavam. “Primeiro, que viagem foi essa que meu pai fez com a mãe dele, com a minha avó? Que Berlim era essa na qual eles estiveram?” Até então, ele sequer sabia que o ano em questão era 1975. “Isso só fui descobrindo aos poucos, em um trabalho quase de arqueologia.”

Em meio a investigações que também buscavam refazer o percurso traçado pelos familiares, Andreas começou a esboçar o que viria a ser o projeto Berlin Rio – Trajetos e memórias, que, contemplado com o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2015, rendeu um livro homônimo e segue em cartaz até dia 8 no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio. Nesse trabalho, os slides catalisadores ganharam especial releitura: Andreas reencenou as imagens daquela viagem de seu pai, Gerhard, em companhia da avó Martha e refotografou-as em preto e branco.
A mostra traz, ainda, documentos e objetos, além de raridades de épocas anteriores às famílias Kaiser e Valentin (parentes do fotógrafo por parte de mãe e pai, respectivamente) virem para o Brasil fugindo do nazismo. A exemplo da reprodução de uma pintura a óleo, presente tanto na abertura do livro quanto na entrada da galeria, onde se vê o tataravô de Andreas, o empresário Valentin Manheimer, cercado pela família durante a celebração do aniversário de 70 anos, em 1887.

Enquanto o projeto já tem desdobramentos sendo avaliados, como uma exibição ampliada, prevista para ocorrer em Berlim em 2018, a garimpagem continua. Processo que, há algum tempo, também conta com a colaboração da historiadora Gabriele Bergner. “De certa forma, foi ela que despertou, em mim e no meu irmão, uns cinco anos atrás, o interesse de nos aprofundarmos sobre a história da família.” Gabriele, que vive em Teltow, subúrbio da capital alemã, vinha realizando pesquisas sobre judeus locais quando deparou com informações sobre um tio-avô dos irmãos Valentin.

“O resgate das histórias continua”, enfatiza Andreas. “E, às vezes, contratado por instituições para fazer pesquisa mais geral, sobre essa classe letrada, de origem judaica, que vivia em Berlim e nos arredores.”

ÁLBUNS DE FAMÍLIA

Memorabilia, projeto da fotógrafa Claudia Jacobovitz, pernambucana de 54 anos, nascida no Recife, já vinha sendo alinhavado em conversas com o irmão e com uma prima desde 2014. “O primeiro foco de interesse desse trabalho sempre foi Nora Pomeranc, essa mulher que concebeu e gerou meu pai, e com quem tive pouca chance de conviver em uma fase mais madura. Eu era muito jovem quando ela faleceu”, recorda Claudia.

A fotógrafa conta que o processo começou a se desenvolver muito calcado na busca dos rastros deixados pela avó, que tinha 22 anos quando saiu da Polônia, em 1927, e imigrou para o Brasil. “Então, por conta do crescente antissemitismo e, posteriormente, da Segunda Guerra e do nazismo, essa família, essa pátria, esses amigos, ela não volta mais a ver. Mas, apesar de toda essa carga de perda, de todo o sofrimento vivido, ela era uma pessoa muito leve, carismática e sábia.”

Outro ponto do projeto destacado pela fotógrafa é a tentativa, assumidamente ritualística, de preencher a lacuna deixada pelos antepassados poloneses. E uma das maneiras encontradas por ela para atingir seu objetivo foi valer-se do rico acervo fotográfico da família perdida. Foram justamente essas imagens que Claudia resolveu levar em sua viagem pela Polônia e por Israel, em janeiro de 2015. “Mas esse projeto, o tempo todo, é muito espontâneo. Não havia nada predeterminado”, reforça. “O que eu levava na minha mala, por assim dizer, era a ideia de um trabalho de memória, a ideia de levar essas fotos para passear.” Em contextos diversos, de Lodz a Jerusalém, Claudia foi depositando as imagens para, em seguida, refotografá-las, evocando, assim, novos significados. “Os lugares foram surgindo. Coloquei, por exemplo, a foto de meus bisavós em um orelhão na Polônia, como uma referência ao fato de que eles esperavam de 15 dias a dois meses para que as cartas chegassem ao Brasil”, ressalta. “No meio do caminho, passamos por Israel, onde tínhamos familiares. Foi lá que surgiu a ideia de fazer outros rituais. E assim também pude levar essas fotos para o Muro das Lamentações. Colei-as no muro, pensando nas regras judaicas que dizem ‘no próximo ano em Jerusalém’”.

Claudia expôs Memorabilia na Arte Plural Galeria, na sinagoga Kahal Zur Israel – a mais antiga das Américas –, ambas na capital pernambucana, e, mais recentemente, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Ela se diz entusiasmada com os desdobramentos que o trabalho continua a ter, como as rodas de conversa com jovens estudantes, e já se articula para torná-lo itinerante.

ARQUEOLOGIA DOS AFETOS

Para a curitibana Manoela Afonso, de 40 anos, professora assistente na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, prática artística, docência e interesse por histórias de vida nunca se mostraram tão profundamente relacionados como agora, quando ela se encontra na iminência de defender sua tese de doutorado na University of the Arts London.

Mas a vontade de conhecer propriamente a história de seus antepassados só veio a ganhar contornos mais definidos muitos anos depois de ela ir, sozinha, visitar Vilarinho dos Galegos, a aldeia ao norte de Portugal de onde seu pai, caçula de 11 irmãos, partira, aos 14 anos, em busca de oportunidades de trabalho no Brasil. A primeira viagem de Manoela à aldeia, hoje incorporada à vila de Mogadouro, aconteceu em 1997. Nessa época, ainda morando em Curitiba, ela acabara de trancar a faculdade de artes, mas continuava vinculada ao curso de agronomia. Experiência que, aliás, ela reputa como responsável por começar a definir as escolhas acadêmicas que, alguns anos mais tarde, viria a fazer. “A problematização do lugar, do lugar de fala, que é geopolítico também; era muito difícil pensar nessas questões em uma faculdade de formação tradicional, com as aulas de gravura e desenho, mas que não davam espaço para refletir a respeito, diferentemente do que ocorria em disciplinas da agronomia”, justifica ela, que, paralelamente, se dedica a oficializar outro projeto, o Núcleo de Práticas Artísticas e Autobiográficas.”

Revisitando as primeiras imagens feitas, quando ainda aprendia os rudimentos da gravura, Manoela conta que foi aí que ela concluiu que as cartas, os diários, as escritas de vida, enfim, estiveram sempre presentes. “Não me dava conta dessa relação. Não existia o pensamento de que aquilo ali tinha uma potência poética, na história de investigar as raízes familiares.”

