Mais Náufragos

 

Revista da Cultura * Seção: Cinema. Páginas 48 a 50.
Data da publicação: Junho de 2013 * Edição n° 71

Documentário do uruguaio Guillermo Planel

 

 

Estas veias que não fecham

Documentário do uruguaio Guillermo Planel propõe discussão ampliada sobre direitos humanos na América Latina

POR: ADRIANA PAIVA / 06/06/2013


Mais náufragos que navegantes, quarto documentário do diretor Guillermo Planel, fez recentemente sua première no teatro Oi Casa Grande com sala cheia. Não há exagero em afirmar que boa parte do público que rumou para o shopping do Leblon, no Rio de Janeiro, em uma segunda-feira, o fez por especial interesse no tema em torno do qual gira o filme: direitos humanos. Ao observador mais atento não escapará o fato de que, há tempos, o assunto não frequentava rodas de conversa e noticiários, como tem ocorrido de um ano para cá. Por um lado, pelas informações vindas à tona desde que foi instaurada a Comissão Nacional da Verdade, em maio de 2012. Por outro, graças à figura polêmica e homofóbica de Marco Feliciano, deputado do Partido Social Cristão (PSC) de São Paulo, que, no início de março, assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

Mais náufragos é o primeiro filme do cineasta a não ter o assunto fotojornalismo como carro-chefe e inaugura um novo ciclo na carreira deste uruguaio de 52 anos, que veio com a família para o Rio de Janeiro ainda criança, no início da década de 1970.

JORNALISTAS E VIOLÊNCIA

O título do documentário vem de uma passagem do livro As veias abertas da América Latina (1971), de seu conterrâneo, o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Mas, segundo Planel, a ideia para sua realização começou a ganhar contornos mesmo a partir de uma provocação. Em 2009, ele apresentava o seu premiado Abaixando a máquina – Ética e dor no fotojornalismo carioca (lançado em 2007) em um festival de cinema sobre direitos humanos que acontecia na capital paraguaia, Assunção. No debate que se seguiu à exibição do filme, enquanto falava sobre os riscos envolvidos no trabalho de repórteres fotográficos que cobrem conflitos urbanos, alguém na plateia o interpelou. Era um militante ligado a movimentos sociais que, em tom bastante inflamado, dizia acreditar que a maneira como o fotojornalismo retrata a violência só contribui para fazê-la aumentar. O diretor não pestanejou ao retrucar: “Mas para nós, que moramos no Rio de Janeiro, para nós, que somos jornalistas e trabalhamos nessa área de fotografia e audiovisual, e, principalmente, para quem mora em comunidades carentes, a segurança pública é um dos quesitos mais básicos dos direitos humanos”. Uma das discussões levantadas pelo filme Abaixando a máquina é, justamente, sobre o quão mais desprotegidos pelo aparato do estado encontravam-se os cidadãos cariocas naquela época, imediatamente anterior à instalação das primeiras UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) nas principais favelas da cidade.

Diante da argumentação do documentarista, o militante paraguaio respondeu de volta, justificando que, no Paraguai, a questão dos direitos humanos é mais frequentemente discutida pela ótica do “campesino”, isto é, dos trabalhadores rurais, daqueles que têm pouco ou nenhum direito sobre as terras onde vivem. Mas a “batalha” não terminou por ali. “O cara continuava a achar absurdo o que eu estava falando”, relembra Planel, que, depois de muito argumentar, não viu outra saída senão dar o debate por encerrado. Eu disse: ‘Tudo bem, cada um tem o seu ponto de vista’. Mas, a partir disso, fiquei com a indignação dele na cabeça.”

O assunto ainda ecoou por muito tempo nos pensamentos do diretor. Que interessante seria, ele passou a imaginar, empreender uma jornada pela América Latina a fim de mostrar como cada povo e cada setor da sociedade elegem aspectos diferentes dos direitos humanos como os mais vitais para eles. Menos de um ano transcorreu entre os devaneios e a decisão de, finalmente, cair na estrada. Apesar de ter cogitado angariar recursos para a produção pelas vias habituais, Planel iniciou-a com dinheiro do próprio bolso. E foi o que ele fez questão de frisar logo na abertura do documentário: “Este filme não contou com nenhum patrocínio, de empresa pública ou privada, nacional ou estrangeira”.

