As raízes estão no mesmo lugar

 

Revista da Cultura * Seção: Artes visuais.
Data da publicação: Janeiro de 2017 * Edição n° 108. Páginas 64 a 69.

Sagas familiares

AS RAÍZES ESTÃO NO MESMO LUGAR

Artistas desbravam sagas familiares para encontrar um pouco deles mesmos no que foi vivido por seus antepassados

POR: ADRIANA PAIVA / 08/01/2017

Para cada um deles, um elemento catalisador, um atalho. O caminho de volta às raízes, em um movimento que implica, mais do que revolver dores, descobrir, nas ramificações que se espraiam, algumas gratas surpresas. No caso do fotógrafo, escritor e pesquisador carioca Andreas Valentin, de 63 anos, o fator que precipitou esse processo foi um pacote de slides que pertencera ao pai, encontrado algo fortuitamente, em agosto de 2014, na véspera de ele viajar para Berlim, na Alemanha, onde daria início à sua pesquisa de pós-doutorado no Instituto de História da Arte da Freie Universität. “Eu já estava indo para lá com essa intenção, que era justamente a de aprofundar um pouco mais o meu conhecimento da história da nossa família, algo que já vinha fazendo havia algum tempo, junto com meu irmão, no Brasil, e meus primos, no Canadá”, conta. “Então, levei comigo esse pacotinho de diapositivos [slides de 35 milímetros], me segurando para não ver o que tinha ali dentro.” Ele só foi abrir o pacote um mês depois, quando encontrou, na Suíça, com o irmão, o também fotógrafo Thomas Valentin. O conhecimento, enfim, das imagens ali contidas trouxe um novo alento ao processo de resgate de histórias familiares.

ROTAS BERLINENSES

No esforço de perscrutação, ao tentar entender que fotografias eram aquelas, Andreas lembra que as interrogações só se multiplicavam. “Primeiro, que viagem foi essa que meu pai fez com a mãe dele, com a minha avó? Que Berlim era essa na qual eles estiveram?” Até então, ele sequer sabia que o ano em questão era 1975. “Isso só fui descobrindo aos poucos, em um trabalho quase de arqueologia.”

Em meio a investigações que também buscavam refazer o percurso traçado pelos familiares, Andreas começou a esboçar o que viria a ser o projeto Berlin Rio – Trajetos e memórias, que, contemplado com o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2015, rendeu um livro homônimo e segue em cartaz até dia 8 no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio. Nesse trabalho, os slides catalisadores ganharam especial releitura: Andreas reencenou as imagens daquela viagem de seu pai, Gerhard, em companhia da avó Martha e refotografou-as em preto e branco.
A mostra traz, ainda, documentos e objetos, além de raridades de épocas anteriores às famílias Kaiser e Valentin (parentes do fotógrafo por parte de mãe e pai, respectivamente) virem para o Brasil fugindo do nazismo. A exemplo da reprodução de uma pintura a óleo, presente tanto na abertura do livro quanto na entrada da galeria, onde se vê o tataravô de Andreas, o empresário Valentin Manheimer, cercado pela família durante a celebração do aniversário de 70 anos, em 1887.

Enquanto o projeto já tem desdobramentos sendo avaliados, como uma exibição ampliada, prevista para ocorrer em Berlim em 2018, a garimpagem continua. Processo que, há algum tempo, também conta com a colaboração da historiadora Gabriele Bergner. “De certa forma, foi ela que despertou, em mim e no meu irmão, uns cinco anos atrás, o interesse de nos aprofundarmos sobre a história da família.” Gabriele, que vive em Teltow, subúrbio da capital alemã, vinha realizando pesquisas sobre judeus locais quando deparou com informações sobre um tio-avô dos irmãos Valentin.

“O resgate das histórias continua”, enfatiza Andreas. “E, às vezes, contratado por instituições para fazer pesquisa mais geral, sobre essa classe letrada, de origem judaica, que vivia em Berlim e nos arredores.”