Em 2010, já consciente de que tinha nas mãos um precioso projeto artístico, Manoela resolveu voltar a Portugal na companhia dos irmãos mais novos. E, para essa ida, ela planejou uma série de ações criativas. “Mandei fazer, para mim e para os meus irmãos, camisas bordadas nas costas, com uma frase que meu pai dizia: ‘À noite, fecho os olhos e ando pelas ruas da minha aldeia’”, lembra. “Depois, nós andamos por lá como uma ação performática, trabalho que intitulei Reconhecimento de Terra Natal.”

Entre encontros e conversas com os tios, eles produziram vídeos e realizaram uma ‘ação-postal’, a partir de uma imagem do pai, registrada na época em que ele saiu de Vilarinho dos Galegos. E escrevi assim: ‘Peço que, se alguém conhecer esse miúdo, que me mande notícias dele.’ Só que não recebi nenhuma carta de volta”, diverte-se. Manoela conta que o pai só retornaria, pela primeira vez, à aldeia de origem 44 anos após ter saído de lá. E que agora, tendo tomado gosto pelo contato com os parentes, quer visitá-los todo ano. Sentindo que cumpriu uma espécie de missão em relação a ele, a artista se volta agora à investigação das raízes familiares pelo lado materno.”

FIM

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Olhares engajados

 

Revista da Cultura * Seção: Fotografia. Páginas 52 a 55.
Data da publicação: Dezembro de 2015 * Edição n° 101

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OLHARES ENGAJADOS

Os caminhos que conduziram dois fotógrafos, o brasileiro Chico Max e o colombiano Marcelo Londoño, a retratar imigrantes  para os quais as mãos da ajuda foram estendidas

Reportagem e texto por Adriana Paiva 10/12/2015

De um lado, o fotojornalista Marcelo Londoño, 38 anos, colombiano de Bogotá, formado em História e Cinema e com vários anos dedicados a temáticas sociais. Do outro, o paulistano Chico Max, 44 anos, diretor de arte com formação em Psicologia e uma longa carreira em fotografia editorial. Por mais díspares que possam parecer as trajetórias desses fotógrafos, em vários pontos, elas convergem. Justo quando a crise migratória atinge os níveis mais alarmantes, obrigando o mundo a repensar estratégias para lidar com seus efeitos, o trabalho de ambos encontra uma nova vocação: dar suporte a campanhas de esclarecimento sobre a situação dos refugiados e imigrantes que chegam ao Brasil, deixando para trás dramas como a guerra e a pobreza extrema.

Périplos por boas causas

Londoño, que atualmente se divide entre Lisboa, onde conclui um mestrado – e de onde conversou, via Skype, com a Revista da Cultura – e o Rio de Janeiro, cidade que escolheu para fixar residência, já vinha passando longos períodos no Brasil desde 2009. Aqui, cobriu a movimentação em torno de grandes eventos, como a Copa do Mundo, as manifestações que tomaram as ruas do país, em junho de 2013, e, mais recentemente, fotografou o avanço da hanseníase no estado de Pernambuco. Trabalho que, realizado para a Netherlands Leprosy Relief (NLR), fundação holandesa voltada ao combate da doença, acabou por render-lhe um prêmio da ONG alemã Transparência Internacional. “Viajamos pelo interior do estado durante sete dias. Eles precisavam de fotografias para uma campanha, na Holanda, e fui fazer. Foi uma experiência muito, muito forte”, relembra o colombiano. Exatamente por esse seu comprometimento com temas de cunho social que, em setembro deste ano, a Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro decidiu solicitar os préstimos do fotógrafo para documentar a rotina dos cidadãos estrangeiros acolhidos pela Casa de Apoio a Refugiados, mantida nas dependências da Igreja Matriz de São João Batista, em Botafogo, zona sul carioca.
Precisávamos de alguém que tivesse um olhar mais sensível, a fim de chamar a atenção das pessoas para o problema dos refugiados no Brasil, mas também para fazer uma campanha de arrecadação de doações para o abrigo e falar sobre alguns casos, de modo a obter ajuda para eles”, conta Diogo Félix, assessor de informação da Cáritas RJ. “Estávamos em uma semana de muita atenção da mídia brasileira – e até da estrangeira – sobre os refugiados no país, em geral, e no Rio em particular”, acrescenta, aludindo à comoção mundial causada pela tragédia de Abdullah Kurdi, sírio de origem curda, que, alguns dias antes, perdera toda a família em um naufrágio durante tentativa de travessia entre a Turquia e a Grécia. Àquela altura, o abrigo, coordenado pelo padre Alex Coelho, com o apoio do Acnur (Alto Comissariado da ONU para os Refugiados) e do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, recebia 16 pessoas, entre elas, nove sírios, uma mãe e a filha nigerianas e uma família de russos de origem armênia, que chegou ao país fugindo da guerra na Ucrânia. De lá para cá, essa configuração alterou-se um pouco, com a chegada de refugiados de outras nacionalidades. “Há 19 pessoas na casa hoje, sendo oito sírios”, relata Diogo.