Na Argentina, no Chile, no Uruguai, nos oito países para os quais o cineasta viajou com o propósito de conversar com intelectuais, trabalhadores das mais diversas categorias e representações políticas, ele ampliou a discussão, acrescendo à pauta novos matizes. Do homossexual mexicano que buscou asilo no Canadá, por ser perseguido em seu país de origem à chilena funcionária do Palácio de La Moneda que se sente discriminada em seu trabalho de varredora, passando pela jornalista e senadora argentina Norma Morandini, ao escritor Eduardo Galeano e ao arquiteto Oscar Niemeyer (em uma de suas últimas entrevistas), o documentarista diz ter feito o máximo para que seu filme contemplasse personagens e categorias com potencial para enriquecer a discussão por ele proposta.

DIREITOS UNIVERSAIS

Mais de 60 anos depois da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas, é saudável que esse debate seja continuamente retomado. Assinado em dezembro de 1948, ou seja, três anos após a criação da ONU e do fim da Segunda Guerra Mundial, o documento estabelece, ao longo de 30 artigos, os direitos fundamentais de todos os seres humanos, independentemente de raça, cor, sexo, idade, religião, opinião política, origem nacional ou social etc. Embora se reconheça a importância de cunhar uma declaração com tamanha abrangência, é a sistemática inobservância dos direitos aí arrolados que continua a servir de motor a toda a sorte de conflitos ao redor do planeta.

“Sabemos que diferentes nações escolhem diferentes caminhos para atingir a promessa de democracia e que nenhuma nação deve impor sua vontade a outra”, disse o presidente americano Barack Obama, ressaltando, em discurso gravado durante visita ao Brasil, em 2011, diretrizes que seu próprio país incontáveis vezes desrespeitou. “Queremos poder escolher como seremos governados e moldar nosso próprio destino. Esses não são ideais americanos ou brasileiros. Não são ideais ocidentais, são direitos universais. E temos que apoiar esses direitos em toda a parte”, interrompe-se, sob aplausos entusiasmados da plateia.

O ativista argentino Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz de 1980, por sua vez, lembra que os direitos humanos não são um fenômeno estanque e que há, em todo o mundo, uma preocupação crescente com os chamados direitos de terceira geração, categoria também cunhada pela ONU, que engloba os direitos dos povos e de setores da sociedade. “São também direitos mais modernos, que foram incorporados a partir de lutas da sociedade”, acrescenta, a certa altura, o também argentino Julio Santucho, diretor do Instituto Multimedia DerHumALC – Derechos Humanos en América Latina y Caribe, enfatizando que se está tratando aqui de uma questão dinâmica. “Direitos humanos não são um evangelho, são o resultado da evolução da sociedade.”

ITINERÂNCIAS

Entre os compromissos que Planel já firmou para Mais náufragos que navegantes, estava Brasília, no último dia 6, com a exibição do documentário seguida de debate no Auditório Nereu Ramos, da Câmara dos Deputados. No dia 16, às 9h, uma nova exibição do filme acontece no Rio. E, dessa vez, dentro do programa “Domingo é Dia de Cinema”, do Cine Odeon Petrobras, na Cinelândia. Após a projeção, o diretor debate com a plateia o tema “Direitos humanos para quem?”. Um seminário itinerante baseado no documentário também está sendo planejado. A estimativa é que a primeira edição ocorra no segundo semestre deste ano.

A proposta é ter um jornalista mediando debates com personagens entrevistados por Planel – quatro em cada país por onde o evento passar. “A ideia, a princípio, é fazermos em Brasília, Rio e São Paulo. Depois: Buenos Aires, Montevidéu e Santiago. E assim iríamos trocando de personagens e cobrindo toda a América Latina até o México”, antecipa o diretor.

