Inspirados por Nise da Silveira

 

Revista da Cultura * Seção: Arteciência. Páginas 44 a 48.
Data da publicação: Setembro de 2014 * Edição n° 86

O legado de Nise da Silveira - Reportagem e texto por Adriana Paiva. Matéria da jornalista Adriana Paiva

 

 

BRAVOS DISCÍPULOS

Dentro de instituição fundada há 103 anos, na zona norte do Rio, museu e série de projetos inovadores mantêm vivo o legado da psiquiatra Nise da Silveira

POR: ADRIANA PAIVA / 03/09/2014

Prédio do Museu de Imagens do Inconsciente, Engenho de Dentro. Uma jovem de pouco mais de 20 anos acaba de subir o último lance de escadas e chegar ao andar. A psicóloga Gladys Schincariol, coordenadora do museu, interrompe sua fala para se dirigir a ela: “Chegou agora? Vai ao CCBB?”. A moça responde com uma negativa seguida de um sim. O ônibus que a conduziria, juntamente com companheiros do centro de convivência, a uma visita à mostra Salvador Dalí: Uma retrospectiva, já estava estacionado lá embaixo.

Antes de descer a escadaria que desemboca no pátio do Instituto Municipal Nise da Silveira, ela ainda volta para avisar: na sexta-feira, vai assistir a uma peça na Casa de Cultura Laura Alvim. Gladys quer saber como ela fará para voltar para casa. A moça diz que mora em Maria da Graça, bairro da zona norte carioca, não muito distante dali, o que leva a psicóloga a logo supor: “Ah, então você vai pegar o metrô em Ipanema. É isso aí!”. A moça aquiesce e despede-se.

A., a jovem da movimentada agenda cultural (que tem seu nome abreviado a pedido do Instituto), já esteve internada na instituição, mas hoje é uma paciente com liberdade para ir e vir. Paciente, aliás, é termo raramente pronunciado ali dentro. Nas dependências do Nise da Silveira, os portadores de transtornos psiquiátricos são mais comumente referidos como clientes.

Funcionária da instituição desde 1974 – quando esta ainda se chamava Centro Psiquiátrico Dom Pedro II –, Gladys tem um punhado de histórias semelhantes para contar. A psicóloga começou a trabalhar ali como estagiária da doutora Nise da Silveira, quando a médica, havia muito, dera partida aos esforços que revolucionariam discursos e práticas da psiquiatria e hoje constituem a maior inspiração do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, que, entre outros pontos, preconiza a humanização do tratamento dos distúrbios mentais e a desinstitucionalização de indivíduos outrora tratados em regime de internação.

Nesses 40 anos, Gladys viu de perto todas as fases da chamada Reforma Psiquiátrica, desde os seus primeiros momentos, no final da década de 1970, com o processo de redemocratização do país. “Quando cheguei, já eram mais de 1.500 internos”, diz a psicóloga. Exatas três décadas antes, quando a doutora Nise começou a trabalhar ali, eram 2 mil os pacientes internados na instituição. Se as internações, nesses 30 anos, não tiveram queda expressiva, do ano 2000 para cá, com o instituto sendo assumido pelo município, elas vêm caindo consideravelmente. “A cada ano são retirados novos doentes daqui e encaminhados para residências terapêuticas. Hoje, devemos ter menos de 100 internos”, avalia Gladys.

As transferências são parte importante do programa de desinstitucionalização, como explica a filósofa clínica Valéria Sayão, responsável pelo setor de comunicação do museu. “São casas normais, onde essas pessoas moram em estado mais ou menos independente, tendo a sua singularidade preservada, mas com apoio técnico.”

Ao lembrar de casos parecidos com o de A., que hoje é atendida em esquema de externato, ela acrescenta: “No passado, eram pacientes que estavam dentro de uma instituição psiquiátrica e, para qualquer lado que se voltassem, tinham essa percepção do atendimento terapêutico. Hoje em dia, eles moram em suas casas. E, assim como nós vamos ao dentista, ao psicólogo ou a outro clínico, eles vêm ao instituto para receber atendimento”.

Na mesma manhã em que a reportagem da Revista da Cultura esteve no museu, Gladys acabara de proceder a um desses atendimentos. “Fiquei durante horas conversando com um cliente que fazia tempo que não vinha”, conta. “Aqui, atualmente, fazemos o que chamamos de projetos terapêuticos. Cada cliente nosso tem o seu próprio projeto. Desse modo, conseguimos lidar com cada um de maneira diferenciada, respeitando suas idiossincrasias.”

Como extensão desses projetos terapêuticos é que, dentro do museu, também funciona um ateliê de pintura e modelagem. Assim que se adentra a sala amplamente iluminada, chamam a atenção as dezenas de desenhos, alguns pendurados nas paredes, outros distribuídos pelas mesas. Gladys escolhe dois para comentar. O primeiro integra uma série de inspiração heráldica cujo autor é um cliente que também faz aulas de desenho em outro núcleo do instituto. O segundo, uma multicolorida composição geométrica, é usado pela psicóloga para ilustrar o progresso clínico de outra cliente. Gladys conta que, quando essa mulher começou a frequentar o ateliê, ela estava a tal ponto medicada que seus desenhos se resumiam a traços muito curtos, dispersos por toda a folha de papel. “Mas veja esse desenho hoje!”, exulta. “Agora, ela está muito bem. É uma querida e auxilia a todos quando vem aqui.”