ÁLBUNS DE FAMÍLIA

Memorabilia, projeto da fotógrafa Claudia Jacobovitz, pernambucana de 54 anos, nascida no Recife, já vinha sendo alinhavado em conversas com o irmão e com uma prima desde 2014. “O primeiro foco de interesse desse trabalho sempre foi Nora Pomeranc, essa mulher que concebeu e gerou meu pai, e com quem tive pouca chance de conviver em uma fase mais madura. Eu era muito jovem quando ela faleceu”, recorda Claudia.

A fotógrafa conta que o processo começou a se desenvolver muito calcado na busca dos rastros deixados pela avó, que tinha 22 anos quando saiu da Polônia, em 1927, e imigrou para o Brasil. “Então, por conta do crescente antissemitismo e, posteriormente, da Segunda Guerra e do nazismo, essa família, essa pátria, esses amigos, ela não volta mais a ver. Mas, apesar de toda essa carga de perda, de todo o sofrimento vivido, ela era uma pessoa muito leve, carismática e sábia.”

Outro ponto do projeto destacado pela fotógrafa é a tentativa, assumidamente ritualística, de preencher a lacuna deixada pelos antepassados poloneses. E uma das maneiras encontradas por ela para atingir seu objetivo foi valer-se do rico acervo fotográfico da família perdida. Foram justamente essas imagens que Claudia resolveu levar em sua viagem pela Polônia e por Israel, em janeiro de 2015. “Mas esse projeto, o tempo todo, é muito espontâneo. Não havia nada predeterminado”, reforça. “O que eu levava na minha mala, por assim dizer, era a ideia de um trabalho de memória, a ideia de levar essas fotos para passear.” Em contextos diversos, de Lodz a Jerusalém, Claudia foi depositando as imagens para, em seguida, refotografá-las, evocando, assim, novos significados. “Os lugares foram surgindo. Coloquei, por exemplo, a foto de meus bisavós em um orelhão na Polônia, como uma referência ao fato de que eles esperavam de 15 dias a dois meses para que as cartas chegassem ao Brasil”, ressalta. “No meio do caminho, passamos por Israel, onde tínhamos familiares. Foi lá que surgiu a ideia de fazer outros rituais. E assim também pude levar essas fotos para o Muro das Lamentações. Colei-as no muro, pensando nas regras judaicas que dizem ‘no próximo ano em Jerusalém’”.

Claudia expôs Memorabilia na Arte Plural Galeria, na sinagoga Kahal Zur Israel – a mais antiga das Américas –, ambas na capital pernambucana, e, mais recentemente, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Ela se diz entusiasmada com os desdobramentos que o trabalho continua a ter, como as rodas de conversa com jovens estudantes, e já se articula para torná-lo itinerante.

ARQUEOLOGIA DOS AFETOS

Para a curitibana Manoela Afonso, de 40 anos, professora assistente na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, prática artística, docência e interesse por histórias de vida nunca se mostraram tão profundamente relacionados como agora, quando ela se encontra na iminência de defender sua tese de doutorado na University of the Arts London.

Mas a vontade de conhecer propriamente a história de seus antepassados só veio a ganhar contornos mais definidos muitos anos depois de ela ir, sozinha, visitar Vilarinho dos Galegos, a aldeia ao norte de Portugal de onde seu pai, caçula de 11 irmãos, partira, aos 14 anos, em busca de oportunidades de trabalho no Brasil. A primeira viagem de Manoela à aldeia, hoje incorporada à vila de Mogadouro, aconteceu em 1997. Nessa época, ainda morando em Curitiba, ela acabara de trancar a faculdade de artes, mas continuava vinculada ao curso de agronomia. Experiência que, aliás, ela reputa como responsável por começar a definir as escolhas acadêmicas que, alguns anos mais tarde, viria a fazer. “A problematização do lugar, do lugar de fala, que é geopolítico também; era muito difícil pensar nessas questões em uma faculdade de formação tradicional, com as aulas de gravura e desenho, mas que não davam espaço para refletir a respeito, diferentemente do que ocorria em disciplinas da agronomia”, justifica ela, que, paralelamente, se dedica a oficializar outro projeto, o Núcleo de Práticas Artísticas e Autobiográficas.”