FIM

 

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O que move aquele clique

 

Com a pergunta-mote “Por que eu fotografo?”, eventos em Brasília comemoram
Dia Mundial da Fotografia, nesta terça-feira (19/08), e propõem reflexão sobre produção fotográfica


* Matéria publicada no Yahoo! Notícias em 18/8/2008

 

Bienal do Rio 2007

Acima, uma das imagens que participam da mostra FotoGrama: E você? Por quê?

 

* Por Adriana Paiva, da Verve Press

(Brasília) – Em 19 de agosto, comemora-se o Dia Mundial da Fotografia. Foi nesse dia, no ano de 1839 , que a Academia de Ciências e Artes de Paris anunciou ao mundo a invenção do físico Louis Jacques Daguerre. Aproveitando a data, 39 fotógrafos aceitaram o convite para responder à pergunta “Por que eu fotografo?”. Este é o fio condutor de uma série de ações que acontecem na capital federal, a partir da primeira quinzena de agosto. O objetivo é criar um espaço para reflexão e debates, agregando conteúdo ao processo de fazer, mostrar e ver fotografia.
Foram planejados três eventos dentro de um evento maior: nesta sexta (15/08), acontece a abertura de uma exposição coletiva no Museu da República. No sábado (16/08), a programação prevê debates acompanhados de dinâmicas de grupo, no mesmo local. No domingo (17/08), tem início a mostra FotoGrama, que, dirigida a um público que não tem o hábito de freqüentar galerias, vai reunir fotos de 1m x 60cm, impressas em faixas de vinil e fincadas no gramado que circunda a torre de TV – local onde há grande circulação de pessoas nos finais de semana, muitas oriundas das chamadas cidades-satélites . As imagens são acompanhadas de texto onde cada autor responde à pergunta “Por que eu fotografo?”.

“Nesse primeiro encontro, ou nesses três primeiros eventos, reunimos um conjunto bem eclético de participantes”, conta a jornalista e designer Usha Velasco, uma das organizadoras . São 39 participantes, entre fotojornalistas, fotógrafos de publicidade e amadores, designers e professores.
No Museu da República , estarão expostas 46 fotografias e no FotoGrama, 43. “O resultado foi empolgante!”, comemora Usha . “O conjunto está muito bonito, as respostas muito interessantes; o próprio ato de fazer um texto sobre por que fotografar já estimulou a reflexão” .

Sementes no vácuo

Uma certa insatisfação frente ao vácuo de conteúdo da produção fotográfica atual e à banalização do ato de fotografar é a força motriz por trás desses eventos. “Há muitas imagens no mundo, na mídia, na web, no Flickr, nos blogs, mas nenhum comentário que vá além de ´linda foto, parabéns!’”, avalia Usha. A idéia para a realização dos eventos surgiu de um grupo formado por fotógrafos que começaram a conversar pela internet, após um concurso fotográfico cujas regras eles contestaram . O mailing de fotógrafos caiu na rede e deu origem a uma lista de discussão informal .
Com as trocas via web ficando mais ricas e freqüentes, um núcleo formado por cinco fotógrafos – Usha e Rinaldo Morelli , integrantes do coletivo fotográfico Ladrões de Alma; Isabela Lyrio e Arthur Monteiro, do coletivo Punctum, e por Roberto Castello – se mobilizou e convocou os demais participantes da lista para uma reunião. “Depois de alguns encontros, foram traçadas as diretrizes dos eventos”, relata Usha. Surgia aí a semente do que pretende ser um movimento de incentivo à discussão sobre a produção de fotografia na atualidade.
“Queríamos sair de um padrão que chamamos de ´vitrine vazia´”, diz Usha. “Muita coisa bonita, mas nenhuma reflexão”, ressalta.
Isabela Lyrio, fotógrafa que integrou o núcleo de discussão original , comunga com o ponto de vista de Usha sobre haver atualmente uma produção fotográfica abundante (e acrítica) . “Há muita imagem sendo produzida e as pessoas não param para analisar que tipo de idéia estão gerando”, acredita.