Desconstruindo estigmas

Entusiasmado com a receptividade à exposição Somos todos imigrantes, que apresentou no Museu da Imagem e do Som (MIS), na capital paulista, no início do mês passado, em iniciativa que teve parceria com a Missão Paz e apoio da Secretaria de Cultura e da Assessoria Especial para Assuntos Internacionais do Governo de São Paulo, o fotógrafo Chico Max agora se prepara para também levá-la a Portugal, o que está programado para ocorrer nas primeiras semanas de 2016. Antes, a mostra fotográfica se tornará itinerante, passando pela Assembleia Legislativa e por outros pontos da capital paulista, como o Tribunal de Justiça e algumas estações de metrô.
Embora São Paulo tenha sido erguida com a colaboração decisiva de imigrantes e nutra o orgulho de oferecer oportunidades a todos que ali aportam, a cidade também tem um lado indisfarçavelmente avesso à convivência com as diferenças. Percepção que Chico Max corrobora ao narrar um episódio que, ocorrido há alguns meses, ele destaca como o catalisador dos esforços que redundaram na realização da mostra. O fotógrafo conta que tinha acabado de sair de um restaurante peruano, na região central, quando, bem perto dali, avistou dezenas de haitianos reunidos em uma espécie de celebração. Ao mesmo tempo que a curiosidade típica da profissão o impelia a aproximar-se e a se misturar ao grupo, ele observava, com surpresa, as reações ostensivas dos passantes. “As pessoas – brancas em sua maioria – tomavam um susto, faziam cara de medo e desviavam”, lembra. “E não tinha nenhuma evidência de perigo ali, muito pelo contrário. O clima era muito bom, de superastral. Aí que me liguei: olha só o preconceito acontecendo na minha frente.” Entre testemunhar as cenas de intolerância explícita e tomar conhecimento de situações estarrecedoras relacionadas àqueles imigrantes, o fotógrafo levou o tempo exato de chegar em casa e sentar-se diante do computador. “Entrei no Google Imagens e digitei: ‘haitianos em São Paulo’. Não apareceu nenhuma foto digna; 99,9% das fotos, digamos assim, eram de haitianos em situação vexatória ou envolvidos em problemas.” De uma constatação a outra, Chico não demorou a chegar a uma série de reportagens sobre a Missão Paz, organização ligada à Igreja Católica, destinada a acolher e prestar atendimento a migrantes, imigrantes e refugiados. Ao conhecer o trabalho conduzido ali pelo padre Paolo Parise, imediatamente ocorreu-lhe que sua experiência como fotógrafo poderia ajudar a reverter a imagem desses forasteiros como indivíduos deslocados. A dignidade que ele se frustrara ao procurar, naquela pesquisa pela internet, meses atrás, ele faria questão de deixar impressa nos retratos dos homens, mulheres e crianças, vindos do Haiti e de outros oito países.*

FIM

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Do Morro ao MAR

 

Revista da Cultura * Seção: Cidades. Páginas 52 a 55.
Data da publicação: Abril de 2013 * Edição n° 69

Print Revista da Cultura Reportagens de autoria da jornalista Adriana Paiva Porto Maravilha Miguel Pinheiro Morro Conceição portugueses Portugal

Do Morro ao MAR, a África é logo ali

Um museu novo com metas inclusivas, um coletivo de criadores vindo de Portugal, um bairro repleto de ateliês: a zona portuária do Rio vê a arte brotar por todos os lados

POR: ADRIANA PAIVA / 04/04/2013

Embora sejam muitos, mundo afora, os exemplos de cidades que tiveram áreas inteiras transformadas a partir da revitalização de seus portos, também costumam ser numerosos os registros dos impactos negativos levados à rotina de quem circula ou mora na proximidade desses locais. Desapropriações, despejos, aumento do fluxo de pessoas e de veículos estão entre as queixas mais comuns.

Com as obras levadas a cabo na zona portuária do Rio de Janeiro, as reações não são muito diferentes. Iniciadas com vistas à Copa de 2014 e à Olimpíada de 2016, a estimativa da Cdurp (Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro) é que as transformações estruturais e viárias no local se estendam por mais três anos. Mas, ainda que os moradores de bairros próximos (como Gamboa, Santo Cristo e Saúde) estejam apreensivos sobre as consequências que trarão às suas vidas, as obras capitaneadas pelo Consórcio Porto Novo (batizadas de Projeto Porto Maravilha) despertam também, aqui e ali, sinais de otimismo.

Um fato recente que veio acentuar a sensação de que novos (e auspiciosos) ares circulam pela vizinhança foi a inauguração, no início de março, do Museu de Arte do Rio (MAR), o primeiro (e o que se anuncia um dos mais imponentes) dos produtos do “Porto Maravilha” a ser entregue à população carioca. Localizado na Praça Mauá, uma das portas de entrada da zona portuária, o museu é fruto de uma parceria entre a Prefeitura do Rio e a Fundação Roberto Marinho.

“Fomos convidados pelo prefeito do Rio de Janeiro, o Eduardo Paes, há cerca de quatro anos, para ajudar a prefeitura a pensar um projeto para esse local, que fosse uma âncora cultural e educacional do processo de revitalização da área portuária”, disse Hugo Barreto, diretor-geral da Fundação Roberto Marinho, durante coletiva de imprensa realizada na véspera da inauguração do MAR. “Esse museu, então, é uma das vertentes, junto com o processo educacional, que visa a contribuir com isso, além de também agregar valor à paisagem urbana do Rio de Janeiro.”

CELEIRO ARTÍSTICO

Pertinho do MAR, a poucos metros do centro financeiro do Rio, mas já nos domínios do bairro da Saúde, encontra-se o Morro da Conceição. Cercado por grandes avenidas, mas a salvo de boa parte das desvantagens do progresso, o local ainda preserva ares de cidade interiorana e tesouros culturais datados dos primeiros momentos da ocupação do Rio de Janeiro, a partir de 1565. Foi ali, desde o final dos anos 1970, que se iniciou um processo – por que não? – de reinvenção, renovação e resgate histórico. Vários artistas plásticos passaram a adotar o morro como moradia e estabelecer lá seus ateliês. Em casas espalhadas por ladeiras com nomes pitorescos como “Rua do Jogo da Bola”, eles foram chegando aos poucos e para ficar. “Hoje, somos 12 artistas”, conta o escultor paulistano Claudio Aun, que está ali desde 1980. “Depois que me mudei, comecei a resgatar uma série de pessoas, porque na época era muito em conta alugar casa aqui”, relembra.

Cedo ou tarde, a presença de tantos criadores em uma mesma vizinhança teria que fazer vicejar alguma outra manifestação artística de peso. E eis que, em 2002, quatro daqueles pioneiros (Claudio Aun, Paulo Dallier, Renato Sant’Ana e Marcelo Frazão), todos artistas plásticos, uniram-se para dar à luz o Projeto Mauá.

No início, a proposta era tornar todas as pérolas do patrimônio histórico local acessíveis a um número maior de pessoas, já que o morro, então, não era muito mais que um ponto remoto na selva de pedra do centro do Rio. E o chamariz adotado pelos artistas para mudar essa situação foi abrir seus ateliês à visitação pública, oferecendo oficinas criativas gratuitas. O projeto, que começaria ocupando o morro de dois em dois anos, um pouco mais tarde aconteceria anualmente. E assim, a cada edição, o evento foi ganhando apoiadores importantes (como o próprio Consórcio Porto Novo), visibilidade na mídia e fãs nos quatro cantos da cidade. “Antes, muita gente de fora achava que, por ser morro, aqui era uma favela”, revela o paulistano Aun. “Todo esse pessoal que chegou depois veio atraído pelo Projeto Mauá”, acredita.