Revisitando as primeiras imagens feitas, quando ainda aprendia os rudimentos da gravura, Manoela conta que foi aí que ela concluiu que as cartas, os diários, as escritas de vida, enfim, estiveram sempre presentes. “Não me dava conta dessa relação. Não existia o pensamento de que aquilo ali tinha uma potência poética, na história de investigar as raízes familiares.”

Em 2010, já consciente de que tinha nas mãos um precioso projeto artístico, Manoela resolveu voltar a Portugal na companhia dos irmãos mais novos. E, para essa ida, ela planejou uma série de ações criativas. “Mandei fazer, para mim e para os meus irmãos, camisas bordadas nas costas, com uma frase que meu pai dizia: ‘À noite, fecho os olhos e ando pelas ruas da minha aldeia’”, lembra. “Depois, nós andamos por lá como uma ação performática, trabalho que intitulei Reconhecimento de Terra Natal.”

Entre encontros e conversas com os tios, eles produziram vídeos e realizaram uma ‘ação-postal’, a partir de uma imagem do pai, registrada na época em que ele saiu de Vilarinho dos Galegos. E escrevi assim: ‘Peço que, se alguém conhecer esse miúdo, que me mande notícias dele.’ Só que não recebi nenhuma carta de volta”, diverte-se. Manoela conta que o pai só retornaria, pela primeira vez, à aldeia de origem 44 anos após ter saído de lá. E que agora, tendo tomado gosto pelo contato com os parentes, quer visitá-los todo ano. Sentindo que cumpriu uma espécie de missão em relação a ele, a artista se volta agora à investigação das raízes familiares pelo lado materno.”

FIM

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Inspirados por Nise da Silveira

 

Revista da Cultura * Seção: Arteciência. Páginas 44 a 48.
Data da publicação: Setembro de 2014 * Edição n° 86

O legado de Nise da Silveira - Reportagem e texto por Adriana Paiva. Matéria da jornalista Adriana Paiva

 

 

BRAVOS DISCÍPULOS

Dentro de instituição fundada há 103 anos, na zona norte do Rio, museu e série de projetos inovadores mantêm vivo o legado da psiquiatra Nise da Silveira

POR: ADRIANA PAIVA / 03/09/2014

Prédio do Museu de Imagens do Inconsciente, Engenho de Dentro. Uma jovem de pouco mais de 20 anos acaba de subir o último lance de escadas e chegar ao andar. A psicóloga Gladys Schincariol, coordenadora do museu, interrompe sua fala para se dirigir a ela: “Chegou agora? Vai ao CCBB?”. A moça responde com uma negativa seguida de um sim. O ônibus que a conduziria, juntamente com companheiros do centro de convivência, a uma visita à mostra Salvador Dalí: Uma retrospectiva, já estava estacionado lá embaixo.

Antes de descer a escadaria que desemboca no pátio do Instituto Municipal Nise da Silveira, ela ainda volta para avisar: na sexta-feira, vai assistir a uma peça na Casa de Cultura Laura Alvim. Gladys quer saber como ela fará para voltar para casa. A moça diz que mora em Maria da Graça, bairro da zona norte carioca, não muito distante dali, o que leva a psicóloga a logo supor: “Ah, então você vai pegar o metrô em Ipanema. É isso aí!”. A moça aquiesce e despede-se.

A., a jovem da movimentada agenda cultural (que tem seu nome abreviado a pedido do Instituto), já esteve internada na instituição, mas hoje é uma paciente com liberdade para ir e vir. Paciente, aliás, é termo raramente pronunciado ali dentro. Nas dependências do Nise da Silveira, os portadores de transtornos psiquiátricos são mais comumente referidos como clientes.

Funcionária da instituição desde 1974 – quando esta ainda se chamava Centro Psiquiátrico Dom Pedro II –, Gladys tem um punhado de histórias semelhantes para contar. A psicóloga começou a trabalhar ali como estagiária da doutora Nise da Silveira, quando a médica, havia muito, dera partida aos esforços que revolucionariam discursos e práticas da psiquiatria e hoje constituem a maior inspiração do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, que, entre outros pontos, preconiza a humanização do tratamento dos distúrbios mentais e a desinstitucionalização de indivíduos outrora tratados em regime de internação.