Flickr

Outro tema que tem freqüentado a pauta de discussões do grupo, segundo Isabela, são os sites que, como o Flickr, permitem a publicação gratuita de imagens , além de funcionarem como redes sociais . Ela, que mantém uma conta no Flickr, diz que usa o site basicamente para mostrar seu trabalho aos amigos fotógrafos e que pouco interage com outros usuários , pois acha os comentários trocados ali , em geral, bastante superficiais. “Entre meus amigos, fazemos a brincadeira do ‘Wow, great shot!’, em inglês, ‘Grande clique!’”, revela, referindo-se aos elogios comumente trocados entre usuários do Flickr.
“Penso que a fotografia tem que correr para uma relação ainda mais forte com o objeto” , diz . “Chegar e fotografar, qualquer um pode fazer . Mas, conceber um projeto e se aprofundar exige dedicação”. Isabela, entretanto, não enxerga apenas defeitos nos sites de compartilhamento de imagens . “Com tanta imagem sendo feita, em algum lugar essa produção precisa ser extravasada” , defende . É o que ela, aliás, tem feito com as fotos que vem registrando durante os Jogos Olímpicos de Pequim, para onde foi com o propósito de atualizar seu banco de imagens.

Blog da hora

O fotógrafo Claudio Versiani, criador do blog Pictura Pixel, um dos mais recentes fenômenos de popularidade entre fotógrafos, na rede, é um grande entusiasta das possibilidades de intercâmbio trazidas pela internet. “Não sei por que e nem como aconteceu, mas hoje existe uma comunidade PicturaPixel” , empolga-se . Versiani atualmente mora em Barcelona e conta, via Skype, que há gente que acessa o blog religiosamente, todos os dias. “Isso assusta um pouco”, confessa. “Mas, ao mesmo tempo, faz bem ao ego e incentiva para o duro dia de amanhã”.

Significado à vida

Versiani, que trabalhou durante nove anos no Correio Braziliense como como editor de fotografia, tem sido um dos mais fervorosos apoiadores do movimento “Por que eu fotografo?”. “O evento é genial”, elogia . “Encontrar a resposta para tão intrigante pergunta é saber por que e para que se vive”, define. O fotógrafo lembra que a mesma pergunta , coincidentemente, foi feita na primeira edição da então Revista Eletrônica Pictura Pixel.
“Nós começamos com o Abelardo Morell (fotógrafo cubano radicado em Nova York)” , recorda . “Ele é o papa da câmera obscura” . Nesse mesmo número, além de entrevista, portifólio e vídeo sobre o trabalho do cubano, uma pergunta foi lançada aos leitores: “Por que fotografar?” . “Abelardo Morell, muito antes, já havia respondido: ´Porque me faz sentir vivo, humano e jovem´”. Cláudio Versiani assina embaixo.

Participam do evento, os seguintes fotógrafos: Alain Barki,Alan Marques, Alan Santos, Alessandro Souza,Antonio Antunes, Armando Salmito, Arthur Monteiro, Breno Fortes, Carlos Aversa, Claudio Versiani, Duda Bentes, Ed Ferreira,Eraldo Peres, Fernando Croitor, Hélio Rocha, Henry Macario, Isabela Lyrio, Jefferson Rudy, Jorge Diehl , José Rosa , Josemar Gonçalves , Kazuo Okubo , Leonardo Amaral , Lourenço Cardoso , Luis Tajes , Luísa Molina , Miguel Angelo , Patrick Grosner , Ricardo Padue , Ricardo Reis , Rinaldo Morelli Roberto Castello , Roberto Castro , Rose May Carneiro , Sérgio Fonseca, Susana Dobal , Usha Velasco e Wládia Drummond.

Abertura da exposição coletiva: 15/08, às 19h30
Visitação até 20/08
Debate e dinâmicas de grupos : dia 16/08, a partir das 14h30, no subsolo do Museu da República (Esplanada dos Ministérios)
Ingresso: R$ 10,00 + uma foto
Mostra Foto-Grama: dia 17/08, entre 9h e 18h, no gramado de acesso à Torre de TV de Brasília.

