As raízes estão no mesmo lugar

 

Revista da Cultura * Seção: Artes visuais.
Data da publicação: Janeiro de 2017 * Edição n° 108. Páginas 64 a 69.

Sagas familiares

AS RAÍZES ESTÃO NO MESMO LUGAR

Artistas desbravam sagas familiares para encontrar um pouco deles mesmos no que foi vivido por seus antepassados

POR: ADRIANA PAIVA / 08/01/2017

Para cada um deles, um elemento catalisador, um atalho. O caminho de volta às raízes, em um movimento que implica, mais do que revolver dores, descobrir, nas ramificações que se espraiam, algumas gratas surpresas. No caso do fotógrafo, escritor e pesquisador carioca Andreas Valentin, de 63 anos, o fator que precipitou esse processo foi um pacote de slides que pertencera ao pai, encontrado algo fortuitamente, em agosto de 2014, na véspera de ele viajar para Berlim, na Alemanha, onde daria início à sua pesquisa de pós-doutorado no Instituto de História da Arte da Freie Universität. “Eu já estava indo para lá com essa intenção, que era justamente a de aprofundar um pouco mais o meu conhecimento da história da nossa família, algo que já vinha fazendo havia algum tempo, junto com meu irmão, no Brasil, e meus primos, no Canadá”, conta. “Então, levei comigo esse pacotinho de diapositivos [slides de 35 milímetros], me segurando para não ver o que tinha ali dentro.” Ele só foi abrir o pacote um mês depois, quando encontrou, na Suíça, com o irmão, o também fotógrafo Thomas Valentin. O conhecimento, enfim, das imagens ali contidas trouxe um novo alento ao processo de resgate de histórias familiares.

ROTAS BERLINENSES

No esforço de perscrutação, ao tentar entender que fotografias eram aquelas, Andreas lembra que as interrogações só se multiplicavam. “Primeiro, que viagem foi essa que meu pai fez com a mãe dele, com a minha avó? Que Berlim era essa na qual eles estiveram?” Até então, ele sequer sabia que o ano em questão era 1975. “Isso só fui descobrindo aos poucos, em um trabalho quase de arqueologia.”

Em meio a investigações que também buscavam refazer o percurso traçado pelos familiares, Andreas começou a esboçar o que viria a ser o projeto Berlin Rio – Trajetos e memórias, que, contemplado com o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia 2015, rendeu um livro homônimo e segue em cartaz até dia 8 no Centro Cultural Justiça Federal, no Rio. Nesse trabalho, os slides catalisadores ganharam especial releitura: Andreas reencenou as imagens daquela viagem de seu pai, Gerhard, em companhia da avó Martha e refotografou-as em preto e branco.
A mostra traz, ainda, documentos e objetos, além de raridades de épocas anteriores às famílias Kaiser e Valentin (parentes do fotógrafo por parte de mãe e pai, respectivamente) virem para o Brasil fugindo do nazismo. A exemplo da reprodução de uma pintura a óleo, presente tanto na abertura do livro quanto na entrada da galeria, onde se vê o tataravô de Andreas, o empresário Valentin Manheimer, cercado pela família durante a celebração do aniversário de 70 anos, em 1887.

Enquanto o projeto já tem desdobramentos sendo avaliados, como uma exibição ampliada, prevista para ocorrer em Berlim em 2018, a garimpagem continua. Processo que, há algum tempo, também conta com a colaboração da historiadora Gabriele Bergner. “De certa forma, foi ela que despertou, em mim e no meu irmão, uns cinco anos atrás, o interesse de nos aprofundarmos sobre a história da família.” Gabriele, que vive em Teltow, subúrbio da capital alemã, vinha realizando pesquisas sobre judeus locais quando deparou com informações sobre um tio-avô dos irmãos Valentin.

“O resgate das histórias continua”, enfatiza Andreas. “E, às vezes, contratado por instituições para fazer pesquisa mais geral, sobre essa classe letrada, de origem judaica, que vivia em Berlim e nos arredores.”

ÁLBUNS DE FAMÍLIA

Memorabilia, projeto da fotógrafa Claudia Jacobovitz, pernambucana de 54 anos, nascida no Recife, já vinha sendo alinhavado em conversas com o irmão e com uma prima desde 2014. “O primeiro foco de interesse desse trabalho sempre foi Nora Pomeranc, essa mulher que concebeu e gerou meu pai, e com quem tive pouca chance de conviver em uma fase mais madura. Eu era muito jovem quando ela faleceu”, recorda Claudia.

A fotógrafa conta que o processo começou a se desenvolver muito calcado na busca dos rastros deixados pela avó, que tinha 22 anos quando saiu da Polônia, em 1927, e imigrou para o Brasil. “Então, por conta do crescente antissemitismo e, posteriormente, da Segunda Guerra e do nazismo, essa família, essa pátria, esses amigos, ela não volta mais a ver. Mas, apesar de toda essa carga de perda, de todo o sofrimento vivido, ela era uma pessoa muito leve, carismática e sábia.”