Em um desses “fluxos migratórios”, foi que aportou ali a artista plástica Adrianna Eu, convidada para realizar no local uma intervenção urbana ligada a um projeto do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). “Nunca tinha ouvido falar no Morro da Conceição antes. Foi amor à primeira vista”, conta a carioca, que, há quatro anos, saiu da Urca e mudou-se com pincéis e cavaletes para uma casa na Rua do Jogo da Bola, vizinha de vários outros parceiros de métier. Ela também costuma abrir seu ateliê às atividades do Projeto Mauá. E embora não dê cursos nessa ocasião, já que seu trabalho é mais voltado à arte contemporânea, ela colabora incentivando o cultivo de tradições herdadas dos primeiros moradores vindos de além-mar.

A ilustradora e grafiteira carioca Vanessa Rosa ainda morava no Leblon quando, acatando sugestão de seu orientador de pesquisa, o artista plástico e curador Roberto Conduru, passou a frequentar o morro em busca de inspiração para dar corpo a um projeto para o seu curso de graduação em História da Arte, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O objetivo? Mesclar o passado e o presente desse pedaço específico do Rio para recriá-los por meio de personagens que, posteriormente, seriam pintados nos muros e nas paredes de construções locais. Munida de leituras como os relatos de viajantes e valendo-se de entrevistas informais, Vanessa foi refazendo o percurso de homens e mulheres que passaram pelo morro nas mais diferentes épocas. “Inicialmente, foi um morador e historiador da arte, Rafael Cardoso, quem me mostrou alguns dos lugares mais interessantes para pintar e contou sua visão da história da região”, explica. “Outro, o pintor Paulo Dallier, me emprestou fotos antigas de sua família, que mora no morro já há algumas gerações.” A primeira pintura que Vanessa fez em um muro local, de um “preto velho”, foi atendendo à sugestão da própria dona da casa, que é espírita. Depois dessa, muitas outras intervenções vieram. Sempre pintadas em tamanho natural – e em alguns casos cobrindo muros outrora pichados –, as figuras, que evocam de padres a marinheiros e de sambistas a baianas, continuam lá, lembrando aos moradores um pouco da sua história e de onde vieram os seus antepassados.

DE PORTO EM PORTO

O ator e diretor teatral português Miguel Pinheiro é outro exemplo de forasteiro que caiu de amores pelo Morro da Conceição. Tamanho o seu encanto pelo lugar que foi ali que ele, vindo de Portugal em 2012, resolveu estabelecer moradia. Pinheiro é o diretor artístico do 10pt – Criação Lusófona, coletivo que tem como proposta desenvolver um trabalho multidisciplinar em comunidades periféricas de países de língua portuguesa, de modo a redescobri-las a partir da voz dos nativos.
Antes de chegar ao Rio, o coletivo (criado em 2010) já passou com projetos pela Cidade do Porto, em Portugal, e por Mindelo, em Cabo Verde. “O que nos motivou desde o início foi despir essas comunidades de preconceitos, tais como, ‘a África é toda pobre e miserável’, ‘Portugal é um país sem graça, decadente e submisso’, ou ‘o Brasil não é um país sério’. Apostamos em achar a singularidade desses lugares”, esclarece Pinheiro, reforçando o significado do nome do coletivo: “10pt, em português de Portugal, se lê ‘des.pe-te’, de despir, desnudar”.

Aqui, o projeto, que recebeu o nome de Fui? e está inscrito no programa oficial do Ano de Portugal no Brasil, tem promovido oficinas e passeios fotográficos desde fevereiro. No trajeto das saídas, que invariavelmente compreendem ruas da zona portuária, os participantes fotografam e colhem histórias das pessoas que moram e circulam por ali. Segundo Pinheiro, a iniciativa tem atraído um número considerável de brasileiros que, radicados na cidade há algum tempo, têm especial interesse pela discussão de temas como memória e identidade. Para o ativista, quanto maior for o conhecimento sobre os povos que formam a identidade brasileira, maior também será o orgulho de possuirmos laços de sangue com eles. “Sinceramente, gostaria muito que o trabalho do 10pt pudesse ajudar nesse movimento.”

O material reunido durante as atividades do coletivo no Brasil já tem destino certo. As fotos serão exibidas em duas mostras: uma nas ruas da região portuária, outra no Centro Cultural Justiça Federal (a partir do dia 10 deste mês). Já os depoimentos registrados durante entrevistas com pessoas fotografadas deverão servir de base ao roteiro da peça teatral que Pinheiro pretende encenar ainda no primeiro semestre deste ano. Desde que com “a bênção de Dioniso”, avisa.

DE VOLTA AO MAR

Se tantos cariocas e estrangeiros estão acordando para as maravilhas ocultas no Morro da Conceição, não seria o Museu de Arte do Rio, vizinho tão próximo, que iria se manter impassível diante delas.
Em novembro passado, meses antes de sua inauguração, o museu coordenou a realização ali da segunda edição do evento O Morro e o Mar. Graças ao grande sucesso da edição realizada em setembro – e que levou ao Morro mais de 1600 visitantes –, monitores treinados pela instituição voltaram a conduzir visitas aos ateliês locais e aos pontos de maior importância histórica da região.

A artista plástica Adrianna Eu, que participou das duas edições da iniciativa, vê com muito bons olhos a presença do MAR na vizinhança. “Minhas expectativas, como artista e cidadã, são as melhores possíveis”, garante. Adrianna diz observar uma especial disposição por parte do museu de estabelecer vínculos com a comunidade à sua volta. E cita como exemplo dessa postura a garantia dada pela instituição de que todos os moradores da zona portuária poderão visitar o museu gratuitamente, em qualquer dia da semana, bastando para isso, que apresentem um comprovante de residência à administração. “O MAR é um museu incrível, que chega pensando em criar fortes laços com o seu entorno e um lugar de parceria”, reforça. “Esse cuidado é o que me dá esperança”.

