Fotografia e passagem do tempo

 

Revista da Cultura * Matéria de capa. Seção: Fotografia. Páginas 24 a 31.
Data da publicação: Novembro de 2014 * Edição n° 88

Perfil de Thaís Gulin por Adriana Paiva

 

MEMÓRIA EXPANDIDA

Artistas e coletivos de fotógrafos encontram na passagem do tempo matéria e desafio para a criação de projetos que extrapolam os suportes tradicionais e, não raro, vão parar nas ruas

POR: ADRIANA PAIVA / 06/11/2014

De Brasília e de Belo Horizonte, mas com atuação também fora de suas cidades de origem (e, inclusive, do país), esses grupos de artistas e fotógrafos têm em comum o fato de encontrarem na passagem do tempo matéria para a criação. Seja pelo resgate da história dos indivíduos retratados, seja pelo uso de métodos próprios da arqueologia ou mesmo enquanto desafio para continuar produzindo coletivamente. Outra linha costura o trabalho de todos: vai longe a época em que eles libertaram a fotografia dos suportes convencionais, apresentando-a para fora das galerias, e, amiúde, imbricada com outras linguagens.

Atuando como coletivo fotográfico desde 2007, Armando Salmito, Henry Macario e o casal Arthur Monteiro e Isabela Lyrio integram o brasiliense Punctum. Três deles estão às voltas agora com o projeto Ensaios sobre o tempo, que deve desdobrar-se em livro, mostras e oficinas itinerantes nos primeiros meses de 2015. A ideia para a empreitada começou a ganhar corpo a partir de um convite de Kazuo Okubo, dono da galeria A Casa da Luz Vermelha, que pretendia reunir, em uma série de iniciativas, fotógrafos em atividade na capital do país..

Uma vez aceito, o desafio do grupo foi criar um projeto que tivesse relação com Brasília e que, de alguma forma, explorasse o tema do tempo. Assim, eles estabeleceram como proposta investigar, por meio de imagens, de que maneiras a passagem do tempo vem alterando a anatomia da cidade e influindo na relação que seus moradores mantêm com ela. Dentro desse princípio, cada fotógrafo elegeu um local a partir do qual desenvolveu seu ensaio. “A gente juntou as temáticas que tinham a ver com a decadência de uma cidade tão nova”, explica Isabela. “Brasília tem 54 anos de fundação, mas é uma cidade que já tem uma história de ruínas”, diz, antes de tocar no assunto que lhe é sentimentalmente caro e que norteia seu ensaio no projeto, a W3 Sul. A mais antiga avenida comercial do Plano Piloto viveu seu período de ouro nas décadas de 1960 e 1970 e, hoje, está em franca decadência. Apesar de tudo, a fotógrafa continua a ver beleza nas ruas onde se habituou a caminhar ainda criança. “A W3 Sul é toda arborizada e você encontra de tudo ali. É um grande passeio público”, defende, sem deixar de destacar que as calçadas estão repletas de sinais do descaso do poder público. “São muitas pedras portuguesas soltas e buracos, de mais de 20 centímetros de profundidade, em plena avenida.”.

Abandonada também está a Piscina de Ondas, tema do ensaio de Henry Macario. Construída dentro do Parque da Cidade, maior centro de lazer público da capital federal, a piscina foi inaugurada em 1978 e, após vários problemas administrativos, encontra-se desativada desde 1997. Embora não tenha frequentado o lugar, Macario encontrou ali o seu elemento. Niteroiense radicado em Brasília desde 1995, foi ao mudar para a cidade que ele se tornou um assíduo nadador. “Longe do mar e das praias do Rio, só me encontrei em Brasília depois que conheci as cachoeiras, as piscinas e o Lago Paranoá”, diz.

Arthur Monteiro valeu-se de sua experiência como retratista, e de um antigo gosto por ouvir as pessoas, para encontrar na Candangolândia o seu tema. É lá onde moram, no que outrora foi um conjunto de acampamentos, vários dos personagens que, direta ou indiretamente, estiveram ligados à construção de Brasília. Monteiro foi atrás de dez desses pioneiros. Encontrou (e fotografou), entre outros, Omar de Moraes, o primeiro alfaiate a se estabelecer na capital federal.

Com as duas primeiras etapas do projeto concluídas, ou seja, a dos registros fotográficos e a da colagem das fotografias em espaços de circulação pública – definidos em conjunto com a curadora, Usha Velasco –, o coletivo dedica-se agora à documentação da receptividade às imagens e do processo de deterioração pelo qual elas já começam a passar.