Nesses 40 anos, Gladys viu de perto todas as fases da chamada Reforma Psiquiátrica, desde os seus primeiros momentos, no final da década de 1970, com o processo de redemocratização do país. “Quando cheguei, já eram mais de 1.500 internos”, diz a psicóloga. Exatas três décadas antes, quando a doutora Nise começou a trabalhar ali, eram 2 mil os pacientes internados na instituição. Se as internações, nesses 30 anos, não tiveram queda expressiva, do ano 2000 para cá, com o instituto sendo assumido pelo município, elas vêm caindo consideravelmente. “A cada ano são retirados novos doentes daqui e encaminhados para residências terapêuticas. Hoje, devemos ter menos de 100 internos”, avalia Gladys.

As transferências são parte importante do programa de desinstitucionalização, como explica a filósofa clínica Valéria Sayão, responsável pelo setor de comunicação do museu. “São casas normais, onde essas pessoas moram em estado mais ou menos independente, tendo a sua singularidade preservada, mas com apoio técnico.”

Ao lembrar de casos parecidos com o de A., que hoje é atendida em esquema de externato, ela acrescenta: “No passado, eram pacientes que estavam dentro de uma instituição psiquiátrica e, para qualquer lado que se voltassem, tinham essa percepção do atendimento terapêutico. Hoje em dia, eles moram em suas casas. E, assim como nós vamos ao dentista, ao psicólogo ou a outro clínico, eles vêm ao instituto para receber atendimento”.

Na mesma manhã em que a reportagem da Revista da Cultura esteve no museu, Gladys acabara de proceder a um desses atendimentos. “Fiquei durante horas conversando com um cliente que fazia tempo que não vinha”, conta. “Aqui, atualmente, fazemos o que chamamos de projetos terapêuticos. Cada cliente nosso tem o seu próprio projeto. Desse modo, conseguimos lidar com cada um de maneira diferenciada, respeitando suas idiossincrasias.”

Como extensão desses projetos terapêuticos é que, dentro do museu, também funciona um ateliê de pintura e modelagem. Assim que se adentra a sala amplamente iluminada, chamam a atenção as dezenas de desenhos, alguns pendurados nas paredes, outros distribuídos pelas mesas. Gladys escolhe dois para comentar. O primeiro integra uma série de inspiração heráldica cujo autor é um cliente que também faz aulas de desenho em outro núcleo do instituto. O segundo, uma multicolorida composição geométrica, é usado pela psicóloga para ilustrar o progresso clínico de outra cliente. Gladys conta que, quando essa mulher começou a frequentar o ateliê, ela estava a tal ponto medicada que seus desenhos se resumiam a traços muito curtos, dispersos por toda a folha de papel. “Mas veja esse desenho hoje!”, exulta. “Agora, ela está muito bem. É uma querida e auxilia a todos quando vem aqui.”

Enquanto caminha por uma das galerias, discorrendo sobre obras de ex-pacientes do antigo centro psiquiátrico, que se tornaram figuras de renome no campo das artes plásticas (a exemplo de Emygdio de Barros e Raphael Domingues), vez ou outra, Gladys recorre a uma citação da doutora Nise. “Ela falava que o que está doente, que o que se desestruturou, é o ego desses indivíduos. E que pintar, por si só, é terapêutico, porque despotencializa os conteúdos ameaçadores”, pontua, antes de avisar que precisa sair para uma reunião com membros da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente. Há algum tempo, a psicóloga articula com o grupo uma série de iniciativas em prol do museu. “Estamos reivindicando um espaço aqui ao lado. Queremos ampliar, fazer uma exposição maior, abrir mais para a comunidade – inclusive nos finais de semana. Mas tudo isso com uma estrutura realmente museológica.”

HOTEL DA LOUCURA

A cada ano, aumenta o número de programas e iniciativas, dentro do instituto, voltados à integração de portadores de transtornos mentais à vida saudável em sociedade. O médico Vitor Pordeus, por exemplo, está à frente de dois dos mais bem-sucedidos desses projetos: a Universidade Popular de Arte e Ciência (Upac) e o Teatro de DyoNises. Formado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e com experiência teatral obtida em cursos com os atores Amir Haddad e Camila Amado, o carioca fez de uma antiga enfermaria do hospital a sede de ambas as iniciativas.