FIM

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Perfil : Flavio Colker

 

Revista da Cultura * Seção: Miniping. Páginas 52 a 55.
Data da publicação: Agosto de 2013 * Edição n° 73

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

 

POR UMA NARRATIVA EMOCIONADA

Fotógrafo com nome ligado à cena artística dos anos 1980 e com trabalhos na coleção permanente do MAM/SP, Flavio Colker se dedica agora a projetos que incluem a volta ao cinema e o lançamento de um livro sobre a companhia de dança de sua irmã

POR: ADRIANA PAIVA / 06/08/2013

Quando concedeu esta entrevista à Revista da Cultura, Flavio Colker estava de malas prontas para voltar do México, para onde partiu no ano passado em busca de inspiração (os retratos do artista nesta matéria foram feitos em sua casa, no Rio de Janeiro, logo após seu retorno ao Brasil). Nessa conversa, ele faz questão de deixar claro que as imagens selecionadas para o livro – com lançamento previsto para outubro e cujas fotos antecipamos nas próximas páginas – que marca os 20 anos da Cia. de Dança Deborah Colker, dirigida por sua irmã, estão entre os muitos projetos que o movem nesse momento – até o mês passado, ele esteve com um trabalho exposto no Oi Futuro Flamengo. Ainda na lista dos planos que já começam a ganhar corpo, estão um roteiro de ficção com Fausto Fawcett, parceiro das antigas, uma série para TV e um ensaio sobre máquinas, paixão que ele traz da infância. Prolixo, intenso, interessado por híbridos, o atual momento desse carioca talvez possa ser resumido em suas próprias palavras ao explicar por que a fotografia digital o arrebatou: “O importante é a gente fazer, mostrar, influenciar e ir em frente”.

A maioria das fotos presentes no livro que marca os 20 anos da Cia. de Dança Deborah Colker tem a sua assinatura. Você já declarou que a Deborah procura a imagem na dança e que suas fotografias foram importantes de várias maneiras no trabalho dela. Como, exatamente?

Ah, de uma maneira muito prática. Porque certas imagens, quando chegávamos nos teatros, nos contratantes, enfim, nas revistas que divulgavam, elas ganhavam um espaço enorme. Porque as fotos eram muito boas, sabe? Mas não vou dizer que eu sozinho fiz isso. O que consegui fazer foi com aquilo que a Deborah me deu, que eram, vamos dizer, protoimagens, cenas muito bonitas, feitas dos movimentos, da cenografia do Gringo Cardia. E tive uma inspiração enorme para fazer as fotos. Então, num nível muito prático, essas fotos foram importantes para o trabalho dela circular pelo mundo. E tem outro lado, que é o que gosto mais de falar, que é a questão das inspirações. Qual é a inspiração da Deborah no trabalho dela? No livro, ela divide isso. Ela fala que tem uma primeira fase e uma segunda fase. Na primeira, ela está se inspirando nas ações do cotidiano e transformando aquilo em dança, estilizando. Mas ela também vai buscar em outros lugares. Em Nó[espetáculo que estreou em 2005], por exemplo, ela busca inspiração nas imagens do sadomasoquismo. Acho que esse é um dos trabalhos mais importantes dela. Não à toa, é recorde de público. As imagens são muito importantes, sabe? Essa pesquisa, digamos assim, eu fazia de olhar, por exemplo, o [Robert] Mapplethorpe e como ele transforma isso [o universo sadomasoquista] em arte. Ou como o Velvet Underground transforma isso em música.

4×4 e Nó foram dois espetáculos em que você também assinou a direção com a Deborah…

E teve outros em que eu também participava e ela me deu o título de dramaturg, que recusei, porque não me preparei para ser um dramaturg. Mas trabalhava, vamos dizer, discutindo com ela a arquitetura dramática do espetáculo, onde tinha uma “barriga”, em que podia melhorar, enfim, buscando a dinâmica…

Mas no 4×4, por exemplo, que tem essa proposta de um diálogo entre dança e artes plásticas, houve uma participação maior sua?

Não. Na verdade, esse tem menos. Acho que o Nó é o espetáculo que tem mais presença minha. Porque, quando faz o 4×4, a Deborah vai procurar esses artistas que são crânios, como o Cildo [Meireles], o [coletivo] Chelpa Ferro, o Gringo [Cardia]… Caras muito inteligentes. Aí, eu saí de campo (risos). Acho que dirigir é deixar as pessoas fazerem o que elas sabem fazer melhor. Você só vai ali ver o que está faltando e ajuda.

Kid Abelha, Blitz, Barão Vermelho, Legião Urbana… Você fotografou e dirigiu os videoclipes de várias das bandas que despontaram nos anos 1980, batiam ponto no Circo Voador e tocavam direto na Fluminense FM [rádio de Niterói que tinha o rock como carro-chefe e entrou para a história sob o epíteto de ‘a Maldita’]. Como se deu seu ingresso no mercado fonográfico?

Por intuição e por causa de algumas circunstâncias. Eu precisava trabalhar. Trabalhei como assistente num estúdio e aprendi logo. Era a efervescência, era o momento, entende? A intuição da gente fica aguçada, a antena ligada. Você vê o que está acontecendo e pensa: sou o cara certo pra fazer o que tem que ser feito (risos)… Aí, quando eu já trabalhava como repórter fotográfico da Editora Abril, por acaso, tive de fazer umas fotos da Neuzinha Brizola…

Sim, a filha do Leonel Brizola [ falecida em 2011 por complicações decorrentes de uma hepatite ]. Quando ela estourou com o hit Mintchura, no início da década de 1980, o pai dela tinha acabado de ser eleito governador do Rio.

Exatamente. E a Neuzinha sacou na hora que eu sabia fazer. Tanto que, depois daquelas fotos, ela me chamou pra fazer a capa do LP dela. Logo que eu fiz essa capa, o momento do rock brasileiro aconteceu de uma hora pra outra: bum!

Você se diz uma pessoa em busca permanente de sentido no que faz. Há não muito tempo, você dava aulas de fotografia na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Lecionar é algo que já não o move mais?

Adoro ensinar! Parei pelo seguinte: as reflexões que desenvolvo nas aulas, que são bastante improvisadas, acabam influenciando muito o meu trabalho pessoal. Às vezes, tenho questões não resolvidas no meu trabalho e não quero colocar para os meus alunos. E nem quero que o falado em aula, principalmente isso, me influencie quando estou trabalhando. Eu estava sofrendo, sabe? Foi por esse motivo que dei um tempo. Porque, para mim, dar aulas é muito intenso, me realiza muito. Enfim, mas tenho que fazer minha fotografia, minhas narrativas, tenho que escrever… Essas coisas misturadas estavam provocando um impedimento no meu trabalho.

Foi diante dessa constatação que você decidiu partir para o México? Em que cidade se estabeleceu aí?

Agora, estou em Querétaro, uma cidade pequenininha. O México, para mim, foi um “ligar as turbinas”, o turbo nas imagens, sabe? Porque estou sempre dividido entre a imagem e a narrativa. Eu tinha começado a escrever no Facebook, escrever alguns ensaios sobre fotografia, a partir das aulas que dava. Mas, aí, quando vim pra cá, comecei a fotografar, fotografar muito! E a facilidade de criar imagens interessantes acontecia aqui.