Outro ponto do projeto destacado pela fotógrafa é a tentativa, assumidamente ritualística, de preencher a lacuna deixada pelos antepassados poloneses. E uma das maneiras encontradas por ela para atingir seu objetivo foi valer-se do rico acervo fotográfico da família perdida. Foram justamente essas imagens que Claudia resolveu levar em sua viagem pela Polônia e por Israel, em janeiro de 2015. “Mas esse projeto, o tempo todo, é muito espontâneo. Não havia nada predeterminado”, reforça. “O que eu levava na minha mala, por assim dizer, era a ideia de um trabalho de memória, a ideia de levar essas fotos para passear.” Em contextos diversos, de Lodz a Jerusalém, Claudia foi depositando as imagens para, em seguida, refotografá-las, evocando, assim, novos significados. “Os lugares foram surgindo. Coloquei, por exemplo, a foto de meus bisavós em um orelhão na Polônia, como uma referência ao fato de que eles esperavam de 15 dias a dois meses para que as cartas chegassem ao Brasil”, ressalta. “No meio do caminho, passamos por Israel, onde tínhamos familiares. Foi lá que surgiu a ideia de fazer outros rituais. E assim também pude levar essas fotos para o Muro das Lamentações. Colei-as no muro, pensando nas regras judaicas que dizem ‘no próximo ano em Jerusalém’”.

Claudia expôs Memorabilia na Arte Plural Galeria, na sinagoga Kahal Zur Israel – a mais antiga das Américas –, ambas na capital pernambucana, e, mais recentemente, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Ela se diz entusiasmada com os desdobramentos que o trabalho continua a ter, como as rodas de conversa com jovens estudantes, e já se articula para torná-lo itinerante.

ARQUEOLOGIA DOS AFETOS

Para a curitibana Manoela Afonso, de 40 anos, professora assistente na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, prática artística, docência e interesse por histórias de vida nunca se mostraram tão profundamente relacionados como agora, quando ela se encontra na iminência de defender sua tese de doutorado na University of the Arts London.

Mas a vontade de conhecer propriamente a história de seus antepassados só veio a ganhar contornos mais definidos muitos anos depois de ela ir, sozinha, visitar Vilarinho dos Galegos, a aldeia ao norte de Portugal de onde seu pai, caçula de 11 irmãos, partira, aos 14 anos, em busca de oportunidades de trabalho no Brasil. A primeira viagem de Manoela à aldeia, hoje incorporada à vila de Mogadouro, aconteceu em 1997. Nessa época, ainda morando em Curitiba, ela acabara de trancar a faculdade de artes, mas continuava vinculada ao curso de agronomia. Experiência que, aliás, ela reputa como responsável por começar a definir as escolhas acadêmicas que, alguns anos mais tarde, viria a fazer. “A problematização do lugar, do lugar de fala, que é geopolítico também; era muito difícil pensar nessas questões em uma faculdade de formação tradicional, com as aulas de gravura e desenho, mas que não davam espaço para refletir a respeito, diferentemente do que ocorria em disciplinas da agronomia”, justifica ela, que, paralelamente, se dedica a oficializar outro projeto, o Núcleo de Práticas Artísticas e Autobiográficas.”

Revisitando as primeiras imagens feitas, quando ainda aprendia os rudimentos da gravura, Manoela conta que foi aí que ela concluiu que as cartas, os diários, as escritas de vida, enfim, estiveram sempre presentes. “Não me dava conta dessa relação. Não existia o pensamento de que aquilo ali tinha uma potência poética, na história de investigar as raízes familiares.”

Em 2010, já consciente de que tinha nas mãos um precioso projeto artístico, Manoela resolveu voltar a Portugal na companhia dos irmãos mais novos. E, para essa ida, ela planejou uma série de ações criativas. “Mandei fazer, para mim e para os meus irmãos, camisas bordadas nas costas, com uma frase que meu pai dizia: ‘À noite, fecho os olhos e ando pelas ruas da minha aldeia’”, lembra. “Depois, nós andamos por lá como uma ação performática, trabalho que intitulei Reconhecimento de Terra Natal.”

Entre encontros e conversas com os tios, eles produziram vídeos e realizaram uma ‘ação-postal’, a partir de uma imagem do pai, registrada na época em que ele saiu de Vilarinho dos Galegos. E escrevi assim: ‘Peço que, se alguém conhecer esse miúdo, que me mande notícias dele.’ Só que não recebi nenhuma carta de volta”, diverte-se. Manoela conta que o pai só retornaria, pela primeira vez, à aldeia de origem 44 anos após ter saído de lá. E que agora, tendo tomado gosto pelo contato com os parentes, quer visitá-los todo ano. Sentindo que cumpriu uma espécie de missão em relação a ele, a artista se volta agora à investigação das raízes familiares pelo lado materno.”

FIM

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