Foram muitos os fatores que contribuíram para que Usha assumisse a curadoria de Ensaios sobre o tempo. Além da experiência editando publicações voltadas para as artes visuais, ela é integrante de um dos mais longevos coletivos fotográficos do Brasil, o Ladrões de Alma. O grupo, que completa 25 anos de estrada em 2014, está prestes a lançar um livro e a inaugurar uma exposição para marcar a efeméride. “Conheço os punctuns desde 2007 e admiro muito o trabalho deles”, diz. “Fiquei muito grata pelo convite, porque o assunto do tempo me é caríssimo.”

Usha vem desenvolvendo ensaios pessoais sobre o tema desde 1998. Sendo que O olhar no tempo – Encontros e trânsitos, o mais portentoso desses projetos, rendeu-lhe, em 2010, o Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia. Com a proposta de explorar a noção de que a fotografia é uma janela aberta no muro da percepção espaçotemporal, Usha tirou do baú retratos de família, registrados entre as décadas de 1920 e 1930, pelo avô e pelo bisavô, ambos fotógrafos amadores, reproduziu-os em grandes dimensões e distribuiu-os por vários locais de grande circulação na área central do Distrito Federal.
O livro contando a história do coletivo trará um terço de material inédito, entre textos e ensaios fotográficos. Os outros dois terços serão de conteúdo histórico e vão contemplar trabalhos de todos os 24 fotógrafos que passaram pelo coletivo.

DAS GERAIS

Quatro fotógrafos e um jornalista formam o quinteto por trás da Nitro Imagens, sediada em Belo Horizonte. Misto de agência, banco de imagens e editora. Ou, como eles preferem se apresentar, “um coletivo independente de contadores de histórias visuais”. Histórias que eles costumam narrar valendo-se dos instrumentos mais diversos e sempre segundo as afinidades de cada um com os temas eleitos.
Assim foi com Os Chicos, projeto tocado pelo fotógrafo Leo Drumond em colaboração com Gustavo Nolasco, o jornalista do grupo.

A proposta era abordar aspectos do passado e do presente da região do Rio São Francisco sob a ótica dos ribeirinhos. E a partir de um viés bastante original: “Todos os personagens tinham que ser Franciscos ou Franciscas, ou ter o apelido de Chico ou Chica”, conta Drumond. “Quando se fala de cultura oral, sempre se pensa nos moradores antigos ou nos contadores de ‘causos’. Esse recorte nos impôs uma diversidade de gênero e idade que enriqueceu muito o conteúdo”, justifica. Os Chicos acabou se tornando um dos projetos do coletivo que mais repercussão obteve dentro e fora de Minas Gerais. Além das mostras multimídia, que passaram por várias cidades mineiras, o material rendeu os volumes: Os Chicos – Prosa e Os Chicos – Fotografia. Tendo este faturado o Prêmio Jabuti de 2012 como melhor livro de fotografia. A ideia agora é transformar o projeto em documentário.

Prova de que as narrativas visuais da Nitro Imagens vêm chamando cada vez mais atenção foi o convite recebido para participar do conceituado E.CO – Encontro de Coletivos Fotográficos Ibero-Americanos, que aconteceu em Santos (SP), entre agosto e setembro.

Embora sejam uma formação recente como coletivo, André Hauck e Camila Otto, do SC02, também representaram Belo Horizonte no E.CO. Formados em Artes Visuais pela UFMG, eles já trabalhavam em projetos paralelos desde 2006 – Camila com gravura expandida, Hauck com fotografia. Mas a constatação de que funcionavam bem como coletivo só veio a acontecer em 2012, durante uma residência artística em Buenos Aires. Também ali se esboçou o que viria a ser o norte do grupo: circular pelas cidades, mapeando-as visualmente e propondo reflexões sobre como as pessoas moldam e configuram o espaço e são plasmadas por tudo o que as rodeia.

“A passagem do tempo é crucial em nosso trabalho como um todo, seja no deslocamento espaçotemporal, seja no deslocamento de objetos e entre lugares”, diz Camila. Inventariar, ação de 2013, apresentada durante a residência artística RE:USO, já apontava para essa importância – bem como para a opção de subverter os chamados cânones científicos. Percorrendo o Jardim Canadá, bairro da mineira Nova Lima, ao longo de 15 dias, o coletivo realizou um inventário fotográfico de artefatos descartados pela população, ressignificando-os e transportando-os para o universo da arte contemporânea. “Todo o material coletado foi numerado, fotografado, classificado, ordenado e catalogado, como referência a métodos empregados em processos arqueológicos e científicos”, esclarece Camila. Ação semelhante se repetiu na Feira de São Joaquim, em Salvador. Dessa vez, o filtro da coleta foram os elementos sincréticos da cultura baiana.

Ocupados com vários projetos simultâneos, os mineiros do SC02 também se dedicam agora à edição do livro e do blog resultantes de Entre-Lugares, mapeamento visual da cidade de Foz do Iguaçu, tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. A expectativa é de que ambos os lançamentos ocorram na segunda quinzena deste mês.

FIM

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