Cântico, trabalho que você classifica como poema audiovisual, foi quase todo desenvolvido durante sua estada aí, não?

Aqui, fiz o trabalho que queria fazer. O Cântico,para mim, é esse dobrar a esquina, é o que quis fazer a vida inteira. Um canto de amor feito com imagens, voltado para a emoção, muito visceral e ao encontro de coisas básicas e verdadeiras. Toda a minha aproximação com o cinema, com a narrativa, foi sempre procurando a emoção.

Em que sentido esse trabalho é uma provocação ao cinema? E quais seus planos para ele?

Olha, pretendo sensibilizar as pessoas, pretendo impactar. Ainda não sei como. Nem as vias institucionais quais serão. O Cântico é uma provocação, porque fiz um híbrido da imagem com a narrativa. É um cinema, mas, veja bem, cinema é imagem em movimento. Fiz um filme no qual as imagens não têm movimento, mas montei como um filme. Usei toda a minha experiência de montagem de videoclipes, de cinema, para criar esse híbrido. Algo que você não consegue definir. Isso me interessa.

Flavio, essa sua personalidade de buscar novos caminhos e olhares é, de alguma forma, influência de sua origem judaica, uma vez que você é neto de judeus russos que se estabeleceram no Rio, no início do século 20?

Em vários sentidos. No judaísmo, a palavra é muito importante. Os judeus são um povo da palavra, não são um povo da imagem. E acho que essa necessidade que tenho de criar narrativa, de falar, de escrever, de dar aula… Isso é muito judaico, sabe? E tem também o conflito com essa condição, com a minha identidade. O fato de estar sempre insatisfeito, sempre procurando resolver as coisas no nível da cultura, no nível do trabalho intelectual. Quer dizer, resolver um conflito que não dá pra resolver de jeito nenhum. Mas, veja, embora a cultura judaica não seja uma cultura de imagem, os judeus têm uma presença muito grande no cinema norte-americano, por exemplo. Mas acho que isso se dá muito mais no aspecto de contar histórias. O judeu é um povo contador de histórias.

FIM

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Fotografia e passagem do tempo

 

Revista da Cultura * Matéria de capa. Seção: Fotografia. Páginas 24 a 31.
Data da publicação: Novembro de 2014 * Edição n° 88

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

 

MEMÓRIA EXPANDIDA

Artistas e coletivos de fotógrafos encontram na passagem do tempo matéria e desafio para a criação de projetos que extrapolam os suportes tradicionais e, não raro, vão parar nas ruas

POR: ADRIANA PAIVA / 06/11/2014

De Brasília e de Belo Horizonte, mas com atuação também fora de suas cidades de origem (e, inclusive, do país), esses grupos de artistas e fotógrafos têm em comum o fato de encontrarem na passagem do tempo matéria para a criação. Seja pelo resgate da história dos indivíduos retratados, seja pelo uso de métodos próprios da arqueologia ou mesmo enquanto desafio para continuar produzindo coletivamente. Outra linha costura o trabalho de todos: vai longe a época em que eles libertaram a fotografia dos suportes convencionais, apresentando-a para fora das galerias, e, amiúde, imbricada com outras linguagens.

Atuando como coletivo fotográfico desde 2007, Armando Salmito, Henry Macario e o casal Arthur Monteiro e Isabela Lyrio integram o brasiliense Punctum. Três deles estão às voltas agora com o projeto Ensaios sobre o tempo, que deve desdobrar-se em livro, mostras e oficinas itinerantes nos primeiros meses de 2015. A ideia para a empreitada começou a ganhar corpo a partir de um convite de Kazuo Okubo, dono da galeria A Casa da Luz Vermelha, que pretendia reunir, em uma série de iniciativas, fotógrafos em atividade na capital do país..

Uma vez aceito, o desafio do grupo foi criar um projeto que tivesse relação com Brasília e que, de alguma forma, explorasse o tema do tempo. Assim, eles estabeleceram como proposta investigar, por meio de imagens, de que maneiras a passagem do tempo vem alterando a anatomia da cidade e influindo na relação que seus moradores mantêm com ela. Dentro desse princípio, cada fotógrafo elegeu um local a partir do qual desenvolveu seu ensaio. “A gente juntou as temáticas que tinham a ver com a decadência de uma cidade tão nova”, explica Isabela. “Brasília tem 54 anos de fundação, mas é uma cidade que já tem uma história de ruínas”, diz, antes de tocar no assunto que lhe é sentimentalmente caro e que norteia seu ensaio no projeto, a W3 Sul. A mais antiga avenida comercial do Plano Piloto viveu seu período de ouro nas décadas de 1960 e 1970 e, hoje, está em franca decadência. Apesar de tudo, a fotógrafa continua a ver beleza nas ruas onde se habituou a caminhar ainda criança. “A W3 Sul é toda arborizada e você encontra de tudo ali. É um grande passeio público”, defende, sem deixar de destacar que as calçadas estão repletas de sinais do descaso do poder público. “São muitas pedras portuguesas soltas e buracos, de mais de 20 centímetros de profundidade, em plena avenida.”.

Abandonada também está a Piscina de Ondas, tema do ensaio de Henry Macario. Construída dentro do Parque da Cidade, maior centro de lazer público da capital federal, a piscina foi inaugurada em 1978 e, após vários problemas administrativos, encontra-se desativada desde 1997. Embora não tenha frequentado o lugar, Macario encontrou ali o seu elemento. Niteroiense radicado em Brasília desde 1995, foi ao mudar para a cidade que ele se tornou um assíduo nadador. “Longe do mar e das praias do Rio, só me encontrei em Brasília depois que conheci as cachoeiras, as piscinas e o Lago Paranoá”, diz.

Arthur Monteiro valeu-se de sua experiência como retratista, e de um antigo gosto por ouvir as pessoas, para encontrar na Candangolândia o seu tema. É lá onde moram, no que outrora foi um conjunto de acampamentos, vários dos personagens que, direta ou indiretamente, estiveram ligados à construção de Brasília. Monteiro foi atrás de dez desses pioneiros. Encontrou (e fotografou), entre outros, Omar de Moraes, o primeiro alfaiate a se estabelecer na capital federal.

Com as duas primeiras etapas do projeto concluídas, ou seja, a dos registros fotográficos e a da colagem das fotografias em espaços de circulação pública – definidos em conjunto com a curadora, Usha Velasco –, o coletivo dedica-se agora à documentação da receptividade às imagens e do processo de deterioração pelo qual elas já começam a passar.