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BIENAL DO RIO 2007

 

Matéria publicada no site Yahoo News, em 24/09/2007

Bienal do Rio – Todo o poder das novelas

 

Bienal do Rio 2007

Gilberto Braga e Silvio Abreu conversam com o público no Café Literário

 

 

(Rio de Janeiro) – Muita rasgação de seda e nenhuma alfinetada. Nesse clima, os teledramaturgos da Rede Globo, Gilberto Braga e Silvio de Abreu dividiram o sofá do Café Literário, no sábado (22/09), penúltimo dia da 13ª Bienal do Livro do Rio de Janeiro, para um bate-papo informal sobre TV e o ofício de escrever novelas.

Confessos admiradores do trabalho um do outro, eles não foram econômicos nos elogios .”A gente se adora, se admira. Isso é ótimo”, disse Gilberto Braga, sobre o autor Silvio de Abreu, que também não esconde a admiração que nutre pelo colega: “Sou fã das novelas dele; são as que mais gosto”.

Logo no início da sabatina, um assunto que, mais até do que a absolvição de Renan Calheiros no Senado, vem mobilizando parte da nação: “Quem matou Taís?”. O responsável pelo trágico destino da personagem vivida pela atriz Alessandra Negrini, na novela Paraíso Tropical, de Gilberto Braga (escrita em parceria com Ricardo Linhares) – cujo capítulo final vai ao ar nesta sexta-feira (28/09), às 21h, segue cercado de mistérios.
Braga justifica a provocação que faz ao público de seu folhetim. “Acho interessante colocar em uma novela um ´quem matou?´, porque faz com que esse assassinato vire a espinha dorsal”, defende. “As histórias dos personagens começam a se unir, virando um grande sucesso na maioria das vezes”.

Humor e glamour

É Sílvio de Abreu, no entanto, quem elege o suspense como um dos principais ingredientes de suas novelas – seus fãs hão de se lembrar da apreensão em torno dos assassinatos de A Próxima Vítima (1995) e Belíssima (2005). O primeiro ingrediente, segundo o autor, é o humor. E Guerra dos Sexos (de 1983, com Fernanda Montenegro e Paulo Autran) foi a novela que, definitivamente, o consagrou nessa seara. Gilberto Braga diz que glamour é o que os fãs não admitem que falte em suas tramas.

E como os autores se sentem em relação aos personagens quando suas novelas terminam? Ambos concordam que o sentimento que fica é quase que de missão cumprida. “É um alívio”, diz Abreu. “Eu acho ótimo, não tenho saudade de nada!”, emenda Braga. “A glória é quando vejo o último capítulo. Acabou, está no ar. Estou de férias!”.

Mas não se pense que esses senhores não têm carinho por seus personagens. Sobre o ofício de propriamente concebê-los, Braga conta, com entusiasmo, que os cria e lapida pensando nos atores de quem gosta. E a primeira pessoa que lhe ocorre citar é Isabela Garcia, atriz para quem ele vem talhando personagens desde Água Viva (novela que a Rede Globo exibiu em 1980). Em Paraíso Tropical, ele diz ter escrito especialmente para ela o papel de Dinorá, que , no meio da trama, o marido substitui por outra mais jovem. “Eu queria que ela fosse uma ex-mulher pentelha”, explica, brincalhão.

Cortando os pulsos

Mas é com outro par romântico da novela que Braga se mostra especialmente envolvido: Neli e Heitor (interpretados por Beth Goulart e Daniel Dantas). “Se eles não ficarem juntos, eu corto os pulsos”, diz, levando a platéia às gargalhadas . Abreu não deixa dúvidas sobre o comprometimento dos autores com suas criaturas: “A gente sofre, se envolve”.
Saudado por intelectuais como um dos mais elaborados autores de telenovelas surgidos por estas bandas, Braga confessa, em dado momento, que sua experiência de fruição estética não se restringe aos clássicos . “Tem hora que a gente quer ver bobagem, se distrair”, admite. “Não é todo dia que eu vou ler Dostoievski, ver peça do Gorki”.