Sob o irreverente nome de Hotel e Spa da Loucura, desde 2012, é ali que são desenvolvidas várias das atividades que antes aconteciam no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça Onze, localizada no centro do Rio. “Em 2010, estávamos lá fazendo esses intercâmbios em arte e ciência, cultura e saúde, tendo na doutora Nise da Silveira nossa principal referência de artecientista”, lembra Vitor, que também dá expediente na Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil.

Agora, com a sede própria, ele e seus colaboradores têm multiplicado projetos quase no mesmo ritmo em que obtêm visibilidade para eles. Projetos esses que, não raro, ocorrem além dos muros do Instituto. O DyoNises é um exemplo desse esforço. Todas as quartas-feiras, a trupe faz da praia do Arpoador palco das apresentações do espetáculo-oficina Loucura sim, mas tem seu método, inspirado em Hamlet, de William Shakespeare.

Lá se apresentam não apenas parceiros e “hóspedes” do Hotel da Loucura, mas, eventualmente, também curiosos que surgem manifestando desejo de viver a experiência de atuação teatral. “Todas as nossas atividades são abertas. Qualquer pessoa pode chegar e fazer teatro com a gente. Imediatamente!”, enfatiza Vitor. “O teatro trabalha sem estratificação social. Acho que isso é que faz dar certo, isso é que faz andar.”

Perguntado sobre a maneira como o teatro tem promovido a cura das pessoas com as quais ele trabalha, o médico-ator não hesita ao responder: “Ressignificando! A doença também é produção simbólica. Se você quiser mexer na doença, tem que mexer nos fatores simbólicos, culturais e políticos”, defende. “Aqui, tenho muitos casos de cura. Um grupo inteiro de pessoas trabalhando com engajamento e continuidade, com melhoras no estado mental, nas relações, fazendo viagens”, exemplifica, mostrando fotos de integrantes da trupe. Entre eles, Reginaldo Terra, de 64 anos, que continua a viver no instituto, principalmente por já não ter, fora dali, familiares com quem contar. “O Reginaldo, por exemplo, está internado desde os 11 anos de idade. Ama fazer teatro e faz muito bem. Ele improvisa cenas e faz o fantasma do pai do Hamlet.”

Outra participante ativa de projetos do grupo, a atriz Denise de Andrade, que também tem formação em Ciências Sociais, diz que chegou ao Hotel da Loucura depois de ver uma entrevista de Vitor. “Fiquei impactada com a ideia de uma universidade que valoriza saberes acadêmicos e populares de forma igualitária, sem hierarquias”, diz. “Quando cheguei, vi as ideias de Nise da Silveira em sua plenitude: o afeto catalisador, a convivência que quebra preconceitos, a criação livre e a arte produzindo cura coletiva.”

No hotel, ela também participa do grupo de estudos Gerar, que, a cada 15 dias, recebe interessados em discutir textos de autores que embasam as propostas ali desenvolvidas, como Baruch Spinoza, Franco Basaglia, Humberto Maturana, Paulo Freire e José Pacheco. Criador da inovadora Escola da Ponte, em Portugal, Pacheco, aliás, é um dos convidados do Ocupa Nise – 4º Congresso da Universidade Popular de Arte e Ciência, que acontece de 1° a 7 deste mês na sede do Hotel da Loucura.

FIM

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Em tempos de hiperconectividade

 

Revista da Cultura * Matéria de capa. Seção: Tecnologia. Páginas 22 a 24.
Data da publicação: Outubro de 2015 * Edição n° 99

 

Desconectados. Reportagem para a Revista da Cultura

 

 

Eles ficam tão bem longe de seus telefones celulares e sem internet que é comum serem vistos como excêntricos. Mas, atentos às consequências da hiperconectividade, o que eles buscam é o uso consciente das vantagens do mundo digital

POR: ADRIANA PAIVA  | 06/10/2015

O processo é inexorável: estamos imersos em uma era de altíssima conectividade. Cabe-nos aprender a lidar com as implicações de uma realidade que está longe de ser compreendida em sua magnitude. Se nossos smartphones, por exemplo, já nos possibilitam a realização de tarefas inimagináveis até poucos anos atrás, a quantidade de dispositivos aos quais esses aparelhos estão aptos a nos conectar só tende a crescer.