Foram muitos os fatores que contribuíram para que Usha assumisse a curadoria de Ensaios sobre o tempo. Além da experiência editando publicações voltadas para as artes visuais, ela é integrante de um dos mais longevos coletivos fotográficos do Brasil, o Ladrões de Alma. O grupo, que completa 25 anos de estrada em 2014, está prestes a lançar um livro e a inaugurar uma exposição para marcar a efeméride. “Conheço os punctuns desde 2007 e admiro muito o trabalho deles”, diz. “Fiquei muito grata pelo convite, porque o assunto do tempo me é caríssimo.”

Usha vem desenvolvendo ensaios pessoais sobre o tema desde 1998. Sendo que O olhar no tempo – Encontros e trânsitos, o mais portentoso desses projetos, rendeu-lhe, em 2010, o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. Com a proposta de explorar a noção de que a fotografia é uma janela aberta no muro da percepção espaçotemporal, Usha tirou do baú retratos de família, registrados entre as décadas de 1920 e 1930, pelo avô e pelo bisavô, ambos fotógrafos amadores, reproduziu-os em grandes dimensões e distribuiu-os por vários locais de grande circulação na área central do Distrito Federal.
O livro contando a história do coletivo trará um terço de material inédito, entre textos e ensaios fotográficos. Os outros dois terços serão de conteúdo histórico e vão contemplar trabalhos de todos os 24 fotógrafos que passaram pelo coletivo.

DAS GERAIS

Quatro fotógrafos e um jornalista formam o quinteto por trás da Nitro Imagens, sediada em Belo Horizonte. Misto de agência, banco de imagens e editora. Ou, como eles preferem se apresentar, “um coletivo independente de contadores de histórias visuais”. Histórias que eles costumam narrar valendo-se dos instrumentos mais diversos e sempre segundo as afinidades de cada um com os temas eleitos.
Assim foi com Os Chicos, projeto tocado pelo fotógrafo Leo Drumond em colaboração com Gustavo Nolasco, o jornalista do grupo.

A proposta era abordar aspectos do passado e do presente da região do Rio São Francisco sob a ótica dos ribeirinhos. E a partir de um viés bastante original: “Todos os personagens tinham que ser Franciscos ou Franciscas, ou ter o apelido de Chico ou Chica”, conta Drumond. “Quando se fala de cultura oral, sempre se pensa nos moradores antigos ou nos contadores de ‘causos’. Esse recorte nos impôs uma diversidade de gênero e idade que enriqueceu muito o conteúdo”, justifica. Os Chicos acabou se tornando um dos projetos do coletivo que mais repercussão obteve dentro e fora de Minas Gerais. Além das mostras multimídia, que passaram por várias cidades mineiras, o material rendeu os volumes: Os Chicos – Prosa e Os Chicos – Fotografia. Tendo este faturado o Prêmio Jabuti de 2012 como melhor livro de fotografia. A ideia agora é transformar o projeto em documentário.

Prova de que as narrativas visuais da Nitro Imagens vêm chamando cada vez mais atenção foi o convite recebido para participar do conceituado E.CO – Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-Americanos, que aconteceu em Santos (SP), entre agosto e setembro.

Embora sejam uma formação recente como coletivo, André Hauck e Camila Otto, do SC02, também representaram Belo Horizonte no E.CO. Formados em Artes Visuais pela UFMG, eles já trabalhavam em projetos paralelos desde 2006 – Camila com gravura expandida, Hauck com fotografia. Mas a constatação de que funcionavam bem como coletivo só veio a acontecer em 2012, durante uma residência artística em Buenos Aires. Também ali se esboçou o que viria a ser o norte do grupo: circular pelas cidades, mapeando-as visualmente e propondo reflexões sobre como as pessoas moldam e configuram o espaço e são plasmadas por tudo o que as rodeia.

“A passagem do tempo é crucial em nosso trabalho como um todo, seja no deslocamento espaçotemporal, seja no deslocamento de objetos e entre lugares”, diz Camila. Inventariar, ação de 2013, apresentada durante a residência artística RE:USO, já apontava para essa importância – bem como para a opção de subverter os chamados cânones científicos. Percorrendo o Jardim Canadá, bairro da mineira Nova Lima, ao longo de 15 dias, o coletivo realizou um inventário fotográfico de artefatos descartados pela população, ressignificando-os e transportando-os para o universo da arte contemporânea. “Todo o material coletado foi numerado, fotografado, classificado, ordenado e catalogado, como referência a métodos empregados em processos arqueológicos e científicos”, esclarece Camila. Ação semelhante se repetiu na Feira de São Joaquim, em Salvador. Dessa vez, o filtro da coleta foram os elementos sincréticos da cultura baiana.

Ocupados com vários projetos simultâneos, os mineiros do SC02 também se dedicam agora à edição do livro e do blog resultantes de Entre-Lugares, mapeamento visual da cidade de Foz do Iguaçu, tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. A expectativa é de que ambos os lançamentos ocorram na segunda quinzena deste mês.

FIM

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O que move aquele clique

 

Com a pergunta-mote “Por que eu fotografo?”, eventos em Brasília comemoram
Dia Mundial da Fotografia, nesta terça-feira (19/08), e propõem reflexão sobre produção fotográfica


* Matéria publicada no Yahoo! Notícias em 18/8/2008

 

Bienal do Rio 2007

Acima, uma das imagens que participam da mostra FotoGrama: E você? Por quê?

 

* Por Adriana Paiva, da Verve Press

(Brasília) – Em 19 de agosto, comemora-se o Dia Mundial da Fotografia. Foi nesse dia, no ano de 1839 , que a Academia de Ciências e Artes de Paris anunciou ao mundo a invenção do físico Louis Jacques Daguerre. Aproveitando a data, 39 fotógrafos aceitaram o convite para responder à pergunta “Por que eu fotografo?”. Este é o fio condutor de uma série de ações que acontecem na capital federal, a partir da primeira quinzena de agosto. O objetivo é criar um espaço para reflexão e debates, agregando conteúdo ao processo de fazer, mostrar e ver fotografia.
Foram planejados três eventos dentro de um evento maior: nesta sexta (15/08), acontece a abertura de uma exposição coletiva no Museu da República. No sábado (16/08), a programação prevê debates acompanhados de dinâmicas de grupo, no mesmo local. No domingo (17/08), tem início a mostra FotoGrama, que, dirigida a um público que não tem o hábito de freqüentar galerias, vai reunir fotos de 1m x 60cm, impressas em faixas de vinil e fincadas no gramado que circunda a torre de TV – local onde há grande circulação de pessoas nos finais de semana, muitas oriundas das chamadas cidades-satélites . As imagens são acompanhadas de texto onde cada autor responde à pergunta “Por que eu fotografo?”.