Tabus abaixo

Embora tanto Silvio de Abreu quanto Gilberto Braga partilhem da opinião de que a principal função das novelas deva ser mesmo a de entreter, nenhum dos dois descarta seu papel educativo. Para Abreu, as novelas têm ajudado a demolir tabus e o fizeram, por exemplo, quando explicaram para as pessoas que a homossexualidade não é um problema. Braga complementa a argumentação elogiando o tratamento que Sílvio de Abreu deu ao tema, em A Próxima Vítima, onde um casal gay – Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) – fugia ao tradicional tratamento estereotipado.
Gilberto Braga também criou, em Paraíso Tropical, um casal de homossexuais masculinos (vividos pelos galãs Carlos Casagrande e Sérgio Abreu, igualmente não-estereotipados), em torno do qual a maior polêmica, vinda, segundo ele, de representantes de movimentos gays, diz respeito à “contenção” dos personagens na trama. “Eles reclamam que não tem beijo”, diz o autor.
Outro preconceito que os autores têm tratado em suas obras é o racismo. E, também nesse caso, virando estereótipos pelo avesso. Ainda em A Próxima Vítima, os membros da família negra – que, segundo Abreu, foram muito bem aceitos pelo público – não estavam em condição subalterna, nem viviam na periferia, situações em que os negros, mais comumente, vêm sendo retratados nas novelas. Braga, que diz ter uma longa militância contra o racismo, lembra, a propósito, do destaque que deu ao personagem do fotógrafo negro, inserindo-o no “mundo do glamour”, em Celebridade (2003).

Vaidosos

Ao final do debate, os autores foram questionados sobre suas ambições literárias. Sílvio de Abreu afirma sentir-se realizado com seu ofício. “Não me vejo escrevendo um livro”, garante. Braga diz que não saberia escrever um romance e reitera o que, em sua atividade, mais o motiva: “Trabalhamos com o ator. É nossa matéria-prima”. Ele não diminui a importância do julgamento dos críticos e confessa ficar exultante ao escrever um capítulo que recebe elogios . Revela, ainda, que seu companheiro Edgar costuma dizer que ele fica “um nojo” quando isso acontece.
Antes de a mediadora, a jornalista Regina Zappa, dar por encerrado o encontro, Gilberto Braga pede licença, e, dirigindo-se à mulher de Sílvio de Abreu na platéia, pergunta: “Ele também fica um nojo?”.

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Deolinda – Entrevista

 

Portal Cronópios * Seção: World Music
Data da publicação: Março de 2011

 

Deolinda leva novos ares à música portuguesa

Entrevista e texto por Adriana Paiva

Com pouco mais de trinta anos de idade, Ana Bacalhau, Pedro da Silva Martins, Luís José Martins e Zé Pedro Leitão, os lisboetas do Deolinda, revigoram a música popular portuguesa com canções bem-humoradas e de forte crítica às políticas do primeiro-ministro José Sócrates. Depois de experimentar enorme sucesso em Portugal, a banda viaja pela Europa divulgando o segundo álbum “Dois Selos e Um Carimbo” e planeja, dia desses, vir tocar no Brasil. A seguir, entrevista com Ana Bacalhau, a voz da personagem que deu nome ao grupo:

O Deolinda é a junção de três primos e um amigo que veio a se tornar seu marido. Quando vocês começaram a tocar juntos?

Ana Bacalhau – Começámos a tocar juntos em 2005, depois de um almoço em família. Já andávamos com intenção de fazer qualquer coisa os quatro e naquele dia, proporcionou-se. Como gostámos do que ouvimos logo nesse primeiro ensaio, fomos ficando e tocando. E, agora, é o que se sabe.

Ana, você tem formação acadêmica em Linguística e Literatura. Fale-me um pouco dessa passagem das Letras à Música.