No Brasil, segundo levantamento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o número de linhas de telefonia móvel ativas no país, até o fechamento desta edição, era de 281,4 milhões. Já no que diz respeito à comercialização de aparelhos celulares, embora as vendas tenham experimentado uma queda no trimestre junho/agosto, isso se deu apenas em relação aos modelos mais simples e de baixo custo. De acordo com dados de duas das maiores fabricantes do país, os brasileiros estão comprando aparelhos cada vez mais sofisticados. Aqui, como em outros países, o que se observa é que tarefas antes realizadas em computadores pessoais, laptops ou tablets estão migrando, em ritmo acelerado, para os smartphones. E assim, à distância da mão ao bolso e com desempenho cada vez mais turbinado, passamos a ter, além daqueles recursos já banalizados, os serviços financeiros, a “carona remunerada”, nossos programas e séries de TV preferidos e uma lista interminável de distrações e regalias. E por que ainda reservaríamos ao telefone móvel a função para a qual ele foi originalmente concebido, se podemos conversar por um sem-número de aplicativos e redes sociais?

O fato é que existe um contingente cada vez mais numeroso de pessoas inclinadas a esquecer um pouco de seus smartphones e a afrouxar as amarras com o mundo digital, trocando parte de suas decantadas maravilhas por prazeres simples como a boa e velha comunicação tête-à-tête e – por que não dizer? – o silêncio.

Há quem procure soluções temporárias, como contratar pacotes de “desintoxicação digital” em hotéis e resorts espalhados pelo planeta, locais onde, assim que chegam, os hóspedes são instados a desligar seus gadgets. E ali, além de se dedicarem a atividades como ioga e meditação, revivem práticas que já não eram capazes de ter senão pela mediação de câmeras de celular, como, por exemplo, estar em contato com a natureza. Em Paraty, litoral fluminense, uma pequena vila de pescadores, também conhecida como a “Praia do Detox Digital”, afina-se com essa proposta, recebendo hóspedes por períodos de três a quatro dias.

Há também quem, partindo para soluções duradouras, já tenha conseguido reformular, completamente, sua relação com a internet e outras ferramentas digitais. Este é o caso da artista plástica Renata de Andrade, 55 anos, nascida em Barretos (SP) e radicada em Amsterdã desde 1988. “Fui usuária pesada de todas as redes: Facebook, Twitter, Google+”, conta. E tal era o volume de informações que ela postava em seus perfis que era frequente seus contatos demonstrarem desconforto. Renata, entretanto, não tardou a concluir que também ela não vinha sendo capaz de aproveitar da melhor maneira as informações que por ali circulavam. “Me viciei rapidamente nos sites de notícias”, revela. “E não apenas notícias sobre o que estava acontecendo mundialmente, mas também conteúdos relacionados a interesses que eu tenho em áreas como ecologia, arte e literatura. Essas coisas que te ocupam e, quanto mais conhecimento se tem, mais prazer você obtém com elas.” A essa altura, Renata admite, suas principais fontes de leitura estavam na internet. A constatação de que o tempo excessivo passado online já a impedia de dispensar atenção a outras atividades importantes foi o que a levou, no final do ano passado, à medida radical de abandonar a maioria das redes nas quais ainda mantinha perfil. Ela lista ganhos advindos da decisão: “Agora, estou lendo cinco livros ao mesmo tempo. Livros impressos”, reforça. “Quanto mais você faz, mais tempo você quer. Então, as prioridades vão se empurrando.”

Outro fator que também colaborou para Renata se tornar menos assídua na internet foi a necessidade de dedicar mais tempo e energia a cuidados com a chácara que ela e sua companheira mantêm nos arredores de Amsterdã. “É um terreno com uma casinha e o resto é tudo vegetal – legumes, verduras, flores. A gente está plantando, o que também passa a ser uma rotina. Faz bem ter de ir para esse lugar lindo, tranquilo e fora da cidade”, ressalta, acrescentando que, do loft onde moram, no centro da capital holandesa, até o sítio, elas não pedalam por mais do que 15 minutos. E tão conveniente quanto: lá não tem wi-fi.