“Nesse primeiro encontro, ou nesses três primeiros eventos, reunimos um conjunto bem eclético de participantes”, conta a jornalista e designer Usha Velasco, uma das organizadoras . São 39 participantes, entre fotojornalistas, fotógrafos de publicidade e amadores, designers e professores.
No Museu da República , estarão expostas 46 fotografias e no FotoGrama, 43. “O resultado foi empolgante!”, comemora Usha . “O conjunto está muito bonito, as respostas muito interessantes; o próprio ato de fazer um texto sobre por que fotografar já estimulou a reflexão” .

Sementes no vácuo

Uma certa insatisfação frente ao vácuo de conteúdo da produção fotográfica atual e à banalização do ato de fotografar é a força motriz por trás desses eventos. “Há muitas imagens no mundo, na mídia, na web, no Flickr, nos blogs, mas nenhum comentário que vá além de ´linda foto, parabéns!’”, avalia Usha. A idéia para a realização dos eventos surgiu de um grupo formado por fotógrafos que começaram a conversar pela internet, após um concurso fotográfico cujas regras eles contestaram . O mailing de fotógrafos caiu na rede e deu origem a uma lista de discussão informal .
Com as trocas via web ficando mais ricas e freqüentes, um núcleo formado por cinco fotógrafos – Usha e Rinaldo Morelli , integrantes do coletivo fotográfico Ladrões de Alma; Isabela Lyrio e Arthur Monteiro, do coletivo Punctum, e por Roberto Castello – se mobilizou e convocou os demais participantes da lista para uma reunião. “Depois de alguns encontros, foram traçadas as diretrizes dos eventos”, relata Usha. Surgia aí a semente do que pretende ser um movimento de incentivo à discussão sobre a produção de fotografia na atualidade.
“Queríamos sair de um padrão que chamamos de ´vitrine vazia´”, diz Usha. “Muita coisa bonita, mas nenhuma reflexão”, ressalta.
Isabela Lyrio, fotógrafa que integrou o núcleo de discussão original , comunga com o ponto de vista de Usha sobre haver atualmente uma produção fotográfica abundante (e acrítica) . “Há muita imagem sendo produzida e as pessoas não param para analisar que tipo de idéia estão gerando”, acredita.

Flickr

Outro tema que tem freqüentado a pauta de discussões do grupo, segundo Isabela, são os sites que, como o Flickr, permitem a publicação gratuita de imagens , além de funcionarem como redes sociais . Ela, que mantém uma conta no Flickr, diz que usa o site basicamente para mostrar seu trabalho aos amigos fotógrafos e que pouco interage com outros usuários , pois acha os comentários trocados ali , em geral, bastante superficiais. “Entre meus amigos, fazemos a brincadeira do ‘Wow, great shot!’, em inglês, ‘Grande clique!’”, revela, referindo-se aos elogios comumente trocados entre usuários do Flickr.
“Penso que a fotografia tem que correr para uma relação ainda mais forte com o objeto” , diz . “Chegar e fotografar, qualquer um pode fazer . Mas, conceber um projeto e se aprofundar exige dedicação”. Isabela, entretanto, não enxerga apenas defeitos nos sites de compartilhamento de imagens . “Com tanta imagem sendo feita, em algum lugar essa produção precisa ser extravasada” , defende . É o que ela, aliás, tem feito com as fotos que vem registrando durante os Jogos Olímpicos de Pequim, para onde foi com o propósito de atualizar seu banco de imagens.

Blog da hora

O fotógrafo Claudio Versiani, criador do blog Pictura Pixel, um dos mais recentes fenômenos de popularidade entre fotógrafos, na rede, é um grande entusiasta das possibilidades de intercâmbio trazidas pela internet. “Não sei por que e nem como aconteceu, mas hoje existe uma comunidade PicturaPixel” , empolga-se . Versiani atualmente mora em Barcelona e conta, via Skype, que há gente que acessa o blog religiosamente, todos os dias. “Isso assusta um pouco”, confessa. “Mas, ao mesmo tempo, faz bem ao ego e incentiva para o duro dia de amanhã”.

Significado à vida

Versiani, que trabalhou durante nove anos no Correio Braziliense como como editor de fotografia, tem sido um dos mais fervorosos apoiadores do movimento “Por que eu fotografo?”. “O evento é genial”, elogia . “Encontrar a resposta para tão intrigante pergunta é saber por que e para que se vive”, define. O fotógrafo lembra que a mesma pergunta , coincidentemente, foi feita na primeira edição da então Revista Eletrônica Pictura Pixel.
“Nós começamos com o Abelardo Morell (fotógrafo cubano radicado em Nova York)” , recorda . “Ele é o papa da câmera obscura” . Nesse mesmo número, além de entrevista, portifólio e vídeo sobre o trabalho do cubano, uma pergunta foi lançada aos leitores: “Por que fotografar?” . “Abelardo Morell, muito antes, já havia respondido: ´Porque me faz sentir vivo, humano e jovem´”. Cláudio Versiani assina embaixo.

Participam do evento, os seguintes fotógrafos: Alain Barki,Alan Marques, Alan Santos, Alessandro Souza,Antonio Antunes, Armando Salmito, Arthur Monteiro, Breno Fortes, Carlos Aversa, Claudio Versiani, Duda Bentes, Ed Ferreira,Eraldo Peres, Fernando Croitor, Hélio Rocha, Henry Macario, Isabela Lyrio, Jefferson Rudy, Jorge Diehl , José Rosa , Josemar Gonçalves , Kazuo Okubo , Leonardo Amaral , Lourenço Cardoso , Luis Tajes , Luísa Molina , Miguel Angelo , Patrick Grosner , Ricardo Padue , Ricardo Reis , Rinaldo Morelli Roberto Castello , Roberto Castro , Rose May Carneiro , Sérgio Fonseca, Susana Dobal , Usha Velasco e Wládia Drummond.

Abertura da exposição coletiva: 15/08, às 19h30
Visitação até 20/08
Debate e dinâmicas de grupos : dia 16/08, a partir das 14h30, no subsolo do Museu da República (Esplanada dos Ministérios)
Ingresso: R$ 10,00 + uma foto
Mostra Foto-Grama: dia 17/08, entre 9h e 18h, no gramado de acesso à Torre de TV de Brasília.

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