A.B. – Eu estudei Literatura e Linguística Portuguesa e Inglesa, mas o meu amor pela música falou mais alto e fiz dela a minha vida. Se, à primeira vista, a minha formação académica poderá não ter correlação imediata com a música, o facto é que por ter estudado a língua portuguesa, a interpretação textual, a importância da palavra e do texto, tenho um cuidado maior na minha abordagem aos textos das canções que canto. Tento pôr a minha voz ao serviço da mensagem. Isso é, para mim, o mais importante, respeitar a canção.

Ana canta e também compõe? Quais são as atribuições de cada um no grupo? Há planos de gravação em outros idiomas?

A.B. – Eu compus algumas canções numa banda que tive, anterior aos Deolinda, que se chamava Lupanar. Com os Deolinda, a marca autoral do Pedro (da Silva Martins) é muito forte, personalizada e de uma enorme riqueza e qualidade, pelo que, não faz sentido que a minha voz autoral, bem mais limitada que a do Pedro, se faça ouvir. O Pedro compõe a melodia e, a seguir, escreve a letra. Apresenta-nos a canção à guitarra e, imediatamente, começamos a pensar no arranjo e na interpretação. Este projecto nasceu de uma vontade em explorar a língua e música portuguesa e inscreve-se num imaginário muito português. Por isso, achamos difícil gravar numa outra língua.

Você, até recentemente, era arquivista do Ministério das Finanças. Os outros integrantes do Deolinda ainda mantêm trabalhos paralelos à atuação na banda?

A.B. – Todos nós somos músicos profissionais e todos nós tivemos outras profissões, para além da música. Agora, com a agenda de concertos que temos, é impossível manter outra actividade profissional. E também não queremos, porque fazemos aquilo de que gostamos e conseguimos viver disso.

Vocês costumam rechaçar o rótulo de fadistas. Qual seria, então, a relação do Deolinda com o fado, gênero musical que, poderia-se dizer, está para Portugal como o samba está para o Brasil?

A.B. – O fado é uma influência clara e muito forte, nas temáticas de amores não-correspondidos e num universo castiço que é retratado em algumas canções. No entanto, a nossa música não é, na forma ou na essência, fado. Posicionamo-nos na música popular portuguesa, onde se inscrevem os cantautores, o folclore, a canção tradicional. Se, com o nosso trabalho, pudermos chamar a atenção para as formas tradicionais da nossa música e pôr aqueles que nos ouvem atentos ao cancioneiro português, que é riquíssimo e vastíssimo, então ficamos muito felizes.

Fale-me, por favor, quem, entre seus conterrâneos, são os músicos que influenciam ou influenciaram o Deolinda.

A.B. – Zeca Afonso, António Variações, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Camané, Hermínia Silva, Humanos, Clã, Madredeus, Gaiteiros de Lisboa … São muitos e todos eles extraordinários.

O Deolinda tem fortes componentes histriônicos e teatrais, presentes tanto nas canções quanto nas performances da banda. Por que o grupo ganhou o nome dessa personagem do subúrbio lisboeta? Quem é, afinal, essa rapariga de nome Deolinda?

A.B. – A Deolinda representa-nos, de certa forma. Representa o universo musical de quatro músicos que, quando se juntam, fazem aquelas canções, com aquele som, com aquelas características. Costumamos dizer que se o Fernando Pessoa tinha vários heterónimos, nós temos um heterónimo partilhado por quatro pessoas. A Deolinda é uma senhora dos seus 30/40 anos, solteira e observadora. É das suas observações que nascem as nossas canções.

Entre suas influências, você cita pelo menos duas cantoras brasileiras: Elis Regina e Mônica Salmaso. Até que ponto, você diria, nossa música influencia o trabalho do Deolinda? Quem são os outros músicos brasileiros cujo trabalho a banda acompanha?