Em São Paulo para cuidar de detalhes referentes ao lançamento de Cavalo das almas, seu segundo livro, a artista também realiza, neste mês, intervenções em grafite pelas ruas da metrópole.

GESTÃO DO TEMPO

O paulistano Alexandre Franzin, 36 anos, terapeuta e coach em desenvolvimento pessoal e de carreiras, relata também já vir, há algum tempo, empreendendo esforços no sentido de estar menos à mercê da internet e de outros aparatos tecnológicos.

Ação que se reflete tanto em seu trabalho com grupos e nos atendimentos individuais quanto no seu dia a dia. Entre as medidas que lhe possibilitam se manter em relação saudável com a tecnologia, ele cita a disciplina de desligar o computador muito antes de ir dormir para conectar-se consigo mesmo e meditar. “Tomo nota da minha rotina em um caderno, descrevo como o tempo foi consumido positivamente e onde tive gasto desnecessário de energia. Este exercício me ajuda a ficar atento.”

Alexandre conta ainda que, há pouco menos de três meses, trocou um celular de limitados recursos por um iPhone, mas somente porque o ganhou de presente. E que suas tentativas de manter um perfil profissional no Facebook, por exemplo, não foram adiante. Seu telefone, ele diz, continua a cumprir a função básica de fazer e receber chamadas. Função que, por uma questão de economia, hoje também é combinada ao uso do Whats-App, um dos poucos aplicativos instalados no aparelho. Afora por esse conforto, seu aparelho poderia ser confundido com o de um frade franciscano. “Vez ou outra, acesso e-mails. Mas não tiro fotos, não gravo vídeos, não tenho Instagram, nem Waze ou Facebook. E me sinto muito feliz por isso”, assegura.

Embora crítico à onipresença dos smartphones, Alexandre diz que tenta não ser incisivo quando percebe, por exemplo, que os jovens com quem trabalha excedem-se no uso dos celulares. “Evito: ‘João, desligue o celular, ou: ‘ Você não sai do celular, né?’ Procuro ir por outro caminho: ‘Galera, vamos rever o que estamos fazendo com o nosso tempo e com a nossa atenção!’”

Sem pretender modificar muito o ritmo em que vem se aproximando das vantagens do mundo digital, o terapeuta lança, ainda neste mês, um projeto online de educação e desenvolvimento pessoal intitulado A arte do simples. “Vai ser um desafio pra mim, mas aqui estamos!”

Box: COMO FICA A NOSSA MEMÓRIA?

De que maneira a nossa memória vem sendo afetada pelo avanço exponencial da tecnologia? Essa é uma questão que, volta e meia, ressurge na rotina de atendimentos da psicoterapeuta cognitiva Dora Sampaio Góes, vice-coordenadora do Grupo de Dependências Tecnológicas do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso, vinculado ao Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Pioneiro, no Brasil, em estudo e tratamento de impactos e consequências do uso desordenado de tecnologia, o grupo, que atende pacientes de diversas faixas etárias, tem, segundo Dora, recebido especial procura por jovens adultos e adolescentes levados por seus pais. Um dos motivos da busca são problemas relacionados ao desempenho nos estudos. Não raro, prejudicado pela sobrecarga de informações e por uma ilusão muito comum entre os mais jovens: a de que eles seriam capazes de conciliar várias tarefas simultaneamente. Não são. Pelo menos não se a meta for realizar todas as tarefas com eficiência, costuma advertir a psicoterapeuta. Sobre a maneira como as informações são apreendidas, ela diz: “Enquanto na leitura via internet as áreas cerebrais ativadas relacionam-se à tomada de decisão – abro ou não aquele link? –, ao ler um livro, eu ativo partes do cérebro ligadas à reflexão e à memória de longo prazo”. E finaliza, recorrendo à analogia: “Quando absorvo um monte de informações de uma vez, tudo no meu armário cerebral fica uma bagunça. Assim, na hora em que preciso puxar determinada informação, puxo errado. Ou, na hora em que puxo, não vem”.

FIM

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