Enquanto caminha por uma das galerias, discorrendo sobre obras de ex-pacientes do antigo centro psiquiátrico, que se tornaram figuras de renome no campo das artes plásticas (a exemplo de Emygdio de Barros e Raphael Domingues), vez ou outra, Gladys recorre a uma citação da doutora Nise. “Ela falava que o que está doente, que o que se desestruturou, é o ego desses indivíduos. E que pintar, por si só, é terapêutico, porque despotencializa os conteúdos ameaçadores”, pontua, antes de avisar que precisa sair para uma reunião com membros da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente. Há algum tempo, a psicóloga articula com o grupo uma série de iniciativas em prol do museu. “Estamos reivindicando um espaço aqui ao lado. Queremos ampliar, fazer uma exposição maior, abrir mais para a comunidade – inclusive nos finais de semana. Mas tudo isso com uma estrutura realmente museológica.”

HOTEL DA LOUCURA

A cada ano, aumenta o número de programas e iniciativas, dentro do instituto, voltados à integração de portadores de transtornos mentais à vida saudável em sociedade. O médico Vitor Pordeus, por exemplo, está à frente de dois dos mais bem-sucedidos desses projetos: a Universidade Popular de Arte e Ciência (Upac) e o Teatro de DyoNises. Formado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e com experiência teatral obtida em cursos com os atores Amir Haddad e Camila Amado, o carioca fez de uma antiga enfermaria do hospital a sede de ambas as iniciativas.

Sob o irreverente nome de Hotel e Spa da Loucura, desde 2012, é ali que são desenvolvidas várias das atividades que antes aconteciam no Centro de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça Onze, localizada no centro do Rio. “Em 2010, estávamos lá fazendo esses intercâmbios em arte e ciência, cultura e saúde, tendo na doutora Nise da Silveira nossa principal referência de artecientista”, lembra Vitor, que também dá expediente na Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil.

Agora, com a sede própria, ele e seus colaboradores têm multiplicado projetos quase no mesmo ritmo em que obtêm visibilidade para eles. Projetos esses que, não raro, ocorrem além dos muros do Instituto. O DyoNises é um exemplo desse esforço. Todas as quartas-feiras, a trupe faz da praia do Arpoador palco das apresentações do espetáculo-oficina Loucura sim, mas tem seu método, inspirado em Hamlet, de William Shakespeare.

Lá se apresentam não apenas parceiros e “hóspedes” do Hotel da Loucura, mas, eventualmente, também curiosos que surgem manifestando desejo de viver a experiência de atuação teatral. “Todas as nossas atividades são abertas. Qualquer pessoa pode chegar e fazer teatro com a gente. Imediatamente!”, enfatiza Vitor. “O teatro trabalha sem estratificação social. Acho que isso é que faz dar certo, isso é que faz andar.”

Perguntado sobre a maneira como o teatro tem promovido a cura das pessoas com as quais ele trabalha, o médico-ator não hesita ao responder: “Ressignificando! A doença também é produção simbólica. Se você quiser mexer na doença, tem que mexer nos fatores simbólicos, culturais e políticos”, defende. “Aqui, tenho muitos casos de cura. Um grupo inteiro de pessoas trabalhando com engajamento e continuidade, com melhoras no estado mental, nas relações, fazendo viagens”, exemplifica, mostrando fotos de integrantes da trupe. Entre eles, Reginaldo Terra, de 64 anos, que continua a viver no instituto, principalmente por já não ter, fora dali, familiares com quem contar. “O Reginaldo, por exemplo, está internado desde os 11 anos de idade. Ama fazer teatro e faz muito bem. Ele improvisa cenas e faz o fantasma do pai do Hamlet.”

Outra participante ativa de projetos do grupo, a atriz Denise de Andrade, que também tem formação em Ciências Sociais, diz que chegou ao Hotel da Loucura depois de ver uma entrevista de Vitor. “Fiquei impactada com a ideia de uma universidade que valoriza saberes acadêmicos e populares de forma igualitária, sem hierarquias”, diz. “Quando cheguei, vi as ideias de Nise da Silveira em sua plenitude: o afeto catalisador, a convivência que quebra preconceitos, a criação livre e a arte produzindo cura coletiva.”

No hotel, ela também participa do grupo de estudos Gerar, que, a cada 15 dias, recebe interessados em discutir textos de autores que embasam as propostas ali desenvolvidas, como Baruch Spinoza, Franco Basaglia, Humberto Maturana, Paulo Freire e José Pacheco. Criador da inovadora Escola da Ponte, em Portugal, Pacheco, aliás, é um dos convidados do Ocupa Nise – 4º Congresso da Universidade Popular de Arte e Ciência, que acontece de 1° a 7 deste mês na sede do Hotel da Loucura.

FIM

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