A.B. – A música brasileira é pedra basilar para qualquer músico que trabalhe a música popular. A forma como se canta o português do Brasil, trazendo para a música o discurso corrente sem com isso sacrificar a beleza poética, cantando com subtileza, sagacidade e emoção, tudo isso faz com que seja obrigatório ouvir e conhecer a música popular brasileira. Para além de Elis Regina e Mônica Salmaso, conhecemos e acompanhamos o trabalho dos incontornáveis Caetano Veloso, Chico Buarque, João Gilberto, Marisa Monte, sem esquecer os grandes Cartola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Los Hermanos (acompanhando ainda o extraordinário trabalho de Rodrigo Amarante, nos Little Joy).

Rodrigo Leão, um dos fundadores do Madredeus, já gravou com Rosa Passos e Adriana Calcanhotto, duas conhecidas cantoras brasileiras. Há conversações entre o Deolinda e músicos daqui, no sentido de formação de parcerias, de colaborações?

A.B. – Neste momento, não temos nenhuma colaboração planeada com músicos brasileiros, no entanto, pela afinidade musical que temos com o Brasil, caso se proporcione, teremos muito gosto em trabalhar em conjunto com músicos que admiramos.

O Deolinda planeja apresentações no Brasil? Tem conhecimento de como anda a receptividade de sua música junto ao público brasileiro?

A.B. – Ainda não conseguimos ir aí tocar, mas queremos muito, até porque recebemos muitas mensagens do Brasil com fãs a pedir-nos que aí toquemos. Esperamos estrear-nos no Brasil este ano ainda, ou no próximo. Temos muitas expectativas relativamente ao público brasileiro e à forma como a nossa música pode ser acolhida no país.

Há quem diga que a canção “Parva que Sou” é uma resposta à politica econômica de José Socrates, no que essa teria limitado o acesso dos jovens portugueses ao mercado de trabalho. A música encontrou ótima acolhida por parte desse público, vindo a tornar-se uma espécie de hino da nova geração. A letra exprime o que vocês pensam sobre a juventude portuguesa?

A.B. – O tema “Parva que Sou” não é uma resposta a ninguém, é a constatação de uma realidade que alguns de nós vivemos pessoalmente e que vemos os nossos amigos viver. O impacto que teve junto das pessoas ajudou a trazer para a discussão pública um problema que, viemos a descobrir, não é só português. Tivemos espanhóis, franceses, ingleses e, até, brasileiros a escrever-nos e a dizer que também eles se reviam de alguma forma naquelas palavras. É um problema que, por afligir muita gente, de todos os quadrantes políticos e classes sociais, deverá ser debatido de forma séria, isenta e unida, com rigor e vontade de encontrar soluções válidas.

O Deolinda sempre teve preocupação em fazer canções com mensagens políticas e sociais?

A.B. – Sempre procurámos retratar nas nossas canções a realidade que conhecemos e falar um pouco das nossas idiossincrasias, com um olhar crítico e com alguma boa disposição à mistura. Para além de pretendermos deixar o público com um sorriso de prazer ao ouvir as nossas canções, é óptimo sentir que deixamos o público, também, a pensar.

Canção ao Lado” foi muito bem recebido pela crítica. E como tem sido a aceitação a esse segundo álbum do grupo? Em que aspectos “Dois Selos e um Carimbo” se diferencia do álbum de estreia ?

A.B. – O “Dois selos e um carimbo” já atingiu o galardão de platina e continua nas tabelas dos mais vendidos, o que nos deixa muito felizes. Mais felizes ainda ficamos ao ver que as pessoas sabem as canções de cor, nos nossos concertos. Este segundo trabalho é talvez mais maduro, reflectido e resultado de dois anos intensos de estrada, em que aprendemos muito, aperfeiçoámo-nos, conhecemos países e culturas novas.

Que papel redes sociais como Twitter e Facebook desempenham na divulgação da banda ?

A.B. – As redes sociais permitem um contacto mais directo do público com os seus artistas preferidos. Isso é importante, não só para quem quer falar em discurso directo com os músicos que admira, mas também para os músicos, que têm ferramentas que lhes permitem a divulgação do seu trabalho de forma eficaz e a baixos custos.

* (Nota: optou-se aqui por manter a grafia originalmente utilizada pela vocalista).

 

FIM

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